Pensamento do dia

Chegar na vida adulta é perceber que você sofreu mais pela insistência do que pela perda.

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Recordar é viver: “O cenário eleitoral de 2018”

“Futuro ex-PDT”.

Demorou, mas chegou.

É o que você vai entender, lendo.

O cenário eleitoral de 2018

Publicado originalmente em 6.6.18

Usando o teclado como espanador para tirar a poeira que tomou conta deste espaço nos últimos meses, vamos ao tema do momento – e de todos os momentos que se seguirão daqui até outubro: a eleição presidencial.

Que esta será a disputa mais incerta e encarniçada desde a redemocratização, não há a menor dúvida. Rivalizando apenas com a eleição de 1989, em pleno mês de junho, a pouco mais de um mês das convenções partidárias, não se sabe ainda: 1- quem vai concorrer; e 2- em que condições vai concorrer. Esse cenário turvo e embaraçado é potencializado principalmente por dois fatores:

O primeiro deles, óbvio, é o fator Lula. Com o líder das pesquisas na cadeia e potencial candidato a ser excluído liminarmente do pleito pela Lei da Ficha Limpa, todo o campo “progressista” encontra-se acéfalo, com líderes pulverizados disputando como piratas o butim eleitoral do petista para ver quem consegue levar o maior naco de votos.

O segundo deles é o nanismo do Governo. Abalroado por duas denúncias criminais e na bica de encarar a terceira, Michel Temer não tem poder para influenciar em nada a sua própria sucessão. É como se o mal cheiro que exala do Planalto transmitisse alguma forma de peste que detona o potencial eleitoral de qualquer candidato. Não à toa, todos aqueles que se identificam com o tal do “centro ideológico” fogem de Temer como o diabo da cruz (ou o contrário).

Com os dois principais atores fora de ação, não é difícil concluir por que teremos uma eleição tão pulverizada. Sem uma força dominante para ditar o ritmo do jogo, políticos de todas as matizes invadem a arena eleitoral como os bárbaros invadindo Roma. Resta saber, contudo, quem terá fôlego para permanecer de pé até o fim da batalha.

No lado da extrema-direita, Jair Bolsonaro passeia lépido e fagueiro sem que nada nem ninguém seja capaz de importuná-lo. Ao contrário do que ditava o senso comum e exatamente como foi previsto aqui, Bolsonaro não desinflou e continua subindo nas pesquisas. Fora isso, é cada vez maior o percentual de eleitores convictos da opção Bolsonaro como melhor alternativa para o país. Mais de 80% dos que declaram voto no ex-capitão do Exército dizem que votarão “com certeza” nele. Se os 25% da última pesquisa podem representar um teto, 20% seria seu piso. Numa eleição tão pulverizada, esse patamar é mais do que suficiente para levá-lo ao segundo turno.

No lado do “centro”, a falta de densidade eleitoral do governismo detonou um curioso processo de barata-voa. Meirelles tenta se lançar pelo PMDB, se diz governista, pero no mucho. Do outro lado, ninguém leva muita fé na candidatura de Rodrigo Maia, muito menos ele, que tenta se cacifar para presidir a Câmara novamente no próximo biênio. Enquanto isso, Paulo Rabello de Castro, Flávio Rocha e uma enorme lista de et cetera vão vendo quem consegue furar a incrível marca do 1% dos votos.

No meio dessa meia dúzia de nanicos, Geraldo Alckmin continua jogando parado na estratégia highlander de que there can be only one. Além de ser altamente improvável que os demais partidos abram mão de suas candidaturas para entrar numa barca que até Fernando Henrique Cardoso reconhece como furada, mesmo que isso acontecesse o sucesso eleitoral do ex-governador paulista não estaria garantido. Alckmin perde de Bolsonaro até mesmo em São Paulo. Se é assim no estado em que ele governou por quatro mandatos, por que acreditar que ele conseguirá mais votos do que Bolsonaro nos demais estados da federação?

No lado da esquerda, Guilherme Boulos e Manuela D’Ávila ocuparam seus nichos do eleitorado e pouco poderão fazer para sair de lá. Ciro Gomes até agora tem conseguido disfarçar com sucesso suas tendências políticas e ainda é identificado com o chamado “progressismo”. Sua estratégia eleitoral é fundada numa variante da estratégia Alckmin de que “somente pode restar um”. Confiando que ninguém mais nesse campo atingirá o seu patamar, o ex-Arena, ex-PDS, ex-PMDB, ex-PSDB, ex-PPS, ex-PSB, ex-Pros e futuro-ex-PDT acredita que os votos da esquerda cairão por gravidade no seu colo, habilitando-o a uma disputa no segundo turno contra Bolsonaro.

Será?

