TariFlávio 2, ou O esforço de Flávio Bolsonaro para perder a eleição

É a volta dos que não foram.

Assim como aconteceu no ano passado, Donald Trump resolveu novamente assediar moralmente o Brasil com sua insana política tarifária. Sem base fática ou jurídica para impor novamente tarifas contra os produtos brasileiros, o Laranjão recorreu de novo ao seu indisfarçável viés político. Mas, se a intenção era ajudar Flávio Bolsonaro, o tiro pode ter mais uma vez saído pela culatra.

Para quem não conseguiu ainda ler o noticiário de hoje, o governo dos Estados Unidos anunciou a aplicação de tarifas adicionais de 25% sobre produtos brasileiros. O instrumento jurídico para aplicação da sanção é a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, historicamente reservada a países com déficits bilionários, práticas de dumping documentadas ou subsídios ilegais comprovados.

Qual o problema?

Nenhuma dessas condições existe na relação comercial com o Brasil. Em 2024, os americanos exportaram US$ 78,4 bilhões para cá e importaram apenas US$ 49 bilhões — um superávit de US$ 29,3 bilhões favorável ao Tio Sam. O Brasil é, sob qualquer métrica comercial razoável, um dos melhores clientes dos Estados Unidos. Para além disso, nenhuma empresa brasileira que exporta lá pratica dumping – e é duvidoso até que tenhamos qualquer companhia com capacidade de vender produtos a baixo de seu preço de custo só para monopolizar mercado -, muito menos damos subsídios ilegais aos nossos produtores.

Quando se desce às minúcias do documento de imposição das tarifas ao Brasil é que a verdadeira natureza do ato se revela. Nas 138 páginas do documento, o nosso querido PIX é citado mais de vinte vezes. Os americanos acusam o Banco Central brasileiro de favorecer “seu campeão nacional” em detrimento de “provedores americanos de pagamento eletrônico”. Traduzindo para o vernáculo financeiro, esse blá-blá-blá quer dizer que Visa e Mastercard perderam R$ 12 bilhões em receitas de taxas de transação desde que o PIX tornou praticamente desnecessário o uso de bandeiras estrangeiras para pagamentos do dia a dia.

Para piorar, o WhatsApp Pay — plataforma da Meta que nunca emplacou no Brasil com a força planejada, porque o PIX chegou primeiro e não cobra nada — também está na lista de descontentes. Nenhuma dessas empresas aparece pelo nome no documento do USTR. A agenda delas, no entanto, está em cada parágrafo.

Em sua defesa, o governo brasileiro respondeu o óbvio: a Seção 301 não autoriza os Estados Unidos a punir um país por suas escolhas soberanas de política pública, especialmente quando não há déficit, não há dumping e não há prova de prejuízo ao comércio americano. Mas o argumento jurídico de nada serve nesse caso. É a política norte-americana que decide como as tarifas são aplicadas.

E que fins políticos o Nero dos nossos tempos pode estar querendo atingir com o novo tarifaço?

Como toda a gente sabe, em maio deste ano Flávio Bolsonaro foi a Washington tirar foto como papagaio de pirata de Donald Trump. Numa reuni\ao com o vice de Trump, J.D. Vance, e com seu secretário de Estado, Marco Rubio, o filho 01 de Bolsonaro voltou a pedir que o governo norte-americano interviesse a seu favor para tentar reverter o cenário eleitoral desfavorável. O lobby dos Bolsonaro – não nos esqueçamos do autoexilado Bananinha – produziu o relatório do USTR. E o relatório do USTR resultou nas tarifas.

Intuindo que um novo tarifaço novamente lhe seria prejudicial, Flávio Bolsonaro ainda ensaiou uma meia-volta constrangedora, ao comparecer à sessão pública da USTR para dizer que “este não seria o melhor momento” para aplicar as tarifas (como se em algum outro momento isso pudesse ser bom), pois isso acabaria por “fortalecer Lula em um ano eleitoral”. Demonstrando mais uma vez que sua influência junto à Casa Branca é tão verdadeira quanto uma nota de três reais, o filho mais velho de Jair foi solenemente ignorado pelos americanos.

Ao trazer de novo para o centro do palco a questão das tarifas, o Nero Laranja transfere de bandeja a bandeira do patriotismo – sequestrada pelo bolsonarismo desde 2018 – para as mãos de Lula. E, como desgraça pouca é bobagem, as tarifas do Laranjão chegam em um momento particularmente difícil para o filho 01 de Bolsonaro.

Depois de ser derrubado por uma onda ao ser flagrado pedindo a módica quantia de R$ 134 milhões ao “irmão” Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro tomou um caldo ainda maior com a divulgação do vídeo de Michelle Bolsonaro acusando-o de “humilhá-la” e “desrespeitá-la”. Tudo isso e mais o rumor já confirmado nos bastidores da campanha de que existe um vídeo do candidato participando de uma “suruba não convencional” (o que se deve entender por uma “suruba não convencional” corre por conta da imaginação do freguês). Agora, com as tarifas, a candidatura de Flávio Bolsonaro arrisca afundar de vez.

Existe uma máxima nas relações política segundo a qual, assim como na regra dos sinais matemáticos, o inimigo do meu inimigo é meu amigo. Flávio Bolsonaro parece ter descoberto da pior forma possível uma variante curiosa dessa fórmula: o amigo (Trump) do meu amigo (Jair) não é necessariamente meu amigo (não me ajuda). Pior: o filho 01 de Bolsonaro foi a Washington pedir pra fazerem isso com ele. Esse erro pode ter custado a Flávio a eleição.

Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

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