Reflexões sobre a ascensão da IA, ou Os riscos da criação de um “obsoletariado”

Assim como a criação do computador pessoal nos anos 80, o surgimento da Internet nos anos 90 e a explosão das redes sociais nos anos 2000, a ascensão da Inteligência Artificial do último ano para cá promete transformar completamente a realidade econômica e a sociedade em que vivemos. Hoje, a “disputa” entre IAs já abandonou o campo do embate capitalista para ganhar feições quase de afeto. Tal qual um time de futebol ou o político de preferência, por exemplo, já há gente discutindo que a “sua” IA é melhor do que a do outro.

Mas alguém já parou para pensar nos riscos envolvidos com a transformação prometida pela Inteligência Artificial?

Foi o que fez o colunista da Folha de São Paulo Álvaro Machado Dias. Em um vídeo que tem circulado no Instagram e afins nos últimos dias, o neurocientista propõe um desafio inquietante: analisar os impactos que a IA trará não só para a economia, mas também para a própria democracia mundo afora.

Não se trata, por óbvio, de desenhar cenários apocalípticos, como a Skynet de O Exterminador do Futuro ou as máquinas de Matrix assumindo o controle da humanidade. O desenho proposto por Álvaro Machado Dias é bem mais banal e prosaico, embora (quase) igualmente pessimista e assustador.

O colunista da Folha começa sua tese rememorando o que aconteceu com a República Romana após o triunfo definitivo sobre Cartago. Com o fim das guerras púnicas, Roma expandiu de maneira absurda seus domínios e viu seu mercado interno ser inundado por uma quantidade colossal de escravos. À primeira vista, parecia o paraíso econômico. Os escravos constituíam uma mão de obra abundante (eram muitos) e barata (não se pagava a eles, exceto por sua parca subsistência). Era o sonho de qualquer executivo neoliberal: baixíssimo custo de manutenção da força de trabalho e alta rentabilidade para os donos do negócio.

Tudo muito bom, tudo muito bem, certo?

Errado.

Com a abundância de escravos, obviamente houve uma diminuição da demanda por trabalho assalariado. Como resultado, os cidadão romanos das classes menos abastadas começaram a experimentar um problema muito familiar aos cidadãos do mundo inteiro hoje em dia: desemprego estrutural em massa.

Embora não se pudesse dizer que ali havia o capitalismo como ideologia econômica, o fato é que as consequências do cálculo matemático à época eram os mesmos de agora. Por que um patrício rico pagaria o salário de um agricultor, de um criado ou de um ferreiro quando havia centenas de escravos aptos a realizar o mesmíssimo trabalho de graça?

O resultado dessa equação não poderia ser outro senão a destruição da pirâmide social e perda de coesão do tecido social. Os ricos ficaram absurdamente mais ricos, monopolizando terras e a produção em grandes latifúndios, enquanto os pobres ficaram ainda mais miseráveis. No meio disso tudo, a classe média romana sofreu o que podemos chamar de um profundo esvaziamento existencial. Seus membros não eram mais necessários para fazer a engrenagem da economia girar. Sem trabalho e sem capital, seus membros foram reduzidos a meros espectadores da própria história.

Como era de se esperar, o esmagamento da classe média, o aumento abissal da desigualdade e a insatisfação crônica da população criaram o caldo perfeito para o populismo extremo. De acordo com Álvaro Machado Dias, a República Romana, que antes se orgulhava de suas próprias instituições, soçobrou diante do peso ressentimento social. O caos abriu as portas para o fim da República e para o surgimento do Império. Nascia a “era dos 12 Césares”, com a supressão das liberdades cívicas em troca de uma suposta ordem e estabilidade.

Nesse contexto, o paralelo com os dias atuais não parece muito forçado. Pelo menos em um primeiro momento, não teremos robôs destinados a substituir humanos em trabalhos braçais (até porque os robôs que passam roupa e varrem a casa custam caríssimo). Entretanto, gente como o contador, o redator, o programador júnior, o analista financeiro e o advogado júnior devem começar a colocar suas barbas de molho. A Inteligência Artificial, em um futuro bem próximo, poderá substituir toda essa gente, como uma nova força de trabalho inesgotável e quase sem custo.

São justamente as pessoas cujos ofícios entrarão em xeque com a ascensão da IA que o colunista Álvaro Machado Dias identifica como integrantes de uma futura nova classe social: o “obsoletariado”. Ele será formado por pessoas altamente qualificadas, que estudaram durante anos em escolas, faculdades e especializações, mas descobrirão de forma mais cruel possível que suas inteligência orgânicas “comuns” não serão páreo para o custo-benefício de servidores que rodam em nuvem.

Assim como ocorreu na Roma Antiga, os riscos são de que empurrar uma parcela gigantesca da sociedade para a “obsolescência” laboral e, consequentemente, econômica, redundará em desespero. Uma classe média empobrecida, esvaziada economicamente e sem perspectiva de futuro é um prato cheio para populistas autoritários que prometem soluções mágicas.

Não por acaso, todos – TODOS – os casos de fascismo no século XX (e também no século XXI) ocorreram através do surgimento de líderes messiânicos em cenários de convulsão social. Se não debatermos seriamente como lidaremos com o advento desse novo “obsoletariado”, corremos o sério risco de reviver os horrores dos anos 20 e 30 do século passado. Dessa vez, porém, será pior.

Muito pior.

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