Pensamento do dia

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Oscar 2025, ou Quais são as chances de Fernanda Torres e de ‘Ainda estou aqui’?

Quem acompanha o Blog há algum tempo sabe que a véspera da festa da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood é tradicionalmente celebrada neste espaço com o Bolão do Oscar. Este ano, contudo, a banda tocará em outra toada. Afinal, não há como ignorar o fato de que o Brasil – sempre um espectador desprezado nessa festa norte-americana – será dessa vez protagonista; e um protagonista em grande estilo.

Lançado há alguns meses, o já imortal Ainda estou aqui conseguiu um feito inédito para o cinema brasileiro. Se antes a gente brigava para descolar uma vaguinha na categoria de Melhor Filme Estrangeiro – e ficava torcendo em vão por alguma zebra que nos trouxesse a estatueta – dessa vez a gente concorre também em duas das categorias mais nobres da premiação: Melhor Filme e Melhor Atriz. E não se trata apenas de concorrer por concorrer, mas de estar literalmente no páreo e, em alguns casos, ser até favorito para trazer o Oscar pra casa.

Com seu discreto atrevimento, Walter Salles conseguiu produzir uma película que é um verdadeiro soco no estômago. Enquanto o Oscar é uma festa originalmente projetada para celebrar a futilidade da fama, Ainda estou aqui traz para dentro dela o peso das urgências dos nossos tempos. Com o filme brasileiro na disputa pelo prêmio principal, a noite de domingo deixa de ser apenas uma disputa por estatuetas, mas se transforma em um embate simbólico entre a arte que denuncia e a política que insiste em repetir seus erros.

Dirigido por um cineasta que prefere o anonimato — talvez para evitar que sua obra seja reduzida a um manifesto partidário —, Ainda Estou Aqui narra a história de uma família dilacerada pela ausência de um pai desaparecido durante a ditadura militar. A trama se desenrola entre silêncios pesados e fotografias desbotadas, enquanto a mulher do ex-deputado Rubens Paiva, Eunice Paiva, busca reconstruir a memória do patriarca em meio aos escombros de um país que, décadas depois, ainda não enfrentou os seus fantasmas. O filme é, acima de tudo, um retrato íntimo do luto coletivo.

Trafegando numa linha tênue que separa a descrição silenciosa do medo e do luto de quem passou pelo que aquela família passou, Walter Salles parece atingir o ponto perfeito de equilíbrio. Um passo em falso e o filme inteiro poderia se precipitar na pieguice e no sentimentalismo barato. Salles escapa dessa casca de banana com maestria e sagacidade.

Para alcançar essa façanha, o cineasta conta com a atuação simplesmente brilhante de Fernanda Torres. Irreconhecível para quem cresceu assistindo suas atuações impagáveis em comédias como Os Normais, a sua Eunice Paiva é um verdadeiro terremoto contido. Sua personagem não grita; ela se despedaça em câmera lenta, só para depois se recompor sozinha, firme na força de quem sabe que terá de seguir com sua vida para criar os filhos do seu marido, sequestrado e morto pelos covardes torturadores da repressão.

Pode parecer pouco, mas em um país no qual, até outro dia, o mandatário do Planalto celebrava torturadores e negava a existência mesma da ditadura militar, a indicação de Ainda estou aqui é quase um manifesto histórico. Assim como o magistral Argentina 1985, o filme de Walter Salles serve de lembrete de que a arte, quando feita com coragem, vira espelho. Se vencer, será menos uma celebração da Academia e mais uma resposta àqueles que ainda sonham com porões escuros e gente indefesa pendurada em um pau de arara. Vivendo numa época em que a extrema direita global — de Trump a Milei, de Orban a Bolsonaro — tenta reescrever a história  e glorificar opressores, o filme brasileiro vem para lembrar que não há como fingir nostalgia de um passado que nunca foi dourado.

