O que passa na cabeça de Trump? ou O que quer o Laranjão?

Produzir uma análise sobre mentes alheias é algo que atormenta o mundo desde quando Freud resolveu mergulhar na psiqué humana. Se nem o barbudo austríaco conseguiu realizar essa façanha, não será este que vos escreve que conseguirá. Ainda mais quando se está diante de uma mente claramente perturbada como a de Donald Trump. Aventurar-se para além da cabeleira laranja do topetudo presidente norte-americano é quase como entrar sem equipamentos de proteção numa área com contaminação nuclear.

Para piorar, há ainda o risco de o sujeito se confrontar com o dilema de Nietzche: quando se olha muito tempo para o abismo, o abismo olha de volta para você. Mesmo assim, como o do Brasil está na reta e, com ele, estamos todos nós, vamos analisar algumas hipóteses para tentar compreender o que se passa na cabeça do Laranjão.

Hipótese metódico-racional

Vamos supor, por um momento, que Donald Trump não é louco. Ele apenas – como Hamlet – finge a loucura para melhor disfarçar suas intenções. Assim, como diria Shakespeare na obra homônima, though this be madnesse, yet there is method in’t (embora seja loucura, ainda assim há método nela). Na hipótese de que tudo não passe de um plano maquiavélico urdido por uma mente brilhante a serviço do mal – o mal, aliás, encarnado em sua mais tosca forma -, os atos do Nero Laranja poderiam ser assim compreendidos:

Trump sabe que os Estados Unidos estão em declínio e que a ascensão da China como superpotência é inevitável. Como isso ainda não aconteceu de fato e o Grande Irmão do Norte mantém boa parte da sua influência geopolítica, o Laranjão quer forçar o resto do mundo a alinhar-se com os Estados Unidos e, por conseguinte, afastar-se da China. Assim, quando a verdadeira guerra vier – seja ela econômica ou real, com armas – haverá “mais mundo” do lado dos Estados Unidos do que da China.

Nessa hipótese, faz sentido que os três países com maior tarifação dos Estados Unidos atualmente seja, pela ordem, China, Índia e Brasil. A Rússia (o “S” do Brics”) já estava sancionada até o talo desde o governo Biden, com direito inclusive ao confisco de suas reservas internacionais. Fora isso, Trump ameaça abertamente os demais países que negociam com os russos uma tarifação adicional, com o propósito de cortar o oxigênio econômico que mantém viva a Grande Mãe Rússia.

Dada a aleatoriedade dos movimentos de Donald Trump e a forma com a qual ele se comporta no tabuleiro do xadrez global, é difícil acreditar que tudo isso seja parte de um grande e estruturado plano de manutenção da posição de poder dos Estados Unidos no cenário geopolítico.

Para além do fato de que, em sua grande parte, as ações do Laranjão alienam aliados históricos (como Japão, Canadá e o próprio Brasil), o resultado concreto é o inverso do pretendido: muitos países estão correndo para os braços de Papai Xi, por considerarem que, hoje, a China é um parceiro muito melhor e mais confiável do que os americanos.

Isso nos leva à segunda possibilidade:

Hipótese loco, mucho loco

Donald Trump pode simplesmente ser doido. Doido muito doido, aliás. Há dezenas de evidências a esse respeito. Fora a tendência quase patológica pela mentira (hoje mesmo ele diz que o Brasil aplica “tremendas tarifas” contra os produtos americanos, o que agora todo mundo sabe que é mentira), ninguém sabe que tipo de dano foi provocado nessa mente perturbada quando viu, muito concretamente, a chance de enfim ser responsabilizado pelas vigarices que cometeu na vida. Não custa lembrar que, caso não tivesse sido eleito, Trump provavelmente estaria hoje curtindo uma cana dura em alguma prisão do estado de Nova Iorque, por ter falsificado documentos contábeis de suas empresas para ocultar o pagamento de suborno a uma atriz pornô com a qual manteve um caso extraconjugal.

