O ataque ao funcionalismo

Era apenas uma questão de tempo.

Exatamente como foi profetizado aqui no Blog há quase um ano, as baterias do Governo e da mídia, antes voltadas exclusivamente para o Judiciário, voltaram-se agora contra o conjunto do funcionalismo. Como uma Blitzkrieg alemã, o ataque vem por terra, mar e ar, sem que os servidores tenham sequer canais para fazer sua defesa perante a população.

De início, começaram as mistificações de sempre. Para retirar seus direitos previdenciários, alegava-se, por exemplo, que o Brasil gastava com a Previdência do funcionalismo o mesmo que gasta com todo o INSS. Para sacrificar o corte de benefícios, vinha alguém dizer que o país gastava 40% do que arrecada com o salário dos que trabalham com ele. E, como não poderia deixar de ser, sempre aparece um gaiato pra dizer que a estabilidade do servidor público tem que ser revista. Tudo conversa fiada.

Pra começo de conversa, o Regime Próprio de Previdência dos Servidores (ou RPPS, para os íntimos) é quase superavitário. O problema, claro, reside na manipulação dos números. Na contagem do “déficit”, ninguém costuma incluir o valor da contribuição paga pelo servidor (11% do bruto), nem muito menos o valor que o Governo deveria pagar como empregador que é (20% sobre o salário, nas empresas privadas). No frigir dos ovos, tudo é lançado como “despesa”, inflacionando artificialmente o déficit.

Quanto à questão do “peso” dos salários, aí é que a coisa fica engraçada, mesmo. Em 1995, quando se inicia a série histórica, o Brasil gastava 5,4% do PIB com funcionalismo. Desde então, só fez cair, até atingir o piso de 3,8% do PIB. Nos últimos três anos voltou a subir, é verdade. Mas o grosso desse aumento deve ser computado na brutal recessão do país. Se o PIB cai e a despesa com salário permanece estável, é evidente que percentualmente haverá uma subida. Apesar de tudo isso, a despesa com salários da União no ano passado foi de apenas 4,2%, aproximadamente 1/5 a menos do que há 20 anos. Mesmo assim, piadistas como Kennedy Alencar sentem-se no direito de sugerir gracinhas como “congelar durante anos aumento salarial para as carreiras da elite do funcionalismo público”.

Por fim, restava somente atacar a “injustificável” estabilidade dos servidores. Trata-se de uma das garantias mais fundamentais do funcionalismo. É através dela que se garante aos funcionários públicos o mínimo de independência para desempenhar sua função. Imagine, por exemplo, um fiscal da Receita que tem de atuar uma empresa por sonegação fiscal. Se ele não tivesse estabilidade, bastaria uma ligação do empresário para o seu superior para “acabar com o problema”. Isso, claro, para não falar no desejo nunca externado de demitir todos os servidores concursados para preencher suas vagas com apaniguados.

Na verdade, tudo gira em torno de uma estratégia já devidamente arquitetada nos tempos de Fernando Henrique Cardoso. Tendo deixado os servidores a pão e água por intermináveis oito anos, assiste-se agora à reprise do dueto “Governo-Mídia” no qual se recita o papel do servidor como Grande Satã. Por surrada, imaginava-se que a armação jamais voltaria a ser encenada. Doce ilusão.

É claro que para quem ganha salário baixo, não tem direito sequer a horário de almoço e todo dia levanta com esporro do patrão, não há como compreender que haja um mundo no qual o sujeito pode ganhar bem, ter seus direitos respeitados (em regra) e não precisar levar desaforo pra casa. É nesse misto de desejo e incompreensão que jogam Governo e Mídia, contando com a desinformação como artefato de artilharia.

O que o sujeito em casa não consegue perceber é que, quando se ataca o funcionalismo, no fundo quem perde é ele mesmo. Perde na forma de saúde e educações piores, perde na forma de investimentos menores e perde, enfim, na forma de um Estado subserviente aos ditames de quem tem mais dinheiro.

O jogo do ataque ao funcionalismo ainda está pra ser jogado. Espera-se apenas que a população não descubra muito tarde que estava torcendo pelo time errado.

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2 respostas para O ataque ao funcionalismo

  1. Olá, tenho interesse em republicar esse post no nosso site e talvez na revista impressa. Caso queira aumentar o alcance do seu texto, você poderá entrar em contato comigo para autorizar!

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