Durante o governo Geisel, rolava uma guerra fria entre o presidente e seu ministro do Exército, Sylvio Frota. Candidato, Frota pensava que seria capaz de emparedar o “Alemão” e forçá-lo a indicá-lo como seu sucessor. A relação já atingira tal nível de esgarçamento que, em determinado momento, Frota mandou seu gabinete cancelar um encontro convocado por Geisel – que, como presidente, era seu superior hierárquico – porque, segundo ele, “não havia nada importante a despachar”.
Em um almoço em Brasília naquele tenso mês de outubro de 1977, um então jovem jornalista chamado Elio Gaspari almoçava com o (já naquela época) senador José Sarney. Gaspari aproveitou a ocasião para perguntar ao senador do Maranhão qual o desfecho que ele imaginava para a crise entre o presidente e seu ministro do Exército. Respeitado por ser um notável conhecedor dos meandros da política brasiliense, Sarney limitou-se a responder:
“É. Um dos dois vai ter que sair”.
Guardadas as devidas proporções, é mais ou menos isso que está acontecendo no Supremo Tribunal Federal agora.
Desde sempre, André Mendonça e Alexandre de Mores nunca foram exatamente os ministros mais próximos no STF. Indicado por Michel Temer após a trágica morte de Teori Zavascki, Xandão notabilizou-se pelo enfrentamento direto dos arroubos autoritários do governo de Jair Bolsonaro. Se hoje não vivemos numa ditadura, boa parte dos créditos devem ser dados a ele.
Nesse mesmo governo, contudo, serviu primeiramente como Advogado-Geral da União e, depois, como Ministro da Justiça, André Mendonça. Além de ocupar uma posição naturalmente inglória em um governo cujo objetivo maior era transformar o regime democrático de 1988 em um revival porco e mal assemelhado à ditadura de 1964, Mendonça protagonizou alguns episódios, digamos, “controversos”, como a elaboração do dossiê contra os anti-fascistas e o uso indiscriminado da falecida Lei de Segurança Nacional contra qualquer um que ousasse criticar o “Mito” na presidência.
Indicado por Bolsonaro na categoria de “terrivelmente evangélico”, Mendonça precisou suar camisa para conseguir a vaga no STF. Depois de enfrentar o anti-jogo de Davi Alcolumbre, que enrolou por três meses sua sabatina na CCJ do Senado, Mendonça alcançou o mínimo necessário para colocar por sobre os ombros a toga de ministro do Supremo.
Como ministro, Mendonça notabilizou-se por sempre adotar posturas mais brandas contra os golpistas de 8 de janeiro. Tendo Alexandre de Moraes como ponta-de-lança da cruzada que, ao fim, colocaria Bolsonaro e seus generais na cadeia, era até natural que ambos rivalizassem e se colocassem em lados diametralmente opostos no plenário do Supremo. Ficaram famosos os embates entre os dois em diversas passagens, como no episódio em que Mendonça pareceu sugerir que o 8 de janeiro tinha sido uma espécie de armação do governo Lula. Ao que Xandão replicou na lata:
“Ah, faça-me o favor!”
O que antes era apenas uma intriga e uma indisposição velada entre os dois virou agora guerra aberta. Na terça-feira, o Ministro André Mendonça retirou o sigilo de parte da investigação sobre o Banco Master. E não qualquer parte, mas aquela relativa ao possível envolvimento do seu antípoda na corte, Alexandre de Moraes. Como esperado, o mundo (quase) veio abaixo.
Não que o tenha sido revelado seja exatamente novo, que fique claro. Já se sabia há alguns meses do contrato mal explicado da mulher de Alexandre, Viviane de Moraes, com o atual picareta-mor da República, o infame Daniel Vorcaro. Supondo que de fato as mensagens tenham sido trocadas com Xandão, os diálogos indicam que Vorcaro teria tentado, através dele, impedir que as investigações contra as suas falcatruas andassem na Justiça.
Qual o problema?
Do ponto de vista legal, nenhum ministro do Supremo Tribunal Federal pode ser investigado senão após autorização expressa da instância maior da corte, ou seja, do seu plenário. A razão disso é um tanto óbvia. Se ministros pudessem investigar colegas sem autorização dos seus pares, teríamos no limite a possibilidade de um cenário em que ministro conduziriam investigações recíprocas contra seus desafetos no Supremo, em um processo de autofagia retroalimentada.
Mas é justamente isso que está acontecendo agora.
Depois de ter visto André Mendonça ter chutado o balde e tê-lo investigado sem autorização do plenário, Alexandre de Moraes deu o troco ao seu estilo e solicitou expressamente ao presidente da corte, Edson Fachin, que determinasse a convocação de uma sessão para abrir uma investigação contra Mendonça, por supostamente ter cometido improbidade administrativa e abuso de autoridade.
Para além do fato de ter aparentemente investigado um colega de toga sem autorização do plenário, Mendonça viu-se envolvido em algo deveras mais preocupante. O site ICL divulgou áudios informando que, em 2025, o próprio Mendonça encontrara-se com Daniel Vorcaro em São Paulo. Fora da agenda (e também de Brasília), André Mendonça teria ganhado do Vorcaro um terno caríssimo da Vasco, uma famosa alfaiataria paulistana.
Mendonça confirma o encontro, mas nega o favorecimento. Seja como for, o fato é que, assim como Moraes, também ele agora encontra-se envolvido na mesma teia vorcárica que arrastou meia República para o mar de lama produzido pelo ex-dono do Banco Master. Sendo verdadeiras ou não as imputações, objetivamente Mendonça não reúne mais as condições para ser o relator da encrenca.
O pano de fundo de tudo isso, sem dúvida, é a corrida eleitoral. Se até o momento vivíamos a mais modorrenta e desinteressante campanha presidencial da Nova República, coube ao Judiciário botar fogo no parquinho e acender paixões e ódios que pareciam adormecidos no eleitorado.
A Mendonça claramente interessa a vitória de Flávio Bolsonaro, pois a partir dela poderia transformar sua posição hoje minoritária numa posição absolutamente dominante. Já para Xandão, a vitória do filho 01 de Jair representaria o ocaso. Não só seu impeachment seria possível como se tornaria, aliás, muito provável. Sem a proteção da toga, seria muito difícil para Alexandre de Moraes escapar da sede de vingança dos Bolsonaro. Por outro lado, se Lula ou qualquer um que não seja Flávio Bolsonaro ganhe, o mesmo se aplicaria contra Mendonça. Sua saída da corte – ou coisa até pior – seria apenas uma questão de tempo.
Assim como ocorreu no embate entre Ernesto Geisel e Sylvio Frota, não há mais espaço para aquele típico arranjo de bastidores brasiliense. Não há espaço para recuos. O que há, agora, é uma luta brutal pela sobrevivência. O Supremo Tribunal Federal ficou pequeno demais para acomodar Alexandre de Moraes e André Mendonça. Como dizia o lema de um antigo sucesso cinematográfico dos anos 80, there can be only one.
Qual dos dois vai sobreviver?
Façam suas apostas.