Traduzindo nomes

Desde criança, Charles mostrava-se um sujeito teimoso. Quando uma coisa entrava a sua cabeça, nem a fórceps alguém conseguia tirar. Podia ser a coisa mais evidente do mundo, mas o sujeito ia em frente com a sua convicção até o fim, ainda que se arrebentasse contra um muro no final da discussão.

Tiago, por sua vez, não deixava por menos. Firmava sua fé com facilidade e se agarrava a ela como um náufrago à bóia. Mas, à diferença de Charles, dispunha-se a voltar atrás quando as evidências lhe eram francamente contrárias. Como ninguém se reconhece teimoso, Tiago nunca enxergou sua birra. Talvez por isso mesmo, adorava tirar onda com Charles, a quem julgava – não sem alguma razão – como mais turrão do que ele.

O mote apareceu de onde menos se esperava. Em um canal de TV a Cabo, transmitia-se uma emissora portuguesa. As notícias não eram lá muito relevantes, mas sempre que um brasileiro escuta um português falando acaba encontrando alguma coisa para achar graça. Nesse caso, falava-se da visita do então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, a Portugal. Acompanhado de sua esposa, Bill Clinton encontrava-se de passagem para alguma reunião de cúpula, e aproveitou para visitar nossos patrícios no caminho.

Com a cerimônia que é peculiar dos âncoras de TV, o apresentador do noticiário lusitano informou que chegava naquele dia a Portugal “o presidente dos Estados Unidos, Guilherme Clinton, e sua mulher, Hilária”.

Tiago caiu imediatamente na risada.

“Que coisa bizarra! Eles traduziram os nomes do Bill Clinton e da Hillary! Por que isso, meu Deus?”, perguntou em um misto de ironia e incredulidade um debochado Tiago.

“Você é muito é ignorante, Tiago! Eles que estão certos!”, censurou Charles, de forma ríspida.

“Como assim estão certos, Charles? Desde quando se deve traduzir nomes próprios?”, replicou Tiago.

“Tem que traduzir, sim! Se a palavra tem uma correspondente no seu idioma, você tem que usar o vernáculo. Os espanhóis, por exemplo, traduzem até nome de banda. Lá, você não encontra nenhum disco do ‘Iu Tiu’. Só encontra discos do ‘U dos'”, ensinou Charles.

“Eu continuo achando isso bizarro. Ainda bem que aqui no Brasil não se faz isso”, resignou-se Tiago.

“Pois tinha mais era que fazer” – insistiu Charles – “Por mim, todos os nomes seriam traduzidos!”

“Tudo bem, Carlos”, encerrou Tiago numa imensa gargalhada.

E nunca mais Charles voltou a falar em traduzir nomes estrangeiros.

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