Pra subir um pouco o nível desse espaço, tava faltando uma resenha de algo sobre literatura.
Ok, ok, ficção nunca foi minha praia. A vida real é muito mais interessante. Mas há certos livros que você não pode passar sem. E alguns autores que você obrigatoriamente tem que ler.
Parênteses. Lembrei-me agora de uma inscrição que há numa das estações do metro de Lisboa. Diz mais ou menos assim: “Parei numa livraria pra contar os livros que ainda tenho que ler nos anos que ainda me restam. Desisti. Não dou nem para a primeira estante”. Fecha parênteses.
Quando alguém fala em Graciliano Ramos, logo vem outro e fala: Vidas Secas.
Tá certo. Vidas Secas é quase uma saga épica, contando a trajetória de uma família de retirantes enfrentando o flagela da seca nordestina. Mas há outro livro dele tão ou mais interessante que Vidas Secas. Chama-se São Bernardo.
Na época em que fiz vestibular, era um dos 10 livros obrigatórios da UFC. Foi o único que li duas vezes.
São Bernardo conta a história de Paulo Honório, um sujeito pobre, sertanejo, que ambiciona um dia sair da pobreza e possuir uma grande fazenda da região: São Bernardo.
Pra conseguir isso, Paulo Honório não mede esforços. Nem tem escrúpulos. Venderia até a mãe, se viva fosse.
O que o livro retrata – pelo menos na minha opinião – é como é inútil buscar riqueza material a qualquer custo. Como o sujeito sabe o modo com ele chegou lá, não consegue mais confiar em ninguém. Os bens que ele amealhou passam a ser a razão da sua existência.
Mesmo quando tenta mudar de estilo de vida casando-se com Madalena, Paulo Honório não consegue se despir da rudeza e do sentimento constante de desconfiança. Na verdade, a mulher passou a ser apenas mais um objeto na sua coleção. Sendo assim, inevitavelmente passa a ter ciúmes dela, começando com os amigos até chegar ao cúmulo de desconfiar do padre que os havia casado. Sufocada, Madalena suicida-se.
E assim, rico, viúvo e sozinho, Paulo Honório resolve escrever um livro sobre a história de sua vida. Logo no começo, um prelúdio do que está por vir: O meu fito na vida foi apossar-me das terras de São Bernardo…
Embora em certas passagens o livro lembre Dom Casmurro, a diferença de estilo de texto enter Graciliano Ramos e Machado de Assis é evidente. Enquanto Machado manipula palavras e construções de frase as mais variadas com a versatilidade de um Pelé, Graciliano é simples, seco, direto, como um Didi. Mas, a seu modo, é igualmente belo.
Aqui, a capa do livro pra quem se animar a lê-lo:
