Mensagem cifrada

Quem é mais novo não tem nem idéia, mas, quando surgiu, o fax operou uma verdadeira revolução nas telecomunicações. Para quem hoje acha enviar arquivo por email algo medieval – já que podemos mandar tudo pelo Zap -, o ato de transmitir uma simples cópia de um documento escrito de um lugar para outro remonta ao neolítico. E quando se descobre que a cópia era em preto e branco e demorava uns bons 30 segundos para ser impressa do outro lado da linha, bem… aí já entramos definitivamente no tempo dos dinossauros.

Ainda que não seja possível imprimir nas gerações atuais o tamanho da sensação gerada por aquela invenção magnífica, uma pessoa com mais tino e sensibilidade pode ter alguma noção do que era ver documentos transitando de um lado a outro pela linha telefônica. O simples fato de se eliminar a necessidade de deslocamento era algo fantástico. Quando se percebe que até documentos mais sensíveis, que poderiam ser usados como prova de alguma coisa, percorriam o mesmo trajeto, com a firma de quem enviou impressa no papel, aí, sim, pode-se ter uma idéia do quanto aquele aparelhinho que apitava ao final da transmissão impactou a sociedade dos anos 90.

Sempre antenada às novas tendências, Josy resolvera comprar um para seu escritório de representação. Além de facilitar o contato com os clientes, o fax do escritório poderia ser usado também para transmitir pedidos às fábricas cujos produtos ela vendia. O que antes levava alguns dias de Correios até que as ordens de compra chegassem aos produtores, agora seria imediato. Ganhavam os fabricantes (que vendiam mais), ganhavam os clientes (que recebiam as mercadorias mais rápido) e ganhava, sobretudo, Josy (que aumentaria exponencialmente suas comissões).

Como mulher prevenida, Josy queria, claro, testar antes o novo brinquedo. Para esse efeito, ligou para o pai, também ele um representante comercial de longa data.

“Papai, preciso que você mande uma mensagem pra mim, pra eu ver se meu fax aqui tá funcionando direito”.

“Que mensagem, minha filha?”

“Ah, sei lá. Manda aí qualquer coisa. É só pra testar mesmo”.

Sem muita paciência, o pai de Josy chamou dois netos que estavam brincando na sala. Explicou a situação e pediu-lhes que enviassem a mensagem. Raul e Tião não falaram nada, mas o entreolhar deles denunciou suas más intenções. Raul, o mais velho, disse pra Tião:

“Vai. Escreve isso aqui. Tua letra é melhor do que a minha”.

Escrita a mensagem, os netos pegaram o fax do avô e enviaram a mensagem pra tia. No minuto seguinte, o telefone toca de volta na casa do avô.

“Pai, que diabo foi isso?!? Quem foi que escreveu essa mensagem?!?”

Sem entender nada, o pai de Josy apenas disse:

“Foi o Raul e o Tião que escreveram”.

“Pois passe agora pra eles!”, pediu Josy, praticamente ordenando ao pai.

“Ô, menino! Que safadeza foi essa que vocês escreveram?!?”, perguntou a tia indignada.

“Que safadeza, tia?”, respondeu Tião, tentando segurar o riso enquanto simulava ignorância.

“Isso aqui que vocês escreveram no fax!”, insistiu Josy.

“Leia pra mim o que é que tá escrito aí, tia, por favor!”, respondeu descaradamente Tião.

“O que é que entra duro e sai mole pingando?”, leu Josy, com os dentes cerrados de raiva.

“Mas a senhora sabe o que é que entra duro e sai mole pingando?”, perguntou agora em viva-voz Tião.

“Não! O que é?!?”, disse a tia, já sem paciência.

“É o macarrão!”, explicou Tião.

E foi assim que Josy descobriu que, mesmo por meio de fax, também era possível enviar mensagens cifradas.

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