Hamlet e as vãs citações de quem não leu Shakespeare

9 em cada dez citações de Shakespeare vêm de Hamlet: “Something is rotten in the state of Denmark”, “”There is nothing either good or bad, but thinking makes it so”, e, é claro, “To be or not to be, that is the question”.

Na maior parte dos casos, por questões de eufonia e mesmo estilísticas, as traduções não foram feitas literalmente. Em regra, as traduções não alteraram o sentido original da frase. Por exemplo: Something is rotten in the state of Denmark normalmente é traduzido como Há algo de podre no reino da Dinamarca. Do mesmo modo, There is nothing either good or bad, but thinking makes it so geralmente traduz-se como Nada é bom ou mau em si; depende do julgamento que fizermos

Até aí, tudo bem. O problema está com Há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a sua vã filosofia. Essa frase é produto de um pastiche. Trata-se de uma deturpação do texto original.

Na seqüência da peça, essa frase acontece quando Hamlet, após ter com o fantasma do pai, tenta esconder de Horácio e Marcelo o que efetivamente se passou. Depois de muito insistirem, Horácio e Marcelo conseguem que Hamlet diga o que aconteceu. Mas ele impõe uma condição: nunca revelarem a ninguém o que ali se passou.

Enquanto Hamlet propõe o juramento, o fantasma do pai os rodeia e assombra, urrando: “Swear!” (Jurem!)

Aturdido, Horácio exclama:

O day and night, but this is wondrous strange! (Ó dia e noite, mas isso é formidavelmente estranho!)

Ao que Hamlet replica:

And therefore as a stranger give it welcome. (E, portanto, sendo estranho, dê-lhe as boas-vindas)

E conclui:

There are more things in heaven and earth, Horatio,
Than are dreamt of in your philosophy. (Há mais coisas no céu e terra, Horácio, do que foram sonhadas na sua filosofia).

Hamlet – na verdade, Shakespeare – faz isso por ironia. Horácio é um estudante. Representa a racionalidade. Hamlet representa algo mais passional. Mais especificamente, o conflito entre cumprir ou não a promessa de vingar seu pai matando seu tio.

Mas em nenhum momento Hamlet classifica a filosofia ou a racionalidade como vãs e fúteis. Seu propósito é outro: mostrar que, embora a filosofia e a racionalidade sejam essenciais para o ser humano, elas não respondem a tudo. Há mais no mundo; coisas que a razão não consegue explicar. Por isso é temerário legar todas as soluções da existência ao nosso limitado cérebro.

Portanto, não deixe que a vã tradução continue a propagar por aí.

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36 respostas para Hamlet e as vãs citações de quem não leu Shakespeare

  1. Ana disse:

    Post muito bom.

  2. Nilma Pessoa disse:

    medíocres adoram generalizar com apelos para ignorância, pois os põe no mesmo nível de verdadeiros gênios humanos

    não foi assim que sumarizaram Sócrates: “só sei que nada sei”? tira-se fora o contexto de sua defesa e inventa-se uma frase popularista e de apelo humilde… pronto, somos todos iguais aos maiores gênios em ignorância

    • arthurmaximus disse:

      Perfeita a observação, Nilma. No fundo, é mais ou menos isso mesmo. Citam-se frases a esmo, sem saber o contexto em que foram proferidas nem o significado exato que pretendia seu autor. O caso de Sócrates também é emblemático. Com isso, ficamos todos “igualados” na ignorância. Abraços.

    • Glauco disse:

      Cara Nilma, sua afirmação me parece uma generalização …rsrs Me parece ser natural que citações que tornam se clichês, informalmente sejam adaptadas à contextos individuais, até porquê não se pode exigir profundidade filosófica em frases e citações descontextualizadas.E novamente, sua conclusão também me parece uma generalização…Muitas generalizaçãos em uma pequena observação de uma pessoa acima da mediocridade…rsrsr

  3. Telma Silva disse:

    Telma

    Estava procurando o verdadeiro sentido pra essa frase, para mim foi muito esclarecedor.

  4. Eu sofro ao escutar tão vã (e distorcida) citação e sofro mais ainda ao tentar dizer que ela está errada.

  5. Excelente diálogo! Além, é claro, da ótima explicação no alto da página. Geralmente, e até por oportunismo, citamos adágios ou frases consagradas com o objetivo de “ficar bem na fita”, em circunstâncias onde o que menos conta é a verdade histórica… Minha mão à palmatória!

  6. gabriela disse:

    Shakspear pode ter pensado em outra coisa, mas a frase se encaixa perfeito na teoria do paradigma da modernidade de boa ventura de souza santos. E machado de assis usa ela também na cartomante com sentido de que não sabemos tudo apenas pela razão ❤

  7. Glauco disse:

    Caro Arthur Com todo o respeito ao seu texto, mas realmente não me recordo de situação onde alguém que tenha citado a referida frase de Hamlet, com sentido diferente de sua explanação.

