Europa x Euro

A crise econômica européia levou o Euro à berlinda. A união monetária, tida e havida como o grande grito de independência da Europa em relação ao mundo, agora está em xeque.

Mas por quê?

No começo, parecia um sonho: países como Portugal, Espanha, Grécia, Irlanda, que jamais teriam sua dívida pública lançada no mercado com o mesmo respaldo de países como Alemanha e França. Explicando melhor: todo mundo passou a emitir títulos em Euros, não nas moedas antigas dos seus países. Assim, pelo menos à primeira vista, não haveria diferença entre comprar um título da Alemanha ou de Portugal. Ambos valeriam a mesma coisa.

O problema – pelo menos como eu vejo – foi um erro de previsão de quem arquitetou a Uniao Européia. Começando com o acordo de carvão e aço entre Alemanha e França, passando pela Comunidade Econômica Européia e a União Européia, tudo foi planejado pra que, em algum ponto do futuro, a Europa se tornasse um “país”: unificado, com governo central, políticas comuns e – é claro – uma moeda própria. Alemanha, França, Espanha, Portugal, e todo o resto, deixariam de ser nações autônomas para fazerem parte de uma grande Federação Européia. Mais ou menos como nos Estados Unidos.

Parênteses. Estados Unidos não é marca de fantasia. São estados unidos mesmo. Cada um tem constituição e leis próprias, fazem suas próprias eleições, sua própria Suprema Corte, enfim, uma capacidade de autogoverno que quase nenhum outro país tem. Talvez a Suíça. Fecha parênteses.

A questão foi que colocaram o carro na frente dos bois. Antes de resolverem a questão política, fizeram a união monetária. Pra desassossego de quem bolou o plano, a Constituição Européia foi mandado ao lixo. Ficaram, portanto, com o trabalho pela metade.

E o Euro com isso?

Pra se ter um perfeito controle da moeda, você deve ter uma política fiscal (leia-se: orçamento público) e monetária (leia-se: controle de emissão da moeda) próprias. Como não houve a unificação política, ficou-se com a seguinte situação: cada um dos países tem sua própria política fiscal, mas o controle de emissão da moeda pertence unicamente ao Banco Central Europeu.

E daí?

Daí que países com déficit público elevado só conseguem se financiar vendendo títulos ao mercado. Mas se os juros cobrados pelo mercado começarem a subir muito por causa de desconfiança quanto à capacidade de pagamento, só há duas saídas: ou cortar despesas públicas; ou emitir moeda pra poder pagar os títulos que forem vencendo. Essa última opção causa a desvalorização da moeda e, conseqüentemente, inflação.

Com a União Européia, a opção de mandar rodar a máquina na Casa da Moeda foi pro espaço, pois nenhum país tem mais o controle da emissão monetária. Restaria opção de cortar o orçamento público. Mas se o país estiver em recessão – como estão os países europeus – cortar despesas públicas significa aprofundar a recessão, com graves conseqüências sociais: cortam-se as verbas sociais e, ao mesmo tempo, aumenta-se o contigente de pessoas que precisam deles (por causa do aumento do desemprego).

Se não houvesse o Euro, a solução seria relativamente mais fácil. Manda-se rodar a máquina, emite-se dinheiro pra pagar os títulos públicos e, com isso, desvaloriza-se a moeda. Desvalorizando a moeda, a perda de crescimento causada pelo aumento da inflação interna pode ser contrabalançada pelo aumento das exportações. Com a moeda valendo menos, é mais fácil vender seus produtos pro exterior. Que o diga os chineses. Exatamente por isso economistas renomados previram que o Euro não sobreviveria à primeira crise.

Os ingleses – que podem ser tudo, menos bestas – sacaram logo a armadilha e nem sequer chegaram a fazer parte do Euro, apesar de fazerem parte da União Européia. Em uma entrevista que vi outro dia, perguntaram ao Primeiro-ministro inglês, David Cameron,  se a Inglaterra não ia ajudar no pacote de socorro que Alemanha e França – as duas locomotivas da UE – estão montando pra ajudar as economias mais pobres da Zona do Euro. A resposta foi mais ou menos o seguinte:

“Nós somos parte da Europa, mas não fazemos parte do Euro. Os países que o integram têm que achar sozinhos uma solução para esses problemas. Torcemos para que eles achem”.

Traduzindo: “Quebraram? Problema de vocês”.

Alemanha e França já falam em aumentar o valor do pacote pra mais de EU$ 1 trilhão, e que farão de tudo pra salvar o Euro.

Fica no ar a pergunta: será que vale a pena?

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