Uma lenda recorrente – e já rebatida aqui – diz que os franceses só falam francês. Viram a cara, fazem cara feia ou fingem que não entendem quando você fala em inglês com eles.
Isso é conversa.
Os franceses em geral são muito cordiais. À medida que você se afasta de Paris, a cordialidade aumenta. Mas isso só porque em Paris há muita coisa, menos franceses. Se um francês não entender quando você falar em inglês, acredite: é porque ele realmente não sabe falar inglês.
No circuito turístico em geral, todo mundo arranha bem o inglês. O sotaque é bem carregado, mas nada que prejudique o entendimento.
Isso tudo é só pra lembrar o seguinte: tudo bem que você não fale outras línguas. Mas se você viaja a um país estrangeiro sem estar acompanhado de uma excursão, você tem que saber falar inglês.
E não basta aquele cursinho de férias do Pink and Blue Freedom. Tem que saber falar mesmo. Ou, na pior das hipóteses, entender pelo menos.
Certa vez, eu e Ana O. fomos de Paris a Versailles conhecer o Palácio e seus deslumbrantes jardins.
Parênteses. Pra quem quiser ir, basta pegar um trem de RER – o metrô suburbando de Paris. É mais barato e mais agradável do que pegar ônibus de excursão. Pega-se a linha amarela em direção a Versailles Rive Gauche. Desce-se na última estação, anda-se dois quarteirões e pronto, chega-se ao Palácio. É altamente recomendável comprar antes o Paris Museum Pass, porque você entra direto, escapando de duas filas intermináveis: a da compra do ingresso, e a de entrar no Palácio. Fecha parênteses.
Ao chegar em Versailles, Ana O. ponderou que seria melhor comprar logo o bilhete do RER da volta, já que, à altura em que voltássemos, era possível que a fila estivesse muito grande.
Ok. Saímos do trem e fomos direto à bilheteria. Vazia. À nossa frente, apenas um japa, ou um sujeito oriental qualquer.
Ficamos a tocar dois dedos de prosa enquanto o japa comprava seu bilhete. Sem nos darmos conta do tempo passando, de repente vimos que estávamos há uns 10 minutos na fila e o japa continuava lá no guichê.
“Ora bem, que raios esse japa ainda tá fazendo aí?”
Passamos a prestar atenção na conversa.
O sujeito repetia incessantemente:
“I want a ticket for the palace”.
Ao que a menina novinha do guichê respondia pacientemente:
“You can buy the ticket for the palace in the palace, not here”.
E o japa insista:
“Yes, the palace! I want a ticket for the palace”.
Exasperada, a menina do guichê falou, em alto e bom som, sílaba por sílaba, gesticulando com as mãos pra ver se ele entendia:
“THE-TI-CKET-FOR-THE-PA-LA-CE-YOU-BUY-IN-THE-PA-LA-CE! THIS-IS-NOT-THE-PA-LA-CE, THIS-IS-THE-TRAIN-STA-TION”!
Depois de tantos foras, acho que o sujeito pensou que a francesinha tinha algum preconceito contra orientais e finalmente desistiu de comprar o ingresso para o Palácio. Resignado, saiu da estação carregando sua mochila com eletrônicos.
Quando chegamos no guichê, disse:
“We want to tickets for the palace”!
Sorrindo, a menina respondeu:
“NNNNNNOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!”
é um pessimo habito braisleiro, mas as vezes bem util: prestar atenção nas conversas dos outros.:)))))
Tem toda a razão, Rômulo. Mas, convenhamos, dessa vez não tinha como deixar de ouvir, hehehe. Abraços.