Embora a prisão de Lula represente um revés evidente para qualquer pretensão eleitoral, o ex-presidente continua sendo o maior cabo eleitoral do país. Mesmo que não consiga se candidatar novamente, Lula ainda dispõe de capital político bastante para embaralhar a sucessão e tornar a disputa mais imprevisível do que já é. Um novo dedazo de Lula pode não ser suficiente para eletrificar imediatamente um poste qualquer e catapultá-lo para 40% dos votos, como aconteceu com Dilma Rousseff. Mas o PT não precisa de tudo isso. Basta metade desse patamar para levar um candidato seu (provavelmente Fernando Haddad) à segunda ronda.

Não por acaso, o ex-presidente – curiosamente, a única cabeça ainda pensante no PT – descarta qualquer possibilidade de acordo no 1º turno com Ciro Gomes. Lula sabe que ele e Ciro carregam projetos antagônicos. Lula só apoiaria Ciro em último caso, e mesmo assim o faria a contragosto, porque sabe que correria o risco de transformar o PT em força auxiliar do cirismo. O ex-líder sindical tende a apostar todas as suas fichas nessa jogada, acreditando que, numa eventual disputa contra Bolsonaro, a maioria da população apoiaria Haddad com base na teoria do “mal menor”.

A verdade, portanto, é que o jogo eleitoral de 2018 continua mais aberto do que nunca. E o único sujeito capaz de desequilibrá-lo permanece, contra a vontade, no banco. Resta saber o que os demais jogadores farão para tentar neutralizá-lo.

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Trilha sonora do momento

Só falta dizerem agora que o Porta-aviões foi enviado por Deus também…

#ironiaON

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Pensamento do dia

Quando algo se repete, é a vida insistindo na lição.

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O assédio militar dos Estados Unidos à Venezuela, ou Normalizamos o arbítrio?

Já virou notícia velha, daquelas que a gente ouve, nem presta atenção direito e já emenda para alguma novidade mais “relevante”: o bombardeio realizado pelos Estados Unidos a embarcações venezuelanas. Sem nenhum processo, nenhuma evidência, sem nem sequer se preocuparem em dizer pelo menos quem são as pessoas que estão morrendo, os Estados Unidos estão assassinando – o verbo é rigorosamente esse – supostos narcotraficantes através de bombardeios indiscriminados a barcos que navegam pelo Caribe.

São tantos absurdos no mundo de hoje que é às vezes é difícil para pensar e refletir sobre certas atrocidades. Em um mundo no qual as drogas desempenham o papel de deletério de serem causa e consequência de boa parte da violência que vivemos, ninguém liga muito se morre mais um bandido. No limite, dane-se o traficante.

Mas quem garante que as pessoas que estão sendo assassinadas são de fato traficantes? Quem assegura que os barcos que estão sendo explodidos a esmo no mar do Caribe estão carregando de fato drogas ilícitas? E mais: quem outorgou ao Laranjão o poder de ser, a um só tempo, juiz e executor dos narcotraficantes que utilizam a via marítima? A menos que a consciência mundial dos seres humanos tenha descido a níveis tribais, ninguém pode admitir que um país estrangeiro venha a matar seus concidadãos sem oferecer uma única prova e sem respeito ao mínimo processo legal, unicamente com base no pressuposto de que la garantía soy yo.

A Convenção das Nações Unidades sobre o Direito do Mar, algo como “a constituição dos oceanos”, estabelece regras claras para esse tipo de caso. Na hipótese de tráfico internacional de entorpecentes, as normas convencionais exigem que o navio suspeito deve ser apreendido, para que a tripulação possa ser levada a julgamento. Se de fato houver transporte de drogas ilícitas, a carga apreendida deve ser utilizada como prova para a condenação. Quando se bombardeia navios aleatoriamente, do alto, com câmeras desfocadas, ainda mais quando eles não podem sequer oferecer resistência, bombardeia-se também a linha que separa o Direito da barbárie.

A extensão dessa ação criminosa para o Pacífico representa uma escalada aberta das pretensões imperiais do Nero dos nossos tempos. As ações são tomadas de forma unilateral, sem qualquer critério de transparência ou accountability. A mensagem é clara: para os Estados Unidos, não existem limites. A lógica é a do “faço porque posso, e ninguém tem força para me impedir”.

No fundo, tudo isso não passa de sanguinolento teatro geopolítico. Os bombardeios servem ao propósito nem um pouco velado de assediar militarmente a Venezuela, de modo a impor a queda de Nicolas Maduro e, consequentemente, uma mudança de regime no país caribenho. Enquanto a comunidade internacional assistir a tudo em silêncio, o Laranjão prosseguirá com sua ação ilegal. Até isso acontecer, vamos ficar nos perguntando:

“Quantos dos assassinados eram culpados? Quantos eram inocentes?”

Jamais saberemos.

E não por culpa das vítimas…

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Trilha sonora do momento

Com o Laranjão agora querendo assediar militarmente a Venezuela, só recorrendo ao pessoal do Skank para ajudar a desopilar.

Venezuela, donde estás?

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Pensamento do dia

Você não precisa se preocupar em mostrar que mudou. Deixe que a vida se encarregue disso.

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Trilha sonora do momento

Entendedores entenderão.

