O atentado a Bolsonaro, ou Para onde vai o Brasil?

Ontem, por razões de força maior, não pude fazer a atualização semanal deste espaço como vos tinha prometido há alguns meses. Por um desses acasos que só o destino é capaz de proporcionar, a ausência de ontem pode ser compensada com um tema que tornaria inútil e sem sentido qualquer coisa que tivesse escrito ontem: a tentativa de assassinato de Jair Bolsonaro.

Sim, você não leu mal. “Tentativa de assassinato”. Porque quem sai de casa com uma faca de açougueiro, esconde-a por debaixo da jaqueta e apunhala um semelhante até a carne alcançar o cabo não tem outra intenção senão tirar a vida de quem foi esfaqueado. A essa altura, Bolsonaro já foi operado e o risco de morte imediato foi, pelo menos por ora, afastado. Ressalvadas as complicações que sempre podem surgir em intervenções cirúrgicas (lembrai-vos de Tancredo Neves!), ainda mais em circunstâncias tão emergenciais quanto esta, o candidato do PSL deve sair com vida do episódio.

E agora?

Bem, agora ninguém sabe. A coisa toda foi tão maluca que o mercado futuro da Bovespa deu um salto de mil pontos em poucos minutos depois que o crime foi noticiado. Enquanto no mundo inteiro a tentativa de assassinar o líder das pesquisas eleitorais conduziria a uma derrocada dos mercados, aqui, ao contrário, o dólar caiu e a Bolsa subiu. O máximo que se pode fazer no calor do momento, como fizeram os operadores do tal “Mercado”, é especular.

Supondo que Bolsonaro sobreviva ao atentado, a questão é saber que tipo de efeito o incidente terá sobre a trajetória eleitoral do deputado. Embora seja certo que muito da antipatia e da rejeição que ele colhe no eleitorado seriam atenuadas, é fato também que o candidato ficaria impossibilitado de fazer campanha nas ruas pelo menos até o final do 1º turno.

No frigir dos ovos, pode-se intuir que o resultado político do incidente seria um resultado de soma zero, ou seja, Bolsonaro nem ganha nem perde; ficaria exatamente onde está. Talvez, a depender da sagacidade de seus marqueteiros e da burrice dos assessores alheios (uma assessora de Dilma Rousseff chegou a dar os “parabéns” a Bolsonaro por incitar a violência), Bolsonaro até cresça mais um pouco. Seja como for, ficando parado ou subindo um pouco, sua vaga no segundo turno, que já estava ao alcance da mão, agora pode ser considerada como certa.

Se, por outro lado – bate na madeira! -, Bolsonaro vier a falecer, a eleição de 2018, que já disputava o trono de mais imprevisível de todos os tempos, alcançaria facilmente o status de hors concours. Um quarto do eleitorado se veria subitamente privado de seu líder, sem que haja ninguém imediatamente disponível para assumir o seu legado eleitoral.

Uma disputa intestina entre os candidatos da dita “direita liberal” – Alckmin, Amoêdo, Meirelles e Álvaro Dias – seria deflagrada, com resultados ainda incertos. Alckmin seria o beneficiário mais evidente, mas não seria de todo inteligente descartar uma súbita ascenção de Amoêdo e até mesmo de Henrique Meirelles, montados na grana boçal de que dispõem para a campanha.

Engana-se, porém, quem acha que os efeitos eleitorais da tentativa de assassinato de Jair Bolsonaro ficariam limitados à direita. Pouco se sabe sobre o criminoso que tentou matá-lo, mas já circulam evidências de que ele foi filiado ao PSOL e teria ajudado na campanha de Dilma Rousseff em 2014.

Se a associação ficar restrita ao PSOL, o efeito do incidente sobre o eleitorado da esquerda será diminuto. Boulos está na rabeira das pesquisas e por lá continuaria, sem muita mudança de cenário. No entanto, se houver associação do criminoso ao PT, a bomba pode ter efeito devastador. Fernando Haddad, que ainda não assumiu a cabeça da chapa petista, pode ter suas pretensões eleitorais dinamitadas logo de cara. Embora não passe pela cabeça de ninguém associar ele ou qualquer outro dirigente do PT ao crime, o fato é que isso seria explorado ad nauseam na campanha, levando o PT a carregar a marca do “extremismo” como uma bola de ferro amarrada ao tornozelo.

Caso isso venha a acontecer, as cartas dos outros candidatos voltariam todas ao baralho. Ciro Gomes seria o herdeiro óbvio dos votos petistas, mas não se pode descartar uma ascensão meteórica de Marina Silva, à falta de opções mais deglutíveis para o eleitorado esquerdista. Não se poderia se descartar sequer uma das hipóteses mais improváveis de todas: um 2º turno entre extrema-direita (Bolsonaro) e direita (Alckmin), caso o ex-governador paulista consiga transformar o latifúndio radiotelefônico que detém em meia dúzia de votos.

Seja como for, o atentado a Bolsonaro marca o ápice de uma cavalgada de degradação do ambiente político que o Brasil experimenta desde pelo menos 2014. Desde as incompreendidas manifestações de junho de 2013, passando pelo estelionato eleitoral do ano seguinte, as multidões de 2015 e o impeachment de 2016, o Brasil segue numa escalada crescente de ódio e intolerância, na qual o cidadão que pensa politicamente diferente de mim não é alguém a ser convencido, mas um sujeito a ser exterminado.

Seria muito bom que desse triste episódio surgisse pelo menos algo de bom: uma chamada de consciência coletiva entre políticos e eleitores dos mais diversos matizes ao cultivo saudável da tolerância. Entretanto, a julgar pelo histórico recente, só mesmo sendo muito ingênuo pra achar que algo do tipo pode acontecer. Ao contrário. O mais provável é que as coisas continuem a piorar.

“Pra onde vai o Brasil, afinal?”.

E a resposta nunca foi tão atual quanto agora:

“Só Deus sabe”.

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