Em seu primeiro mandato, o Nero Laranja de certa forma “rendeu-se” ao establishment, nomeando para cargos-chave de sua administração gente com experiência de vida e não acreditava que a Terra era plana. Jerome Powell no FED, por exemplo, talvez seja o melhor exemplo disso. Mesmo assim, Trump ainda foi alvo de dois processos de impeachment (feito inédito em 250 anos de Estados Unidos) e, quando deixou a presidência, foi alvo de uma série de processos criminais.

Ponha-se, agora, no lugar dele: o que você, tendo uma mente perturbada, faria caso tivesse a chance de tentar de novo? Jogaria by the book e seria um nice guy? Ou tentaria de todas as formas transformar a República numa espécie subvertida de autocracia, para garantir que nada de mal lhe aconteceria?

O problema, nesse caso, é que nem sempre tudo sai como o esperado. As tarifas aumentam a inflação, que aumenta a insatisfação de seus eleitores e, pior, torna mais difícil a vida do FED em cortar juros. Por mais tendências autocráticas que tenha, Trump teria que ser um completo alucinado para jogar a nação inteira contra ele e, ainda assim, acreditar que vai sobreviver apenas na base da repetição incessante do mantra Make America Great Again.

Hipótese loco, pero no mucho

Trump pode ser doido, mas não rasga dinheiro. Esse é um pensamento mais ou menos unânime entre analistas políticos mundo agora. Nesse caso, a idéia do Laranjão gira em torno basicamente de duas idéias: 1) tentar dar uma solução para a dívida americana; 2) arrumar meios de manter o descarado populismo com o qual governa a outrora admirável “maior democracia do mundo”.

Nessa hipótese, se os Estados Unidos possuem déficit com o resto do mundo, a solução é fácil: vamos simplesmente tarifar as exportações dos outros países pra gente. Com o dinheiro arrecadado, eu consigo grana pra cortar impostos e distribuir dinheiro em espécie pro meu eleitorado. De quebra, a perspectiva de uma recessão – por conta da guerra tarifária – faz com que o FED seja obrigado a cortar os juros, diminuindo a pressão para refinanciamento da dívida em dólar (1/3 dela vence neste ano).

O problema, como todo mundo sabe, é que o juízo do Nero Laranja nunca foi muito bem ajustado. Daí seu comportamento de elefante em loja de porcelanas. Ele quer uma coisa, mas não sabe direito como vai chegar nela. Dotado de uma personalidade infantilmente narcisística, o Nero Laranja prefere descer o porrete em todo mundo. “Eu mando e acabou-se. Quem não me seguir, que se exploda!”

Obviamente, o mundo não opera mais sob uma lógica unipolar. Se mesmo nos áureos tempos seria difícil para os Estados Unidos impor aos outros países uma agenda impopular de maneira tão antipática, que dirá agora, quando os sinais de declínio da superpotência são evidentes. Dentre as três, essa parece ser a possibilidade mais plausível.

Fazer o quê?

Seja como for, o fato é que ninguém sabe ao certo o que se passa naquela cabeça tingida de laranja com pó de Cheetos. Trump pode ser um grande gênio do mau, um doido varrido, ou apenas um indivíduo com o ego profundamente fragilizado, que precisa ficar se reafirmando o tempo todo como forma de enfrentar a própria insegurança. Who knows?

Diante da impossibilidade de fechar um diagnóstico preciso sobre o Nero dos nossos tempos, só nos resta tentar nos proteger da melhor forma possível e resistir. Trump é uma tempestade, mas tem data pra acabar. Em três anos e meio, ele não estará mais na presidência dos Estados Unidos. E, em novembro do ano que vem, se os anjos ajudarem, ele deixará de ter maioria no Congresso, tornando-se antecipadamente um pato manco. Até lá, busquemos o lenitivo no ditado nordestino:

“Ninguém escapa de pedrada de doido ou de coice de burro”.

🤷🏻‍♂️

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