Foi por pouco.
Com o voto-desempate do vice-presidente JD Vance no Senado e com uma margem de apenas quatro votos na Câmara dos Representantes, o Congresso norte-americano aprovou a One Big Beautiful Bill do governo de Donald Trump. Espalhafatosa no nome (“Uma grande e linda lei”), megalomaníaca no propósito (cortar US$ 4,5 trilhões do orçamento federal, o dobro do PIB do Brasil, por exemplo), a proposta era a grande iniciativa legislativa do Laranjão para a primeira metade desse seu segundo mandato.
A idéia é bastante rudimentar na concepção e sobretudo de difícil execução. Cortando impostos, sobraria mais dinheiro para as empresas investindo. Com mais investimentos, haveria mais empregos. Com mais renda, mais impostos. E, com mais impostos, o efeito deletério dos cortes orçamentários seria compensado pelo consequente aumento da atividade econômica posterior. Esse, pelo menos, é o círculo vicioso vendido pela máquina de propaganda do MAGA (Make America Great Again, mote e plataforma de campanha do Nero dos nossos tempos).
O problema, como qualquer um pode intuir, é que, na prática, a teoria é outra. Os Estados Unidos já se encontram com um crônico déficit orçamentário há mais de duas décadas. A dívida pública cresce à razão de US$ 1 trilhão (isso mesmo, com T) a cada sete meses, aproximadamente. Não fosse isso o bastante, o Laranjão ainda detonou a maior guerra comercial deste milênio com seu bizarro pacote de aumentos tarifários. Segundo a teoria econômica mais básica, o resultado disso é mais inflação, seja por aumento do consumo (decorrente do corte de impostos), seja pelo aumento dos preços (pela imposição de tarifas aos produtos importados).
E daí?
Daí que, desde o começo do seu governo, o Nero Laranja busca incessantemente a queda da taxa de juros pelo FED, o Banco Central de lá. Em um cenário como esses, com inflação fora da meta e medidas inflacionárias por todos os lados, nenhum banqueiro central que se preze baixaria a taxa de juros. Para Donald Trump, isso não importa. Para forçar Jerome Powell, o presidente do FED, a fazer o que ele manda, vale até praticar bullying explícito nas redes anti-sociais. Até o momento, Powell já foi xingado de “atrasado”, “lesado”, “estúpido” e até “burro” pelo Laranjão. Para os “liberais” brasileiros que adoram criticar Lula quando reclama dos juros do BC, esse é o tipo de postura que os coloca em franca contradição.
Apesar de não dispor de poderes para demitir Powell, a troca virá naturalmente em maio de 2026. Trump ameaçou até “nomear por antecipação” o novo presidente, só para tentar “esvaziar” a autoridade de Powell antes disso. Seja como for, uma vez que o mercado vive de expectativas futuras, qualquer um que saiba ler nas entrelinhas consegue enxergar que, no matter what, os juros americanos virão pra baixo. Resultado: o dólar, como moeda de referência mundial, teve o seu pior semestre em mais de cinquenta anos.
Se no mercado financeiro em geral costuma-se dizer que a taxa de juros é o cachorro e todo o resto – ações, mercado secundário de dívida, imóveis, etc. – é rabo, no mercado mundial a analogia é: o dólar é o cachorro e todos os outros ativos mundiais são o rabo abanado por ele. Afinal, petróleo, soja, boi gordo, café, ouro, minério de ferro… tudo, absolutamente tudo, é cotado na moeda verde norte-americana. A partir daí, a lógica é relativamente simples: se o preço do dólar cai, todas as outras commodities sobem, inclusive as moedas dos outros países.
Esse evidente efeito econômico pode implicar outro efeito, de natureza política, muito mais importante. Na posição de notório exportador de commodities, o Brasil é beneficiário direto da política de dólar fraco praticada pelo Laranjão. Não é por acaso, portanto, que a nossa bolsa bateu hoje a máxima histórica e o dólar contra o real caiu para seu menor nível em quase um ano.
Não custa lembrar que, no último boom de commodities (2003-2008), o presidente atendia pelo nome de Luiz Inácio Lula da Silva. Nesse período, Lula viu a economia bombar à média de 4,5% de alta do PIB por ano e conseguir, mesmo depois da crise de 2008, sair do cargo como “político mais popular da Terra”, ostentando mais de 80% de aprovação popular.
Sem querer, Donald Trump pode estar se tornando o maior cabo eleitoral do torneiro bissílabo de São Bernardo ano que vem. Se esse cenário se concretizar, talvez convenha ao alto comando petista pensar seriamente em um mote para a campanha de 2026: Make Brazil Great Again. Se vai funcionar, ninguém sabe.
Mas você há de convir que será pelo menos engraçado…