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Pensamento do dia

Quem aparece só quando precisa vai desaparecer quando você mais precisar.

#FicaaDica

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O Menestrel das Alagoas

Muita gente costuma pensar que, durante a ditadura militar, quem estava do lado dos milicos era gente estúpida ou de má coração. Feliz ou infelizmente, a realidade era bem mais colorida do que essa versão maniqueísta de preto e branco que costuma permear o imaginário popular. Era o caso, por exemplo, de Teotônio Vilela.

Seguindo a carreira do pai, Teotônio construiu a carreira políticas nas Alagoas. Quando veio o golpe e a ditadura, Teotônio estava do “lado certo”, ou seja, ao lado dos que apoiaram os militares. Arenista de primeira hora, Teotônio elegeu-se senador em 1966 e de lá nunca mais saiu. Fez famoso pelos discursos apaixonados, com uma certa verve poética. Deve-se a um discurso dele, por exemplo, o luto oficial de três dias pela morte de JK (um proscrito) em pleno governo Geisel. Por essa e por outras razões, ganhou o apelido de “Menestrel das Alagoas”.

Ocorre, no entanto, que o epíteto cairia melhor em outro conterrâneo de Teotônio. Sim, estamos falando dele mesmo: Djavan Caetano Viana, ou, simplesmente, Djavan.

Alagoano de Maceió, esse filho de uma lavadeira e de um caixeiro-viajante de origem holandesa que fez o filho e depois partiu, Djavan deixou uma promissora carreira de jogador de futebol para mergulhar nos acordes melódicos que vinham do seu coração. Como bom nordestino, Djavan sofreu influência do frevo e do baião.

Mas, curiosamente, o primeiro sucesso veio através de um samba bem raiz, pule de dez em qualquer roda que se preze. Apesar das lendárias (e trágicas) teorias conspiratórias que a cercam, Flor de Lis retrata apenas mais uma daquelas histórias de amor sofrido. É também do álbum de estréia outro clássico do samba e do cancioneiro nacional: Fato consumado.

Ao contrário de muitos artistas por aí, Djavan não fez sucesso e deitou na cama. Pelo contrário. Foi trabalhar duro. Em um amadurecimento musical impressionante pela rapidez com que se consumou, Djavan começou a emendar álbuns e hits numa sucessão impressionante. No começo da década de 80, não teve pra ninguém. Com quase um disco por ano, Djavan tornou-se figurinha carimbada nas paradas de sucesso.

Em Alumbramento (1980), por exemplo, temos duas de suas melhores canções: Lambada de serpente e Meu bem querer.

No ano seguinte (1981), Seduzir trazia, além da música-título, a inesquecível Faltando um pedaço.

Sem perder o pique, Djavan lançou em 1982 o que foi talvez o melhor álbum no seu conjunto: Luz. Além dos clássicos Pétala, Sina e Açaí, Djavan ainda se deu ao luxo de gravar a belíssima Samurai com nada mais, nada menos do que Stevie Wonder fazendo a harmonia da canção.

Sina, por sua vez, popularizaria o verbo “Caetanear”. Neologismo para qualquer um que aja de forma lírica, poética e inovadora, a música virou sucesso instantâneo e rendeu até um fantástico e inesperado dueto com o “muso inspirador” do verbo:

Açaí, contudo, viria a se tornar uma espécie de “maldição” para Djavan. O crítico de música Artur Xexéo – que pegara uma rixa com o cantor por motivos menores – resolveu tirar onda com a letra a canção e criou o irônico prêmio “Zum de Besouro”, “oferecido” aos artistas que produzissem qualquer coisa non sense. O próprio Djavan, por mais uma vez, sentiu-se obrigado a ter de explicar a letra da música em entrevistas:

Apesar dos entreveros com a crítica musical, Djavan seguiu em frente. Lilás, em 1984, traria consigo a linda música-titulo:

Mas foi no final dos anos 80 que Djavan compôs aquela que seria sua obra-prima. Trilha sonora romântica da novela Top Model, Oceano nasceu imortal, sendo considerada por muitos críticos a música mais bonita de toda a Música Popular Brasileira.

Sem tirar o pé do acelerador, Djavan entrou com tudo nos anos 90. No seu Coisa de Acender, ele trouxe a belíssima Se…, com uma analogia que entraria para o folclore popular: “Mais fácil aprender japonês em braile“.

Djavan fez-se tão versátil que foi até chamado pelos Paralamas do Sucesso para fazer uma participação especial em Vamo batê lata. Uma brasileira fez sucesso não só nas rádios, mas também em vídeo, levando dois prêmios no MTV Music Awards de 1995:

Como se vê, a cronologia de Djavan não é apenas uma linha de tempo em que se empilham sucessos. É antes tudo o retrato de um alquimista musical que fundiu o regional com o universal, criando um estilo a um só tempo elegante e atemporal. Por isso mesmo, mais do que Teotônio Vilela, se há alguém que merece receber o título de “Menestrel das Alagoas”, esse alguém atende pelo nome de Djavan.

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