A questão moral do aborto

Poucos assuntos despertam debates mais apaixonados do que o aborto. Não é pra menos. São raros os assuntos que mexem de forma tão profunda quanto à moral, à religião e ao direito.

Mais hora, menos hora, o Supremo Tribunal Federal vai criar uma nova hipótese em que o aborto será legalmente permitido: o aborto do feto anencefálico. Não quero entrar aqui no mérito desse caso especificamente. Vou apenas dizer que sou a favor no mérito (acho que a mulher deve ter o direito de abortar caso o feto seja anencéfalo), mas discordo na forma (deveria ser o Congresso a mudar a lei, não o STF).

Minha questão aqui é falar no aborto em geral. Pode ou não pode? Libera ou não libera? Descriminaliza ou não descriminaliza?

Sou radicalmente contra o aborto. Não contra o aborto em qualquer caso. Nos casos da lei, isto é, em casos de estupro ou de risco de vida para a mãe, assim como no caso dos anencéfalos, quando o STF mudar a lei, acho que tem mais é que abortar, mesmo. Nada mais justo. Mas, em relação à possibilidade de a mulher fazer isso quando bem entender, aí são outros quinhentos.

Não sou contra o aborto por uma questão religiosa. Não me interessa saber, nesse assunto, quando se considera formada a vida, se feto é um ser vivo, etc, etc, etc. A questão, a meu ver, é puramente moral.

“Moral? Como assim?” Seguinte:

Que se defendesse o aborto nos anos 30, talvez fizesse algum sentido. Afinal, as mulheres supostamente deveriam casar virgens, sexo era assunto proibido nas escolas e dificilmente saía de dentro das quatro paredes. Hoje, não. Todo mundo sabe o que é sexo. Crianças de 10, 11, 12 anos já tem noção suficiente sobre assuntos sexuais, provavelmente muito mais do que muitos da minha geração tinham. Na pior das hipóteses, sabem que sexo conduz à gravidez. Quanto aos mais velhos, então, nem se fala. Portanto, argumentar a possibilidade de aborto com base no “desconhecimento” dos “riscos” é algo inaceitável.

Quanto ao método, há dezenas de variações de técnicas anticoncepcionais. Camisinha, coito interrompido, dill, pílula, e um enorme etc. Ou seja: o sujeito (ou melhor, a sujeita) sabe que transar implica risco de gravidez e sabe que existem vários métodos de, mesmo transando, impedi-la.

Em suma: o sujeito – e a sujeita – sabem dos riscos, decidem ignorar as medidas preventivas e, ainda assim, a lei lhes concede o direito de “abortar” o feto indesejado? Francamente, vocês não acham isso um pouco de complacência demais, não?

É fato: em quase todos esses casos, a decisão sobre o aborto resume-se a uma questão de conveniência. “É melhor eu ter agora ou é melhor esperar?” “Eu amo mesmo esse(a) homem/mulher?”

Perguntas justas e pertinentes, ninguém duvida. Mas para serem feitas antes do ato sexual desprevenido. Fazê-las depois e autorizar que o arrependimento posterior possa ser sancionado pela lei, para mim, significa premiar a inconseqüência. “Transo com quem quiser, do jeito que eu quiser. Se aparecer um “problema” depois (leia-se: gravidez), não tem problema: aborto”.

No limite, estaremos liberando a mais completa e absoluta irresponsabilidade sexual. Ficaremos todos na situação de otários. Nada poderia ser mais imoral.

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3 respostas para A questão moral do aborto

  1. Pingback: A nova interpretação sobre a prisão de condenados, ou A biruta do Supremo | Dando a cara a tapa

  2. Anonimo disse:

    Em primeiro lugar, fico muito feliz por saber que você tem boas condições de vida, tem um computador com acesso à internet, teve acesso à educacao e também teve pais que o tiveram e puderam lhe passar todas as informações importantes sobre sexo. Mas, infelizmente, nem todos têm a sua sorte. No Brasil, nem todos têm conhecimento da existência de métodos preventivos ou de como usá-los. Em consequência disso, vem a tona muitas gravidez indesejadas. ABORTO É COMUM NO BRASIL. Estima-se que ocorram mais de 1 milhão de abortos por ano no Brasil. Mulheres com boa renda tem acesso à clínicas clandestinas que cobram fortunas para realizar o aborto. Já as mulheres pobres, não tendo acesso à isso nem boas condições financeiras, tentam provocar aborto em si mesmas de formas absurdas: socando o abdômen, enfiando objetos perfurocortantes pela vagina, etc. Mulheres brasileiras morrem por causa de abortos inseguros, pois não podem recorrer aos profissionais da saúde para não serem denunciadas. Calcula-se que dia sim, dia não uma mulher morre por causa de abortamento mal-sucedido no país. Portanto, a lei é completamente ineficaz para evitar o abortamento, mas altamemte eficaz para matar mulheres. As consequências da lei acabam sendo mais severas que a própria pena criminal.
    Em segundo lugar, MÉTODOS CONTRACEPTIVOS FALHAM. O único método que previne 100℅ a gravidez é a abstinência sexual. Portanto qualquer pessoa, por mais responsável e cuidadosa, pode ter uma gravidez indesejada. Portanto, a não ser que você defenda o sexo apenas quando pretende-se engravidar, é aconselhável você rever seus pensamentos.
    Estamos falando de uma série de mudanças que comprometem a mulher, seu corpo! A lei a obriga a aceitar as consequências que envolvem seu corpo!
    Na Europa, onde o aborto é legalizado a taxa de abortamentos por ano decresceu, pois, desse modo, as pessoas, pobres e ricas se dirigem às clinicas, onde conseguem informações sobre métodos contraceptivos, evitando futuras gravidez indesejadas.
    Portanto, cuidado! É muito fácil falar e acusar alguém quando nao acontece com você.

    • arthurmaximus disse:

      Como regra, não aprovo comentários de anônimos. Neste caso, senti-me justificado a fazê-lo para explicar melhor o que escrevi.
      Não tratei aqui da questão LEGAL do aborto, mas da sua perspectiva MORAL. Do ponto de vista legal, aborto – salvo as exceções legais e outras mais que o STF entender de criar – é crime. Ponto.
      O que escrevi é que, do ponto de vista moral, não há qualquer justificativa razoável para o aborto. Sob esse aspecto, seu texto, apesar de bem escrito, em nada contradiz esse argumento. Pelo contrário. Quando você diz, por exemplo, que “métodos contraceptivos falham”, você está automaticamente reconhecendo que, se a pessoa tomou todas as precauções para não ter uma gravidez indesejada e ainda assim a teve, haveria uma justificativa moralmente aceitável para que ela abortasse. Isso pode ser discutível, mas é plenamente aceitável como argumento lógico. Na mão contrária, contudo, isso implica dizer que, se não forem tomadas as medidas adequadas para evitar a gravidez, o aborto será moralmente inaceitável.
      Enfim, o intuito aqui não foi “acusar” ninguém, mas simplesmente chamar a atenção para a superficialidade do discurso pró-aborto em qualquer hipótese, o que reduz a qualidade do debate e impõe argumentos desconexos, como esse de de que seria “muito fácil falar” o que disse pois isso nunca teria acontecido comigo.
      Um abraço.

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