Não foi surpresa pra ninguém.
Quando se noticiou que o tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens da Presidência, havia firmado um acordo de delação premiada, era apenas questão de tempo até que se vazassem os pormenores do que dissera à Polícia. Porque, afinal, não havia dúvidas de para quem apontaria o dedo do militar preso: Jair Bolsonaro.
Desde quando foi expulso do Exército, passando pelos 28 anos de atividade inútil na Câmara dos Deputados – em que o mais do tempo era gasto entre lacrações, bizarrices e discursos saudosos da ditadura -, até chegar numa eleição improvável à Presidência da República, todo mundo sabia que o se passava na cabeça de Bolsonaro. Se há uma coisa da qual ele jamais poderá ser acusado é de disfarçar suas intenções. Ele sempre foi bastante “honesto” nos seus propósitos. Se houve gente que caiu na esparrela do esquema das “quatro linhas da Constituição”, o problema não estava nele, mas em quem, voluntária ou involuntariamente, resolveu fechar os olhos para o passado tenebroso dessa figura.
Embora toda a gente imaginasse o comprometimento do círculo mais íntimo dos seus assessores com os pendores golpistas do seu chefe, não deixa de causar espanto saber-se que a idéia de golpear a democracia foi exposta abertamente aos chefes militares numa reunião no Palácio do Alvorada. Pior. Segundo o relato vazado de Mauro Cid, um deles – o ex-comandante da Marinha, Almir Garnier – teria apoiado o golpe e colocado suas tropas “às ordens” do Presidente. Ainda segundo o depoimento de Mauro Cid, a coisa só não teria ido à frente porque o Comandante do Exército, Freire Gomes, levou o pé à porta, tirando a força terrestre da jogada.
O quanto dessa decisão deriva de pressão aberta dos Estados Unidos, da falta de apoio entre os comandos de tropa para o golpe ou das convicções legalistas do Alto Comando do Exército, é algo que a história ainda haverá de esclarecer. Mas o que se pode afirmar, à margem de qualquer discussão, é que o país nunca esteve tão próximo do precipício quanto nos estertores no mandato de Jair Bolsonaro. Uma quartelada bananeira em tais circunstâncias teria um de dois desfechos: no primeiro, com o golpe dando certo, cairíamos numa espécie de “ditadura chavista de (extrema)direita”; no segundo, com o golpe ocorrendo, porém malogrando, estaria para sempre maculada a confiança do povo nas Forças Armadas.
Aí, portanto, pode-se começar a colocar a bola no chão. Seja lá por que motivo for, há de se reconhecer: o Alto Comando do Exército não embarcou no golpe. Até mesmo em mensagens de Zap na época Mauro Cid informava: Bolsonaro não confiava nos quatro-estrelas que estavam à sua disposição. E não “confiava” por uma razão muito simples: nenhum deles (ou, pelo menos, a sua maioria) dava demonstrações de que iria embarcar numa aventura golpista. Qualquer golpe sem Exército estará irremediavelmente destinado ao fracasso. Não por acaso, Bolsonaro passou os últimos dias de sua Presidência trancado em seus rancores, deprimido pela falta de apoio para a virada de mesa.
Sabendo-se dos riscos que corremos e do tamanho da força que será necessária para fazer com que os militares legalistas consigam superar o histórico de corporativismo das Forças Armadas para poder punir os golpistas, chega a ser tragicômico ver a classe política repetindo os mesmos velhos erros no meio dessa balbúrdia toda.
De um lado, tem-se Centrão e Cia. Ltda. querendo tomar todos os espaços do orçamento para se assenhorar dos dinheiros da República. Do outro, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, resolve incorporar o discurso da extrema-direita para vociferar contra a Justiça Eleitoral. Logo ela, que foi a linha de frente contra o golpismo bolsonarista, permitiu a Lula tomar posse (como manda a Constituição) e tornou Bolsonaro inelegível. E, no meio de tudo isso, partidos à direita e à esquerda articulam a mais desaforada e desavergonhada anistia eleitoral da história, votando às pressas uma proposta de Emenda à Constituição que o jornalista Carlos Andreazza definiu com precisão: “PEC do Esculacho”.
Não custa lembrar que o país escapou do desastre por um triz. Se apenas meio milhão de eleitores tivessem pensado diferente, ou o criminoso esquema golpista de impedir os eleitores do Nordeste de chegarem às urnas tivesse dado certo, Bolsonaro estaria reeleito e nossa democracia teria ido para o buraco. Considerando esse cenário, é no mínimo temerário que as instâncias deliberativas do país resolvam simplesmente dar as costas à sociedade e ligar o f***-se, como se nada de mais fosse ocorrer.
Democracia, repita-se, não aceita desaforo. Nesse momento, a classe política em geral tem que tomar um pouquinho de juízo e deixar de produzir besteiras em série. Tudo de que não precisamos agora é de um Congresso que resolva, em nome de pautas puramente corporativistas, passar o pano para sem-vergonhices do passado, enquanto ameaça os órgãos de controle. Quando isso acontece, o descontentamento vira irritação; a irritação vira raiva; e a raiva, ao final, vira ódio.
E a gente já viu muito bem onde é que isso vai parar…