Wake-up call, ou Os riscos da variante ômicron

Vem do inglês uma expressão muito apropriada para os nossos tempos. A expressão à qual o título se refere atende pelo nome de “wake-up call”. Originada dos famosos serviços de despertador oferecidos pelos hotéis de turismo, a tradução literal da expressão seria “chamada de (ou para) acordar”.

Com o passar do tempo, contudo, o uso vulgar da expressão acabou levando-a a ser transformada na língua de Shakespeare em algo como “alerta”. Daí, por exemplo, frases como “The enviromental report is a wake-up call to the world” serem traduzidas para o vernáculo como “O relatório ambiental é um alerta para o mundo”. No entanto, para os fins deste post e para quem nasceu da virada do milênio para cá, talvez a melhor tradução da expressão seja aquela mais descontraída e coloquial: “cair na real”.

“E o que é que a expressão wake-up call tem a ver com as calças?”, deve estar se perguntando você.

Ao que eu respondo: “tudo”, a menos que você não tenha ainda ouvido falar da variante ômicron.

Descoberta pelos cientistas da África do Sul, a ômicron é a mais recente variante de interesse do famigerado vírus da Covid-19. Com mais de 50 mutações em relação ao vírus original descoberto na China, 32 delas somente na proteína spike, a responsável pela capacidade do vírus de infectar as nossas céulas, a ômicron suscitou uma nova onda de relativo pânico em relação à pandemia. Assim como no “Jogo da Vida”, parecia que a humanidade havia pisado em falso numa parte do tabuleiro, fazendo-a retornar 10 casas do caminho, atrasando todo o avanço que tivemos até agora com a vacinação.

Mas há motivo para tanto pânico?

Em princípio, não.

Em primeiro lugar, deve-se destacar que ainda não se sabe exatamente do que a ômicron é capaz. Descoberta há pouco mais de duas semanas, os cientistas ainda estão tentando descobrir qual a capacidade de transmissão dessa nova variante e – o que é mais importante – se as vacinas que temos hoje são capazes de produzir resposta imune também contra ela. Como já aprendemos bastante sobre esse maldito vírus e os cientistas já estão bem passados na casca do alho em relação a ele, é possível que já tenhamos essas respostas antes do final do ano, o que já iluminaria bastante o problema.

Em segundo lugar, embora nada ainda seja certo em relação à ômicron, é improvável que ela escape completamente à imunidade conferida pelas nossas vacinas. Não só porque nenhum dos pacientes até agora identificados com a variante tenha apresentado sintomas graves, mas principalmente porque a África do Sul, com apenas 24% da população vacinada, não é exatamente o local mais propício para que surjam variantes com grande capacidade de escape vacinal. Afinal, para que o vírus possa “aprender” a escapar da vacina, é necessário antes que ele entre em contato com uma população razoavelmente vacinada, o que não é o caso do país africano.

Em terceiro lugar, ainda que se materialize o pior cenário, isto é, de a ômicron ser muito mais transmissível que a última variante (a delta) e possuir grande escape vacinal, esse problema não nos devolveria à estaca zero, como grande parte da população imagina. Graças à tecnologia desenvolvida com as vacinas de RNA, em pouco mais de três meses já seria possível adaptar as vacinas existentes para combater essa nova variante. Isso decerto causaria atrasos e, possivelmente, novas mortes, mas nem de longe estaríamos na mesma situação em que estávamos em 2020, quando a pandemia corria solta e ainda não havia nenhum imunizante disponível na praça.

Se é esse o cenário, por que tanta comoção com essa nova variante?

A razão é clara. Sendo mais transmissível, a ômicron pode levar a uma nova rodada de subida de casos e internações não somente em pessoas ainda não vacinadas, mas principalmente entre os teimosos que já foram infectados e se fiam na chamada “imunidade natural” para não tomar vacina, mais susceptíveis a reinfecção pela nova variante. Ademais, mesmo para quem já tomou vacina, o risco não é zero. Não somente porque nenhuma vacina é 100% eficaz, mas também porque os imunizantes não servem propriamente para impedir a infecção, mas, sim, o agravamento e a morte dos infectados.

Desde o começo da pandemia, a humanidade em peso sonha com o dia em que poderemos voltar a viajar para outros países sem preocupação ou andar na rua sem máscaras nos rostos. Com o advento das vacinas e a imunização em massa das pessoas, esse sonho parecia estar ao alcance da mão. O que a variante ômicron conseguiu ao surgir, portanto, foi fazer com que a humanidade inteira caísse na real. A contrário do esperado, ainda há um longo caminho a percorrer para que essa tal “normalidade” venha, de fato, a se materializar.

Até que tenhamos a maior parte da população MUNDIAL vacinada, ainda teremos de conviver por bastante tempo com restrições de locomoção, máscaras e distanciamento social. Grandes festas em locais públicos ou privados continuam terminantemente não recomendadas, e as prefeituras das capitais brasileiras agiram muito bem ao cancelar os réveillons programados. Nos casos em que seja possível, o home office ainda deve imperar, para permitir que quem realmente tem que sair à rua para trabalhar possa circular sem maiores riscos à sua saúde. As máscaras ainda seguirão como nossa fiéis amigas por um bom tempo.

Enquanto isso, podemos correr com o que está à mão. A Pfizer, por exemplo, já protocolou na Anvisa um pedido para aplicar sua vacina a crianças de 5 a 12 anos. Sem elas, não conseguiremos de forma alguma chegar aos estimados 90% de população vacinada para dar cabo à circulação do vírus. Deveríamos, portanto, estar cobrando agilidade da Anvisa na apreciação desse pedido e também exigindo que o Ministério da Saúde já estivesse desenhando o esquema vacinal dessa faixa etária. Com alguma sorte, poderíamos ter a maior parte das crianças vacinadas entre dezembro e janeiro, permitindo um retorno seguro das aulas no começo do ano que vem.

A variante ômicron desperta preocupação? Sim. Ela representa o fim do mundo? Não. Mesmo assim, não convém dar sopa para o azar. Com mais de 600 mil mortos nas costas e uma legião de sequelados pelo coronavírus, tudo o que o Brasil não precisa fazer agora é baixar a guarda para forçar um irreal “retorno à normalidade”. Réveillon e Carnaval podem esperar. A vida, não.

Esse post foi publicado em Ciências e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.