Da onde menos se espera, daí é que não vem mesmo, ensinava o Barão de Itararé. Tal é a sensação de quem acompanhou o desenrolar do noticiário político e internacional nesta última semana.
Após a divulgação do áudio pedindo R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro – o filho 01 do patriarca Jair – foi levado às cordas. Não por corrupção, porque quem tem no passado um rolo do tamanho de Fabrício Queiroz e suas rachadinhas não representa exatamente um modelo de ética. A questão foi o envolvimento direto com o “Inimigo Público nº. 1” da vez, o famigerado trambiqueiro do Banco Master.
Depois da queda nas pesquisas e com o barco da sua candidatura fazendo água por todos os lados, Flávio Bolsonaro teve a brilhante idéia de ir buscar uma bóia com o “Grande Irmão do Norte”. Sim, ele mesmo, Donald Trump. A busca quase juvenil por uma foto com o Nero Laranja dá a exata medida do desespero do 01 com o caso Vorcaro. Trump não é exatamente a figura mais querida por estas bandas. E, da última vez que se socorreram dos “préstimos” do Laranjão, o resultado havia sido um tarifaço que devolveu boa parte da popularidade perdida por Lula.
À concepção estúpida somou-se a execução canhestra. Se a idéia era fazer com que a foto com Trump projetasse algum nível de “apoio” do Laranjão, para funcionar como balão de oxigênio de alguém cuja campanha respira por aparelhos, o saldo final foi um verdadeiro tiro n’água.
Segundo a jornalista Raquel Krähenbühl, da TV Globo, Flávio e Eduardo entraram no Salão Oval, deixaram documentos com assessores, tiraram foto e saíram. Tempo total da reunião: 10 minutos. Não é suficiente sequer para esquentar o café, quanto mais para discutir questões de Estado. Como humilhação pouca é bobagem, o Laranjão ainda teria gastado parte desses 10 minutos como elogios a Lula, qualificado por ele como uma personagem “muito dinâmica”.
De concreto, a comitiva bolsonarista teria saído de lá com o compromisso de qualificação do Comando Vermelho e do PCC como organizações terroristas (como se isso fosse resolver o problema da segurança pública por aqui). Obviamente, a nova “qualificação” de CV e do PCC teve zero de influência dos Bolsonaro. Afinal, se eles tivessem de fato alguma capacidade de influenciar as decisões do Nero dos nossos tempos, eles teriam evitado a pancada que o Laranjão deu hoje: 25% sobre os produtos exportados pelo Brasil aos Estados Unidos.
Oficialmente, a nova tarifa é resultado de uma investigação comercial sobre o Brasil. A alegação é de que as políticas adotadas pelo país seriam “irrazoáveis” e estariam restringindo ou onerando empresas americanas. Entre os alvos preferidos dessa cruzada tarifária está, veja você, o nosso querido PIX. Como desgraça pouca é bobagem, poucas horas após ter anunciado o tarifaço, Trump divulgou no Twitter uma foto com Flávio Bolsonaro, associando-o de forma incontornável ao medido. Aí as redes sociais se encarregaram do resto. Nasceu, pois, o “TariFlávio”.
Fato é: o PIX irrita profundamente muita gente do dinheiro grosso nos Estados Unidos. Visa e Mastercard, por exemplo, estimam perdas de mais de R$ 12 bi em seus cartões pela simples mudança do uso das suas tarjetas de plástico pelo nosso sistema tupiniquim. A acusação nesse caso é de “concorrência desleal”.
Para o comerciante, entretanto, a diferença é gritante: enquanto o PIX custa em média 0,22% a 0,33% ao lojista, os cartões cobram taxas médias superiores a 2%. Ou seja: o PIX é melhor, mais barato e mais inclusivo do que o produto das gigantes americanas. O Brasil, portanto, criou algo que funciona de maneira mais eficiente e mais econômica. Logo, na lógica do Nero Laranja, isso é um ultraje que tem de ser “punido”.
Enquanto as empresas brasileiras sofrem com as gracinhas de Donald Trump contra o país, a patota bolsonarista continua arrotando um suposto patriotismo de fancaria, do qual, curiosamente, os mais prejudicados são justamente aqueles que constituem a base eleitoral dessa gente (empresários e mercado financeiro). Agora, essa mesma galera corre atrás do governo Lula para impedir que se consume a desgraça plantada por quem eles apoiavam.
No fundo, esse o episódio sintetiza com precisão a relação da família Bolsonaro com o Brasil: o pai preso por tentar um golpe de Estado; o filho mais velho indo passear em Washington só para tirar foto com seu ídolo como forma de distração de um escândalo de corrupção; e, como brinde, o país sai da loja de souvenirs com uma bela de 25% de lembrança da excursão.
Dada a qualidade desse circo, talvez valha a pena lembrar um ex-presidente mexicano. No começo do século passado, Porfírio Díaz eternizou a trágica sina de sua nação com a célebre queixa: “Pobre México: tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos”. Se estivesse vivo para assistir à devoção vassalar da extrema-direita brasileira ao Nero dos nossos tempos, ele certamente atualizaria o seu aforismo para a realidade do seu grande irmão do sul:
“Pobre Brasil: tão cheio de patriotas e com tanta pressa de voltar a ser colônia.”