Refrigerante alemão

Criado pela avó tradutora, Raul sempre mostrou uma certa predileção pelas línguas estrangeiras. Talvez pela própria influência da avó, desde cedo desenvolveu alguma habilidade para aprender novos idiomas. Durante a infância, essa capacidade natural foi de grande valia, principalmente nas provas de inglês da escola. Adolescência, contudo, era outra história.

Como já tivesse aprendido espanhol por osmose (cortesia da avó argentina), somado ao inglês escolar, parecia natural que na fase da puberdade o jovem infante fosse se aventurar em áreas mais desafiadoras. E, em termos de língua estrangeira, nenhum desafio será maior do que aprender o idioma de Goethe e Nietzche.

Aulas iniciadas, curso caminhando, o sujeito recebe uma bolsa para passar quinze dias na Alemanha. Eram apenas dois semestres de alemão nas costas, mas Raul não contou pitanga:

“Vou lá fazer esse negócio!”

Com a namorada da época igualmente lisa, a grande questão seria saber se iriam os dois em conjunto, ou se Raul iria se aventurar sozinho em terras germânicas. Cata dinheiro daqui, aperta o cinto dali, pega grana emprestada acolá, eis que ambos conseguem comprar as passagens para ir à tão sonhada Europa pela primeira vez. A namorada, contudo, estava mais tensa do que ansiosa:

“Como é que eu vou fazer para me comunicar lá?”

“Não se preocupe”, tranquilizou-a Raul, cheio de confiança. “Deixa que eu desenrolo quando a gente chegar lá”.

A namorada levou a promessa ao pé da letra. Nem água ela se dispunha a comprar.

“Vai ali comprar uma água pra mim, por favor”.

Obediente e prestativo, Raul ia lá gastar seu alemão:

“Ein wasser, bitte” (“Uma água, por favor”).

E Raul saía do balcão da lanchonete todo satisfeito, carregando a garrafinha de água como se fosse um Oscar, um verdadeiro tributo ao seu conhecimento do alemão. A alegria, entretanto, duraria pouco.

Em outro momento, a namorada queria um café.

“Café é fácil”, pensou Raul, cheio de si.

“Ein caffe, bitte” (Um café, por favor).

Ao que a atendente respondeu:

“Whuahsansknaisuhiadiabdsa oder nianisnainshmopamspas?”, perguntou a atendente, numa rapidez e com um vocabulário incompreensíveis para o sujeito que apenas passara por meio livro didático de alemão.

“Expresso”, respondeu um acabrunhado Raul.

O bacana, entretanto, não se deu por achado. Realizando um sonho de infância, foram-se os dois à Filarmônica de Berlim. Ápice dos amantes da música clássica, assistir à orquestra que havia sido dirigida por Von Karajan é quase como ver um muçulmano ir a Meca; não há nada nem sequer comparável.

Sentados lá na rabeira, a 50 metros de onde a Filarmônica estava posicionada, o importante era estar dentro do recinto e poder ouvir aquela potência cadenciada dos metais e da percussão que só a orquestra berlinense é capaz de proporcionar. Guardando o obsequioso silêncio que se impõe nesse tipo de recinto, Raul mal engolia saliva, para que o barulho da deglutição não ressoasse por todo o ambiente (sim, se cair um alfinete lá dentro, você consegue escutar).

No intervalo, com a garganta seca, Raul foi ao bar do edifício. A namorada não queria nada, mas o sujeito havia trazido os trocados que garantiriam o refrigerante nosso de cada dia.

“Was möchtest Sie trinken?” (“O que você deseja beber?”), perguntou a bartender.

“Ein Coca, bitte” (“Uma Coca, por favor”)

A bartender imediatamente arregalou os olhos:

“Was willst Sie?” (“O que você quer?”), em um tom cuja tradução mais fidedigna seria:

“Meu filho, que diabos é o que você quer?”

Meio espantado com a reação da moça, Raul não falou nada. Apenas apontou o dedo em direção ao refrigerante de conteúdo preto envasilhado dentro da garrafa de vidro que estava em cima do balcão. Ao que a atendente respondeu aliviada:

“Ah, ein Cola!” (“Ah, uma Cola!”)

“Und worum habe ich gebeten?” (“E o que foi que eu pedi”?), insistiu Raul.

A bartender apenas repetiu “Coca”, e levantou o dedo indicador em direção ao próprio nariz.

E foi assim que Raul nunca mais se aventurou a tentar se comunicar numa língua que não dominasse minimamente…

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