Fecha na Prochaska

Quem é mais velho deve se lembrar.

No começo dos anos 80, a Ditadura Militar vivia seus estertores. O país quebrara de fato em 1982 e de direito em 1984. O General Figueiredo já estava mais preocupado com seus cavalos do que em governar o país, e os últimos gorilas empoleirados em cargos públicos preparavam um discreto “meia-volta, volver” às casernas. Mesmo assim, o Dops ainda inspirava temor e a censura comia solta no rádio e na TV.

Em um acordo tácito entre militares e o resto da sociedade, a repressão era amaciada em um único período do ano: o carnaval. Naquela curta semana que marcava o início da Quaresma, a única coisa que vigorava era a regra estabelecida por Tim Maia: vale tudo. Talvez por isso mesmo, os bailes de Carnaval – com suas indefectíveis mulheres desfilando em trajes sumários, não raro de topless –  eram aceitos sem grandes traumas pelos responsáveis pela garantia da ordem e dos bons costumes nas tele-transmissões nacionais.

Curiosamente, o grande barato daquela época era um baile de inspiração assumidamente homossexual: o Gala Gay do Rio de Janeiro. Transmitido pela TV Bandeirantes, o baile recebia gays, lésbicas e simpatizantes do mundo inteiro. Dado seu caráter democrático, até mesmo quem era hétero se aventurava a participar do Gala Gay, tal era a animação que marcava a festa.

Durante a madrugada, Otávio Mesquita e Cristina Prochaska ficavam encarregados de entrevistar os foliões. Mesquita, ainda na sua infância televisiva, era responsável pela avacalhação das entrevistas; tirava onda mesmo. Já Prochaska, uma iniciante nas telenovelas, tentava dar um ar mais sério às suas intervenções, já pensando na sua futura carreira como jornalista.

Lero vai, lero vem, lá pelas 2h30m da madrugada da terça de Carnaval a equipe responsável por cobrir o Gala Gay já tinha dado no saco. “Tá todo mundo bêbado, Eduardo. A essa hora não tem ninguém mais assistindo em casa!”, reclamou Otávio Mesquita a Eduardo Lafond, diretor do programa. “Ok”, disse Eduardo, “vamos fazer só mais uma tomada geral, você entrevista mais alguém e aí depois a gente encerra”, aquiesceu o responsável pela transmissão.

Enquanto o câmera-man “abria” a câmara para pegar a maior quantidade de gente, Otávio Mesquita arrastou um folião para a última entrevista. Do outro lado do take, Cristina Prochaska apenas assistia à cena. Foi quando de repente, por trás de Otávio Mesquita e do entrevistado, apareceu uma daquelas mulheres de corpo exuberante, ostentando apenas um micro-biquíni como vestimenta.

Até aí tudo bem, pensou o diretor. Se de vez em quando se mostrava até mulher com tapa-sexo, que dirá mulher com fio dental. De repente, não mais que de repente, a mulher olhou para a câmera, fez um olhar de safada, arrancou o biquíni com as mãos e começou a dançar com gestos obscenos para a câmera. O diretor enlouqueceu:

“Que porra é essa?!? Tira essa mulher daí!! Vão cortar a nossa transmissão!!”, gritou desesperado Eduardo Lafond no ponto de Otávio Mesquita, que a tudo ouviu impassível.

Súbito, o diretor teve uma idéia. Uma vez que não havia como retirar a mulher à força do lugar onde ela estava, bastava acionar o câmera-man e mudar o foco da transmissão:

“Zezinho”, suplicou o diretor, “FECHA NA PROCHASKA!!”

Ao ouvir isso, o câmera-man deu um close nas partes baixas da figurante desinibida.

E foi assim que a genitália feminina foi exibida pela primeira vez ao vivo na televisão brasileira.

Anúncios
Esse post foi publicado em Crônicas do cotidiano e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s