O Coronel e a socialite

Militar é um bicho estranho. Forjado numa instituição estruturada em torno da disciplina e da hierarquia, o militar adora exercer a autoridade, mas de vez em quando tem ojeriza a seguir ordens, especialmente quando ela vem de alguém de quem ele não gosta. E quando essas idiossincrasias confrontam-se dentro de uma ditadura militar, aí é que a coisa descambava para a anarquia, mesmo. Foi o que aconteceu no Recife da metade dos anos 60.

A ditadura mal engatinhava, e o Marechal Castello Branco tentava pôr alguma ordem no caos, enquanto reformava grande parte da estrutura jurídica do país. Na capital pernambucana, a repressão comia solta. Com um povo irascível e politizado, não era preciso ser grande estrategista para descobrir que era no Recife que a mão pesada da linha dura tinha que bater com vigor. Do contrário, as insurreições estudantis se espalhariam como rastilho de pólvora no Nordeste brasileiro.

Para segurar o rojão, o Comando do IV Exército entregou o comando da repressão ao Coronel Bandeira. Liberticida e autoritário, Bandeira pintava e bordava na região. Prendia quem queria, comunista ou não, apenas para demonstrar a força de sua autoridade. Se o método não funcionava muito como meio de investigação, é certo no entanto que seu poder dissuasório impedia que estudantes um pouco mais medrosos aderissem aos protestos contra o Governo.

Para mostrar que tinha força, Bandeira resolveu espezinhar Dom Hélder Câmara. Um dos maiores expoentes da oposição à ditadura, Dom Hélder carregava uma imagem inversamente proporcional ao seu tamanho. Metia medo nos gorilas não porque podia enfrentá-los com as mãos, mas porque podia confrontá-los com sua palavra.

Uma vez que o Coronel Bandeira não tinha como prender o Arcebispo de Olinda e Recife – pois ninguém engoliria tamanha afronta, resolveu então prender seus seguidores. Numa batida noturna, levou para o Forte das 5 Pontas um de seus coroinhas. Pacato por natureza, católico por opção, o coroinha em questão era uma pomba sem fel, incapaz de fazer mal a uma mosca. Mesmo assim, ele foi levado para o porão da repressão.

Para azar de Bandeira, entretanto, o coroinha nascera em berço de ouro. Oriundo de uma nobre família local, o sujeito podia não conhecer muita gente, mas muita gente conhecia ele. Pior. Sua irmã, casada com um rico industrial local, fizera amizade com o Marechal Castello Branco quando este comandou o IV Exército. Frequentavam-se mutuamente, a ponto de Argentina – a mulher do Marechal – tornar-se sua confidente. Ao saber da prisão do irmão, a socialite tocou o telefone para seu velho amigo. A resposta foi imediata:

“Não faça nada. Você será informada das minhas providências”.

Meia hora depois, o telefone toca de volta no Recife:

“Fulana? Sou eu, Humberto. Eu já tratei do seu caso. Vá lá ao Forte das 5 Pontas que seu irmão vai ser liberado”.

“Que bom!”, respondeu aliviada a socialite.

“Só uma coisa:” – alertou Castello Branco – “Assim que você voltar pra casa, ligue pra mim. Quero saber se deu tudo certo”.

Depois de desligar o telefone, a socialite tomou o rumo do Recife Antigo. Chegando ao Forte das 5 Pontas, fez-se anunciar ao Coronel Bandeira. Exercendo em toda a sua extensão a sua autoridade, Bandeira deu um tremendo chá de cadeira na socialite. Duas horas de espera depois, o Coronel mandou a socialite entrar.

“Olhe, eu sei que a senhora está aqui por causa do seu irmão. Mas ele está metido em atividades subversivas e nós ainda não terminamos as nossas investigações. Para que a senhora não fique aí esperando esse tempo todo, sugiro que a senhora volte pra sua casa. Quando ele for liberado, nós comunicamos”, explicou Bandeira.

“Tudo bem, Coronel. Mas eu falei com o Presidente e ele disse que meu irmão ia ser liberado agora. Ele me disse também pra ligar pra ele assim que chegasse em casa. O senhor quer que eu ligue pra ele pra confirmar que soltaram meu irmão? Ou prefere que eu ligue pra dizer que ele continua preso?”, respondeu a socialite.

“Aguarde aí fora um instante, por favor”, respondeu um lívido Coronel Bandeira.

Cinco minutos depois, sai o estafeta da sala do Comando:

“O Coronel pediu para informar à senhora que seu irmão será liberado agora”.

E assim o Coronel Bandeira descobriu que, mesmo numa ditadura, formiga consegue saber qual é a folha que corta.

Anúncios
Esse post foi publicado em Crônicas do cotidiano e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s