Perguntas sem resposta – Parte III

Salete Maria era a menina mais bonita da rua. A única coisa maior do que sua beleza, contudo, era sua preguiça. “O dia pra mim só começa às 11h”, costumava dizer ela. Por conta dos hábitos notívagos e pelo horror nutrido pelos primeiros raios da alvorada, Salete convencera sua mãe a matriculá-la no período vespertino da escola. “Eu aprendo melhor depois do almoço”, era a justificativa usada quando perguntada a razão por que não estudava durante a manhã.

A escolha pela tarde permitia a Salete entrar noite adentro e, às vezes, varar a madrugada, deliciando-se com outras prioridades da adolescência – como paquerar os jovens incautos da vizinhança – sem grandes prejuízos estudantis. Mas, como toda escolha, também esta não estava inteiramente isenta de efeitos colaterais.

Certa feita, o telefone tocou em sua residência. O relógio apontava algo como 10h30 da manhã, mas Salete ainda estava em seu terceiro sono nessa altura. Como a mãe e a irmã não estivessem em casa, o telefone seguiu tocando insistentemente até conseguir a façanha de acordá-la. Com o mau humor típico de quem é despertado contra a sua vontade, Salete, contrariada, levantou-se da cama e foi atender à chamada.

“Alô, quem é?”, indagou Salete, ainda com a voz rouca.

“Oi, Salete. É a Cleide, tudo bem?”, respondeu a interlocutora no outro aparelho.

“Cleide”, no caso, era uma empregada doméstica que trabalhara por mais de uma década na casa dela. Uma vez que a mãe de Salete trabalhava feito um bicho para sustentar as duas filhas depois que o pai as abandonou, a maior parte da criação das meninas coube a Cleide. Com as filhas crescidas, entretanto, a mãe de Salete acabou tendo de abdicar da ajuda de Cleide. A renda, pouca, já não lhe permitia “dar-se o luxo” de contar com uma doméstica dentro de casa.

“Sabe o que é, Salete? Ontem, o meu irmão, Fulano, estava voltando do trabalho e acabou sendo atropelado por uma moto. Eu acho que você não se lembra do Fulano, mas sua mãe gostava muito dele”, explicou Cleide, com a voz bem embargada.

“É, não me lembro mesmo, não”, respondeu Salete, com o corpo ainda lutando para sair do estado de suspensão animada e o cérebro tentando acender as luzes que fariam funcionar as sinapses.

“Pois é. Ele está muito mal. Como somos só eu e ele, não tem mais ninguém pra cuidar dele no hospital. Eu queria perguntar pra sua mãe se ela não poderia tentar revezar comigo alguns dias, pra ele não ficar sozinho lá”, suplicou Cleide.

Confrontada com uma pergunta objetiva, Salete viu-se obrigada a acordar na marra. Saindo do piloto automático que acionara ao atender o telefone, Salete finalmente procurou entender o que se passava.

“Sim, mas quem é que está falando, mesmo?”, perguntou semi-desperta.

“É a Cleide, Salete. Tá lembrada de mim?”

Foi quando enfim Salete deu-se conta de com quem estava falando:

“Sim, Cleide! Lembro demais!”, exclamou satisfatoriamente Salete, para logo depois emendar:

“Tudo bom?”

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