Israel x Irã, ou Quando a guerra serve a propósitos políticos

“A guerra é a continuação da política por outros meios”. Eis o adágio secular de von Clausewitz, um general prussiano cujos ensinamentos ajudaram a moldar o que hoje a gente conhece como “doutrina de guerra”. Ao contrário do que muita gente pensa, von Clausewitz não era um defensor das batalhas pelas batalhas. Sua idéia – resumida nessa frase – era de que sempre o fator militar estivesse subordinado ao fator político. No caso da atual guerra entre Israel e Irã, parece que esse raciocínio foi levado ao paroxismo.

Tendo invadido Gaza como resposta ao horror provocado pelos ataques de 7 de outubro de 2023, Benjamin Netanyahu estava ficando rapidamente sem alternativas à mão. Depois de ter praticamente terraplanado a Faixa de Gaza, reduzindo o que antes eram cidades habitáveis a um monte de escombros, a pressão internacional contra a carnificina – que muita gente classifica como genocídio – provocada por seu governo contra os palestinos estava alcançando o limite do insuportável. Até Donald Trump, que já manifestara publicamente o desejo de transformar o território palestino numa “Riviera do Oriente Médio”, tinha começado a tomar distância de Bibi, alegando que a “guerra” estava durando muito tempo.

Com o cerco se fechando, Netanyahu teve de começar a pensar em alternativas. Assim como Bolsonaro e outros espécimes do gênero “proto-ditadores de extrema direita”, Bibi precisa de todas as formas manter-se no cargo. Fora dele, estará sujeito à persecução judicial e, muito provavelmente, cadeia. São inúmeras as acusações, inclusive de corrupção, que se encontram pendentes, esperando apenas que uma eleição que ele se recusa a convocar seja realizada. Já houve diversas manifestações contra seu governo. Uma delas chegou a reunir 600 mil pessoas, o que dá quase 6% da população de Israel. Donde se conclui que, quando houver eleições, seu governo cai. Caindo o governo, Bibi perde a proteção do cargo e terá de enfrentar a justiça da qual desesperadamente foge.

Daí porque a guerra contra o Irã se torna um artifício político tão atraente. Primeiro, porque permite desviar a atenção do horror praticado por ele em Gaza. Segundo, porque, mesmo quem não gosta muito de Israel, dificilmente vai defender o Irã, onde mulheres são obrigadas a usar burca e possuem menos direitos que os homens em praticamente todas as áreas do Direito Civil. Terceiro, porque, bombardeando o Irã, Netanyahu continuará a usar o pretexto da guerra para não convocar eleições e manter-se a ferro e fogo no poder.

É evidente que esse é um raciocínio político de curto prazo. O Irã não é a Faixa de Gaza, nem os militares iranianos são tão despreparados e sem armamento como os terroristas do Hamas. Esse é o típico caso da guerra que a gente sabe como começa, mas não tem nem idéia de como termina. Uma coisa é ver manifestações contrárias ao seu governo por conta da matança de palestinos em Gaza. Outra, bem diferente, é ver cidadãos do seu país sendo alvejados por mísseis iranianos, que caem às centenas sobre as cidades israelenses desde quando o país atacou suas instalações nucleares.

Para piorar, esse curtoprazismo de pensamento ignora as terríveis repercussões do que pode acontecer daqui a poucos anos mais à frente. Seria no mínimo ingênuo pensar que, matando cientistas ou mesmo destruindo suas instalações nucleares, Israel conseguirá impedir para sempre que os persas consigam ter uma bomba para chamar de sua. O conhecimento não se destrói. E, se até semana passada a hipótese de dispor de um artefato nuclear como instrumento de dissuasão era apenas um exercício retórico, agora passou a ser questão de sobrevivência do regime dos aiatolás. Não é por acaso que Kim Jong-Un, que já praticou mais violações aos direitos humanos do que qualquer outro regime no planeta atualmente, passeia lépido e fagueiro, sem medo de que alguém se disponha a invadir a Coréia do Norte para destituí-lo.

Por tudo isso, é difícil imaginar que essa seja uma guerra que termine logo. Não só porque nenhuma das duas partes teria como ocupar militarmente a outra – até por impossibilidade geográfica -, mas também porque não interessa a Netanyahu somente destruir o programa nuclear iraniano. Afinal, se o programa desaparecesse por completo, a guerra em si perderia o sentido, e ele perderia o álibi de “manter Israel unido diante do inimigo externo”.

Do outro lado, Trump – que se elegeu com base numa plataforma supostamente “pacifista” – vê agora uma nova guerra para a qual os Estados Unidos poderão ser arrastados. Com a Ucrânia cercada pela Rússia e Israel em conflito com o Irã, fica faltando agora só a China invadir Tawain para termos um cenário de tempestade perfeita para o Laranjão. E aí já poderíamos considerar a sério a possibilidade de estarmos no meio da III Guerra Mundial.

Seja como for, a hora é de se preparar para o pior. Estamos navegando agora não somente em águas turbulentas, mas em mares revoltos, sem bússola e com dois capitães – Bibi e Laranjão – completamente alucinados no comando do navio.

God help us.

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