Haverá, claro, quem critique a “politização da arte”. Mas essa é a crítica mais sem sentido de todos os tempos. A arte sempre foi política. Ainda Estou Aqui não esconde suas cores. Ele as usa como faixa de protesto. Se vencer, será uma derrota estrondosa para os que ainda vociferam nas redes insociáveis que ditadura é uma questão de “ponto de vista”.

Mas quais as chances efetivas de Fernanda Torres e Ainda estou aqui de levarem as estatuetas pra casa?

Em condições normais de temperatura e pressão, o mais provável é que mais uma vez ficássemos a chupar o dedo. Todavia, há chances nem um pouco negligenciáveis de que a noite do próximo domingo traga mais do que só a festa mundana do carnaval.

Na teoria, Emilia Pérez – com suas treze indicações – seria favoritaço tanto em melhor filme estrangeiro quanto em melhor filme. Porém, cortesia da descoberta do passado nebuloso da estrela do filme, Karla Sofia Gascón, o favoritismo passa de mala e cuia para Ainda estou aqui. Sim, somos favoritos nessa categoria e será uma triste surpresa se perdermos para qualquer outro concorrente aqui.

Já no caso de melhor atriz, a parada é mais dura. Não só porque Demi Moore de fato fez um bom trabalho em Substância, mas porque se trata de um daqueles “oscars de consolação”; um prêmio tardio para o reconhecimento de uma personagem que foi negligenciada pela Academia por tanto tempo. Fora isso, Demi Moore é uma figura bastante carismática e popular entre o público votante. Mesmo assim, como Deus é brasileiro e Fernanda Torres é filha da Fernanda Montenegro, vou arriscar que a Fernandinha vai beliscar essa estatueta e vingar a vergonhosa derrota de sua mãe para Gwyneth Paltrow há mais de vinte anos.

Por fim, no quesito melhor filme, tudo pode acontecer. Apesar de Karla Sofía Gascón, a Academia pode desconsiderar seu passado problemático e acabar rendendo homenagem a Emilia Pérez, premiando o filme com a estatueta principal. O Brutalista também é forte candidato, especialmente pela atuação soberba de Adrien Brody. A despeito da previsão dos cinéfilos, não boto muita fé em Duna 2, um filme tão completamente esquecível quanto a primeira parte. Por isso mesmo, vou cravar que Ainda estou aqui – para espanto geral – vai trazer um histórico Oscar de melhor filme para o Brasil.

No domingo, enquanto os holofotes iluminam o tapete vermelho e o país está distraído com as festas mominas, o Brasil estará lá em Hollywood. Não como o país do Carnaval ou o do futebol, mas como a nação que quer remexer suas cicatrizes para evitar que elas voltem a infeccionar.

E se as estatuetas forem para outros concorrentes?

Nesse caso, paciência. O Oscar, afinal, passa. A história, ao contrário, fica.

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Trilha sonora do momento

Entendedores entenderão.

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Pensamento do dia

O problema não é ser desconfiado. É saber exatamente do que as pessoas são capazes.

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Keeping up with your children

Os pais de Fernanda sempre foram chegados a cultura. Não qualquer cultura, mas a cultura clássica, que formou a base daquilo que conhecemos como “civilização ocidental” (favor não confundir com a “judaico-cristã” que rola na Bozolândia). Pintura, arquitetura, escultura, música… tudo aquilo que formasse o caldo que dá o tempero para uma formação sólida e rica em diversidade era objeto de interesse deles.

Quando Fernanda nasceu, era óbvio que eles tentariam passar o que tinham aprendido adiante. Ao invés de livrinhos de criança, Fernanda recebia livros de arte. Ao invés de contos infantis, livros sobre a mitologia grega. Tudo isso e mais aulas de física e matemática avançadas com o pai nas horas vagas.

Exatamente por conta disso, ao contrário da maioria dos casais de hoje em dia, ao viajarem para o exterior, Fernanda ia junto. Desde ainda bebê até o final da infância, a criança era literalmente levada a tiracolo pelos pais para viajar pelo mundo. Inglaterra, Espanha, Portugal, Alemanha, França… os destinos mais procurados pelos adultos em ritmo de Europa eram os preferidos para fazer com que a pequena começasse a se afeiçoar pelas artes. Intercalando visitas a museus com passeios em parquinhos, a programação de férias daquela família conseguia unir o melhor dos dois mundos, fazendo com que Fernanda tanto aprendesse quanto se divertisse em suas viagens.