  8. Fantástico! Obrigado pelos ensinamentos e reflexões que tive. Isso foi muito mais que uma aula. Foi “Máximo”!!!

    ——————
    “Há mais coisas entre o Céu e a Terra do que o pensamento e o sentimento do homem possa imaginar.” (Shakepeare apud Hamlet, tradução e adaptação minha).
    ——————

    • arthurmaximus disse:

      Obrigado, Pedro. Um abraço.

    • José Antonio disse:

      Não seria muito mais simples apenas eliminar o vã… Assim aplacaríamos a revolta da Nilma. Além disso, o fato de pessoas “medíocres” admitirem a existência de um mundo desconhecido já diminui a mediocridade e quando admitem não saber nada, mostram simplicidade e a consciência da ignorância…

      José Antonio

  9. Rodrigo Tiago da Silva disse:

    Apesar de achar que a maioria das pessoas não entendem o quão é importante este entendimento, achei muito bom, excelente! Eu sempre fiquei com “a pulga trás da orelha” com esta frase, como a filosofia pode ser vã, por mais que não seja perfeita?

  10. eliasclira disse:

    Ninguém entendeu o Shakespeare, apud Hamlet (nem o Machado de Assis), só você, ôh sábio…

    • arthurmaximus disse:

      Não precisa ser sábio, Elias. Basta ler o original em inglês. #FicaaDica

      • Renato Alvarenga disse:

        Mas você não acha que, por ser uma tradução, é legítimo usar de certa liberdade para exprimir o espírito da língua de destino? A expressão “vã filosofia” ficou tão boa! Claro, alguém pode discordar, mas não me parece sensato alegar que o tradutor desconhece o texto original.

      • arthurmaximus disse:

        Há uma piada no mundo da tradução, Renato, segundo a qual todo tradutor é um “traidor” por natureza. É claro que alguma liberdade é admitida, mas isso deve ser evitado sempre que comprometer ou alterar o sentido original do texto que foi escrito. Concordo que a expressão é bonita, mas, a meu ver, altera bastante o desenho original proposto por Shakespeare. Um abraço.

  11. esclarecedora a explicação

  12. Jose Mauricio Martins Saramago disse:

    O problema do ser humano é achar que ele sabe tudo sobre todas as coisas. Parafraseando Socrates: Sei que nada sei, importa enfatizar que o homem nasceu inocente, sómente depois que o mundo com suas experiencias e axiomas, conseguiu lhe outorgar certa dose de inteligencia e compreensão de “quase” todas as coisas desse mundo. Entao bom que se radicalize “quase”, porque realmente é vã a filosofia do homem que tenta ser o dono do mundo. Humildade é um dos maiores predicados que o homem teria que incentivar, mas parece que humildade não vende, nao cativa, não conquista, etc etc. Àqueles que sentem ser o dono da cocada preta, a ultima coca-cola da festa, a agua do deserto, acha que sendo assim, é um conquistador, um ser especial. Ledo engano, sua arrogancia, cai por terra quando Deus lhe permite uma doença, então cura-te a ti mesmo.

  13. Vilma disse:

    Boa noite.Muito obrigada. Amei o seu artigo e também muito esclarecedor. Um abraço. Vilma

  14. Uma dúvida. Ao falar “filosofia” ele se refere à “filosofia natural” da época? Se sim, fica mais fácil entender porque a famosa tradução “vã filosofia” fica descontextualizada em relação ao texto original. Parabéns pelo post.

  15. G. disse:

    “Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que supõe a tua vã filosofia.” – Acredito que a tradução se deu assim justamente por Horácio ser um ser racional. Foi no sentido de “Olha só Horácio, a TUA filosofia é VÃ, pois você se limita ao mundo material como única forma de existência e razão.”

    Nesse sentido não acho a frase distorcida…

  16. Celso Ribas disse:

    Hilário! no final do artigo ele atesta exatamente o que todo mundo entende da frase, ratifica o que ele mesmo (o autor) contestava no início! kkk

  17. Marlene Arza Corralo disse:

    Voce mesmo se contradiz. Nao se trata de classificar a filosofia ou a racionalidade como vãs e fúteis.
    Como voce mesmo diz, e concordo, o
    propósito é outro: mostrar que, embora a filosofia e a racionalidade sejam essenciais para o ser humano, elas não respondem a tudo. Shakeaspeare nao classificou a filosofia e a racionalidade como vãs e fúteis, mas ele está justamente dizendo que o conhecimento humano , a filosofia de que o homem pode dispor, até onde pode dispor, é limitado! O tradutor inseriu o termo Vã, no sentido de limitação de conhecimentos, nao de fúteis. Esta sua interpretacao ao pé da letra , da traducao que foi feita, utilizando a palavra Vã, é um exagero e denota tambem limitação. Realmente nao é qualquer pessoa que interpreta corretamente a mensagem da forma como ela foi proposta pelo tradutor, mas isto nao significa que voce vai determinar que essa traducao é vã e não deva continuar a ser propagada. Justamente ao utilizar o termo Vã, o tradutor quis enfatizar a questão da limitacao do ser humano quanto a compreensao das coisas que a razao nao consegue explicar.

    • arthurmaximus disse:

      Bom, aí já estamos entrando em um campo demasiadamente metafísico, Marlene. Interpretar o que o tradutor talvez quisesse ter interpretado equivale a desvirtuar por completo o fato de que estamos falando de uma tradução. Ou seja: o ponto principal é o que o autor quis dizer, e não o que o tradutor porventura tenha querido. Fato é que a palavra “vã” não existe no texto original e, na acepção geral que o cidadão médio a costuma empregar, desvirtua inteiramente o sentido original do texto. Um abraço.

  18. Moacyr Gitirana disse:

    Primeiramente, adorei encontrar sua reflexão, pois muito me incomodam, em geral, traduções com mudança de significado desnecessárias, e particularmente este “vã” que ficou consagrado no Brasil. Por outro lado, tenho uma pequena sugestão:

    Se não quiser mudar o tempo do verbo, considere a tradução “Há mais coisas no céu e NA* terra, Horácio, do que SE SONHA na sua filosofia”.

    (* a repetição do “na” aqui não é trair o original, é adaptar ao que é o normal da língua de destino.)

    Aqui “se sonha” pode ser entendido como forma de indeterminação do sujeito, e não como voz passiva, porque, sem mudar o sentido, penso que é necessário adaptar este aos recursos próprios da língua de destino, e o português tem recursos de apassivação verbal ligeiramente diferentes dos do inglês, em que existe, como se vê aqui mesmo, voz passiva de verbo regendo preposição (dream OF things).

    Você, talvez influenciado pelo original inglês, e pelo fato de ser POSSÍVEL falar, em português, “Sonhei coisas.”, interpretou, consciente ou inconscientemente, na tradução, o verbo “sonhar” como transitivo DIRETO, cujo objeto direto seriam “coisas”, tanto que construiu uma voz passiva em que este termo “mais coisas entre o céu e a terra” seria o sujeito passivo de um verbo no plural, concordando com ele em número, “foram sonhadas”…
    Mas por que mudou o tempo? Provavelmente porque achou que ficaria estranho “são sonhadas”… E por que fica estranho? Porque o mais comum em português é usar “sonhar” como transitivo INDIRETO: “Sonhar COM dinheiro dá sorte?”. Até é possível o uso como transitivo direto: “Sonhei (com) coisas ruins hoje.”, mas é mais raro.

    EM inglês, é possível fazer voz passiva mesmo com verbo regendo preposição, “dream OF something”, “Things are dreamt OF.”, mas em português não. O equivalente se torna a indeterminação do sujeito, o que levaria à tradução que proponho.

    Por outro lado, mesmo se você quiser pensar no verbo “sonhar” em voz passiva, ainda pensando como em inglês, com o termo “mais coisas no céu e NA terra” como sujeito de “sonhar”, justifica-se a construção com ele no singular, porque seu sujeito poderia ser interpretado não como o termo no plural explícito na primeira oração (núcleo “coisas”), mas como um pronome dêitico “o”, elíptico na segunda oração, que obedece a regras de transformação: “… do que AQUILO que se sonha na sua filosofia.” > “… do que O que se sonha na sua filosofia” > “… do que se sonha na sua filosofia”.

    Este tipo de pronome anafórico é comum (na verdade praticamente “obrigatório”) ser omitido em construções que seriam/soariam muito eruditas, e às vezes existiu na prática, em latim clássico (escrito), mas se perdeu no vulgar e, consequentemente, na passagem ao português. Por outro lado, o francês é uma língua que conservou muito alguns tipos de pronomes sem valor semântico evidente, como o “ce”. Em português, pensando na frase hipotética “Eu não entendi O a que você se referiu”, o “o” seria o objeto direto de “entendi”, e “a que você se referiu” seria oração adjetiva deste “o” esvaziado de sentido (equivalente a um “ce” do francês), mas na prática se fala “Eu não entendi a que você se referiu.” e a segunda oração é que funciona, ela inteira, como o objeto direto de “entendi”.

    Enfim, “viagens” à parte deste velho professor aqui que ama análise sintática, termino apenas enfatizando, em síntese, meu ponto de vista sobre a questão de se fazer tradução “palava por palavra”, num extremo, e “livre”, em outro… Sou a favor de se manter absoluta fidelidade ao significado do texto original, e só mudar naquilo que for necessário para a tradução parecer de fato, uma forma de expressão própria da língua de destino.

    Eu não entendo qualquer mudança de significado original que não seja RIGOROSAMENTE NECESSÁRIA PARA adaptar este significado às expressões normais da língua de destino, ou seja, não deveriam ser feitas traduções palavra por palavra, como muitos fazem, quando existem expressões completas que equivalem às da língua fonte. Por exemplo, está se tornando comum, agora até em português do Brasil, usar a expressão “não é sobre” ou “é sobre” por má influência de maus tradutores. Temos na língua duas formas de expressão própria equivalentes a esta do inglês “It is not about…”: “Não se trata de…” ou “A questão não é…” Fora de contexto, não estou certo se você vai lembrar situações a que me refiro, mas não me ocorre agora como ilustrar como exemplo, até para não me estender ainda mais.

    Abraço!!

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