Nunca se deram, mas a atração física foi maior. Sabe como é, né? Aquela história do casal que discute de dia e acerta as contas das brigas à noite? Pois é. Para o público externo, o mise-en-scène ganha ares de comédia pastelão. Por mais que o pau quebre, todo mundo sabe que, no final das contas, eles vão acabar se acertando de alguma forma. Era essa a história de vida de Roberto e Marcela.
Certa feita, Roberto e Marcela resolveram convidar alguns casais amigos para almoçar. O restaurante era agradável e a comida pode ser que não fosse inteiramente má. Mesmo assim, não eram a disposição errônea dos talheres à mesa que chamava a atenção, mas a caça de gato e rato protagonizada pelos organizadores do almoço.
“Roberto, você sabe reclamar! Não sei como foi que eu fui casar com você!”, berrava Marcela.
“Você faz tudo errado, Marcela! Eu que não sei como foi que eu casei contigo!”, rebatia Roberto.
Os amigos da mesa procuravam algum buraco onde se esconder no meio da baixaria, mas a busca seria em vão. Roberto e Marcela não faziam questão nenhuma de esconder suas desavenças conjugais dos clientes do restaurante ao lado, quanto mais das mesas vizinhas. Sem alternativa digna à mão, restava aos convivas continuar comendo e bebendo. Com alguma sorte, o tempo acabaria passando mais rápido
Entrada, prato principal e duas garrafas de vinho depois, as discussões maritais continuavam. E, por mais que os amigos soubessem da vida pregressa do casal, de vez em quando algum deles se pegava com o mesmo pensamento enunciado por Marcela: “Mas vem cá: por que é que eles se casaram mesmo?” O pensamento, contudo, era contido pelo receio de que sua enunciação agravasse ainda mais o cenário de guerra.
Como as brigas não cessavam, já com os pratos de sobremesa deitados à mesa, Roberto resolveu partir pra ignorância. Quando Marcela veio lhe dar mais uma patada, ele respondeu com uma frase profundamente contraditória:
“Amor, vai se foder!”
Ao que Marcela replicou, na lata:
“Ah, se eu pudesse!”
O restaurante inteiro caiu na risada.
E foi assim que Roberto descobriu que nenhuma relação conjugal, especialmente as conturbadas, sobrevive só à base de sexo.