Como não dá simplesmente para enfiar cultura goela abaixo de uma criança de seis anos, os pais de Fernanda adotavam técnicas variadas para entretê-la enquanto transmitiam conhecimento para a filha. Em um museu de ciências, por exemplo, o pai distraía a filha com prismas, enquanto ensinava pra ela a teoria das cores. A mãe, por sua vez, elaborava “histórias” para cada escultura avistada. Foi assim que “O Pensador”, de Rodin, transformou-se em um homem tentando se lembrar onde tinha deixado o caderno de anotações. A “técnica” tinha a vantagem de distrair a moça, ao mesmo tempo em que despertava a sua curiosidade para conhecer mais obras de arte.

Certa feita, aquela pequena família resolveu juntar as economias e viajar para Paris. Estando na Cidade-Luz – e considerando o background de todos ali – o Louvre parecia o destino natural de Fernanda e seus pais. Trafegando entre as diversas alas do museu, todos ali puderam presenciar as maravilhas da cultura universal, desde as múmias egípcias até as pinturas de Rembrandt.

Apesar de estarem espalhadas por quase todo o museu, na ala Denon estão a maior parte das esculturas presentes no Louvre. Nesse espaço, há salas em que só existem esculturas, sem nenhuma outra espécie de ornamento. É numa delas, por exemplo (“Galeria Michelangelo”), que é possível apreciar a inigualável Eros e Psiqué, do italiano Antonio Canova.

Como de hábito, ao lado do passeio pelas salas, mãe e filha divertiam-se construindo histórias fantasiosas sobre as esculturas. Tudo ia bem, até quando a família se aproximou de uma estátua em bronze. A mãe pergunta pra filha:

“E aí, Fernanda, qual é a história dessa escultura”

Ao que a criança imediatamente responde:

“Isso aí é Hércules cortando a cabeça da Hidra, mamãe”.

Pai e mãe se entreolharam em espanto. Como será que a imaginação daquela menina tinha ido tão longe?

Não bastava ter passado vergonha ao não identificar o tema da estátua. O pai estava em busca da humilhação:

“Tem certeza, filha?”, perguntou um incrédulo pai da moça.

No que foi prontamente atendido pela filha:

“Tenho sim, papai. É o segundo trabalho de Hércules: Hércules contra a Hidra de Lerna. A cada cabeça que ele cortava nasciam outras duas, até que ele cortou a cabeça do meio e enterrou. Aí a Hidra morreu”, respondeu tranquilamente a infante.

Os pais de Fernanda se aproximaram da estátua. De fato, a descrição da placa batia exatamente com aquela pronunciada pela filha, embora sem referência à ordem do evento na cronologia dos trabalhos de Hércules.

E foi assim que os pais de Fernanda descobriram que, para manter o ritmo com a filha, tinham que estudar muito mais a cada viagem…

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Trilha sonora do momento

Hoje nos despedimos da grande Roberta Flack.

E, para não ir com a maioria – que pensa que ela só tem Killing me softly no repertório -, vamos com a minha favorita dela.

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Pensamento do dia

The entire point of life is to take chances on dreams that seem crazy to most but feel like destiny to you.

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Recordar é viver: “A Basílica de San Giovanni in Laterano”.

Como estamos todos em oração pela saúde do Santo Padre, talvez seja uma boa ocasião para recordar um post do começo da década passada, quando se explicou que, além de Papa, ele também é Bispo de Roma.

É o que você vai entender, lendo.

A Basílica de San Giovanni in Laterano

Publicado originalmente em 4.6.13

Quem vai a Roma, normalmente pensa na mistura inigualável de heranças históricas seculares – como o Coliseu e o Foro Romano – e religiosas – Vaticano e todo o seu imenso acervo arquitetônico. Fora isso, há ainda uma gama de atrações urbanísticas, que vai desde a Fontana di Trevi, passando pela Scalinata di Spagna até chegar na Villa Borghese.

O circuito turístico romano é, de fato, muito grande, e quem quiser conhecê-lo a sério vai perder uns bons quatro dias só andando por aquelas vielas que exalam história de seus tijolos. No entanto, fora do circuito turístico tradicional, há aquela que, na concepção hierárquica da Igreja Católica, é a mais importante Basílica do mundo. E não, não é a Basílica de São Pedro. É a Basílica de São João de Latrão, ou, em bom toscano, San Giovanni in Laterano.

San Giovanni in Laterano

Todo mundo sabe que o Papa é o chefe da Igreja Católica. Alguns até lembram que esse título veio da tradição herdada dos princípios do cristianismo segundo a qual, entre todos os bispos do mundo, o de Roma exercia a primazia sobre os demais. Daí porque, antes mesmo de escolher o Papa ou o Vigário de Cristo, o conclave dedica-se a resolver um problema muito mais banal: quem será o Bispo de Roma.

Pois bem. Assim como não há general sem exército, não há bispo sem igreja para comandar. Portanto, tal qual os demais bispos, também o Bispo de Roma tinha de ter uma igreja para chamar de sua.

O tempo era de o Constantino. Depois de se converter ao cristianismo, o outrora imperador pagão resolveu construir templos para aquela que viria a ser a religião oficial do Império Romano. Conforme já foi explicado aqui, à falta de modelos arquitetônicos para construir igrejas, Constantino recorreu à Basílica de Maxêncio como exemplo para os futuros templos cristãos.

De uma só tacada, Constantino mandou construir três basílicas: São João de Latrão, São Pedro e São Paulo. Das três, duas ficavam fora das fronteiras da cidade romana: São Pedro ficava no Vaticano e São Paulo fora dos muros da cidade (não à toa, ficou conhecida como Basílica de São Paulo extramuros). Por ser a única que ficava geograficamente dentro da cidade, a Basílica de São João de Latrão ficou com a honra de ser a casa do Bispo de Roma. Com isso, ganhou o epíteto de Omnium Urbis et Orbis Ecclesiarum Mater et Caput (Mãe e Cabeça de todas as Igrejas de Roma e do Mundo).

Construída nos idos do século IV, a Basílica de São João de Latrão passou por diversas reformas. A mais importante delas foi em 1650, quando o papa Inocêncio X mandou transformar o projeto original em uma magnífica igreja barroca. A obra ficou ao encargo de um arquiteto chamado Francesco Borromini.

Borromini permaneceu tanto quanto possível fiel ao projeto original de Constantino. Manteve a nave central imensa, ladeada por arcos igualmente gigantes, nos quais se encontram esculturas enormes dos apóstolos. No teto, adicionou janelas, para que a luz desse leveza ao ambiente majestoso dentro da basílica. Alguns anos depois, o papa Clemente XIV mandou acrescentar a fachada monumental, à la São Pedro, para adornar o edifício.

Aliás, a evocação à Basílica de São Pedro parece uma constante para o visitante. Fora a imensidão espacial da igreja, um gigantesto baldaquino abriga o altar central, à semelhança do que ocorre na Basílica Vaticana. Outra semelhança é a existência do trono papal, a indicar a importância da Basílica para a Igreja de Roma. Basta dizer que, até o século XIX, todos os papas foram entronizados nela.

Trono papal

Quem for a Roma por mais de cinco dias, ou estiver de segunda visita à cidade, não deixe de visitar a Basílica de São João de Latrão. Definitivamente, vale muito a pena.

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Trilha sonora do momento

Pra não ter que repetir a grande Beth Carvalho, vamos hoje de Kool & The Gang.

Porque, convenhamos, só uma cadeirada foi pouco…

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Pensamento do dia

O tempo. não espera por ninguém e a morte não aceita desculpas.

#FicaaDica

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