A entrada dos Estados Unidos na guerra do Vietnã foi um desastre em slow motion. Começou com o envio de “observadores” para a antiga Indochina sob domínio francês, após as tropas gaulesas se retirarem do país. Com receio de que a região inteira caísse sob o jugo comunista – afinal, a China maoísta estava ali ao lado -, os americanos pouco a pouco foram expandindo suas operações em terras vietnamitas, até que o famoso incidente no Golfo de Tonkin, quando um contratorpedeiro norte-americano foi supostamente afundado por barcos vietcongues, fez o caldo entornar de vez.
Dali em diante, todos os presidentes americanos só tinham uma resposta para problemas no Vietnã: mandar mais tropas. Quanto mais gente morria, mais soldados eram enviados. Quanto mais soldados morriam, mais os ianques bombardeavam a população civil vietnamita. Quando a situação já alcançara patamares horrorosos, mas ainda não desesperadores como seriam no final, um senador republicano do estado de Vermont veio com uma “solução” genial: os americanos deveriam simplesmente declarar vitória e tirar o time de campo.
Obviamente, a declaração foi ridicularizada à época. Ninguém acreditava que seria possível dizer que havia ganhado uma batalha que os americanos estavam claramente perdendo e dar o caso por encerrado. Olhando em retrospecto, contudo, é impossível negar que teria sido melhor adotar essa saída fajuta do que permanecer numa guerra perdida, sabendo que milhares de pessoas iriam morrer. Esse, talvez, é o pensamento que esteja perpassando pela mente do staff de Donald Trump.
Tendo começado uma guerra sem base concreta que amparasse os ataques, nem muito menos objetivos predefinidos, o Laranjão agora vê-se na delicada situação de estar metido numa enrascada sem saber como sair dela. A idéia inicial era óbvia: matar toda a liderança iraniana pensando que, assim, os persas se dobrariam à vontade da Roma dos tempos modernos. Deu certo na Venezuela, com o sequestro de Maduro, por que não daria certo no Irã, com o assassinato de Khamenei? Quase um mês depois de iniciado o conflito, o Nero Laranja está descobrindo da pior forma possível que, nas areias quentes do Oriente Médio, o buraco é mais embaixo.
Sem ter como retaliar diretamente os Estados Unidos do ponto de vista militar, os iranianos resolveram atacar na parte mais sensível do corpo humano: o bolso. Fechando o estreito de Hormuz, o Irã fez disparar o preço do petróleo. Pode parecer pouca coisa para quem não é versado em economia mundial, mas sendo o mundo basicamente movido a ouro negro, o aumento do preço dessa commodity impacta diretamente quase todos os outros preços da economia. Subindo o preço, sobe a inflação. Subindo a inflação, sobem os juros. Logo, as dívidas – inclusive as dos governos – ficam mais caras e a população tende a gastar menos. A persistência desse cenário conduz inevitavelmente a uma recessão econômica, o pior dos cenários para qualquer político, como é o caso de Donald Trump.
Sabendo disso, o Laranjão trabalhava com o cenário de uma guerra curta, duas a três semanas no máximo. Mataria todo mundo, tocaria o terror geral e, depois, mudaria o regime dos aiatolás. Se isso não acontecesse, no “pior” cenário os persas colocariam no governo alguém disposto a dobrar os joelhos aos norte-americanos, como aconteceu com a vice de Nicolas Maduro, Delcy Rodrigues.
Não aconteceu nem uma coisa nem outra. Nem houve mudança de regime (nem há qualquer sinal de que isso venha a acontecer no futuro próximo), nem a liderança que emergiu após o assassinato de Khamenei se mostrou disposta a negociar com os agressores ianques. Pelo contrário. Os ataques não só recrudesceram o regime dos aiatolás, como, ainda, deram-lhe de presente uma posição de imensa vantagem. Ao fechar o estreito de Hormuz e interromper o fluxo de 1/5 das exportações mundiais de petróleo, os iranianos agora encontram-se numa situação em que, se a guerra se prolongar, a situação piora não para eles, mas para os Estados Unidos.
Exatamente por conta disso, temos assistido a movimentos completamente erráticos do Laranjão nos últimos dias. Primeiro, ele deu um “ultimato” de que, caso os iranianos não liberassem o estreito de Hormuz em 48h, ele iria bombardear toda a infraestrutura de energia do país (o que é crime de guerra, de acordo com a Convenção de Genebra). Com os mercados financeiros em pânico, ele “adiou” o ultimato perto do fim do prazo, estendendo o prazo até esta sexta-feira. Agora, às vésperas de vencer novamente o prazo, agora adiou o “ultimato” para o dia 6 de abril.
Curiosamente, nos dois casos a justificativa para o recuo do ultimato foi o fato de que estaria havendo negociações entre os Estados Unidos e uma suposta “cúpula” do Irã. Entretanto, o Irã não confirmou que estivesse disposto a fazer um acordo. Pior. Negou até que conversas entre os dois países estivessem ocorrendo. Desmontando a farsa armada, os iranianos apontaram a alegação de supostas conversas de paz como uma estratégia do Laranjão para ganhar tempo e evitar uma subida do preço do petróleo.
A preços de hoje, a verdade é que o Irã não tem qualquer razão para fazer um acordo. O país foi atacado, sim, e grande parte de sua infraestrutura militar está devastada. Contudo, o regime não caiu (longe disso) e os contra-ataques com mísseis e drones fizeram estrago suficiente na vizinhança. Fora isso, o maior instrumento de pressão que ele tem é justamente manter o preço do petróleo elevado. Se eles assinam um cessar-fogo agora, o preço desaba no minuto seguinte. Para “vencerem” a guerra, eles precisam manter a pressão elevada na economia mundial.
Rodopiando no palco como barata tonta e com falas cada vez mais desconexas, Trump insiste que os iranianos estariam “desesperados” para fazer um acordo. Com um ego que só não é maior do que o seu topete, Trump jamais admitiria publicamente que “recuou” ou que foi batido. Talvez em algum momento, entretanto, algum assessor tenha que lhe soprar no ouvido:
“Presidente, por que o senhor não declara simplesmente vitória e dá o fora dali?”
Vai ser igualmente patético, mas pelo menos o estrago econômico e a quantidade de vidas perdidas seria menor.