Operação Dínamo, ou A retirada de Dunquerque

Dos cinemas vem o mote para resgatar uma das seções mais especiais deste espaço: a sempre tão esquecida e maltratada História. Conduzido pelo diretor do excelente Batman – Cavaleiro das Trevas e do estupidamente bizarro Interestelar, Dunkirk chega aos cinemas com ares de épico, numa zona em que concorrem em pistas separadas películas do naipe de um Resgate do Soldado Ryan ou de um Cartas de Iwo Jima.

Como ainda não assisti ao filme, vou me concentrar no tema sobre o qual a história se desenrola. E, por mais competente que seja Christopher Nolan, dificilmente sua produção conseguirá captar o tamanho do drama envolvido em um único episódio. Numa só mão de cartas, decidiu-se o futuro da Inglaterra, o futuro da guerra e o futuro da própria civilização ocidental.

A época era maio de 1940. Pouco menos de um ano antes, Alemanha e URSS invadiam a Polônia e davam início oficial ao segundo grande conflito do século XX. Em pouco menos de um mês, a Polônia literalmente desaparecia do mapa, dividida ao meio entre nazistas e soviéticos.

Todavia, de forma assaz curiosa, pouca coisa aconteceu depois disso. Os franceses se armaram, a Força Expedicionária Britânica atravessou o Canal, mas ninguém partiu pro pau. Aliados e Eixo ficaram naquela do “deixa que eu deixo” por mais de seis meses, em um período alcunhado ironicamente pelo historiadores de Phoney War (Guerra de Mentira). Mas o pior ainda estava por vir.

Enquanto franceses e britânicos fingiam que guerreavam, Hitler e seus generais armavam suas estratégias, esperando apenas o melhor momento para dar prosseguimento à conquista da Europa. Em abril de 1940, a Alemanha invade Dinamarca e Noruega. Era o prenúncio de que a Batalha da França estava por começar.

No dia 10 de maio de 1940, dois acontecimentos históricos ocorreram simultaneamente. No continente, Hitler dera a ordem para iniciar a invasão da França, levando no caminho, de roldão, Bélgica, Luxemburgo e Holanda. Na ilha do outro lado do Canal da Mancha, Winston Churchill assumira o cargo de Primeiro-ministro, no lugar do apaziguador Neville Chamberlain. Parecia coisa do destino.

Convencidos de que os alemães fariam a guerra do mesmo modo que em 1914, numa variante do plano Schlieffen, o exército francês e a Força Expedicionária Britânica armaram-se contra uma gigantesca ala direita da Wehrmacht. A idéia, segundo quem acreditava na reprise da estratégia, era de que os nazistas tentariam capturar o exército inimigo em um grande movimento de pinça, cercando-o logo após contornar Paris.

Plano Schlieffen

Mas, como todo mundo estava careca de saber, franceses e britânicos estavam lutando a guerra passada. Hitler e seus generais já haviam bolado uma nova e revolucionária linha de ação. Montada em sua infantaria Panzer e contando com os avanços tecnológicos de seus militares, os alemães deram uma espécie de “drible da vaca” nas defesas aliadas. Enquanto fingiam repetir o esquema de 1914, na verdade deslocaram 37 divisões (7 blindadas e 3 de infantaria motorizada) pelo meio da floresta das Ardenas, território que os aliados julgavam inexpugnável a uma invasão.

Batalha da França

A estratégia mostrou-se avassaladora. Como uma faca quente cortando manteiga, o exército alemão adentrou o território francês, partindo ao meio as defesas aliadas. Pior. Uma vez que a maior parte do contingente estava à esquerda (para cobrir o suposto lado direito gigante alemão), isso significava que quase todo o exército aliado estava agora encurralado entre os nazistas e o mar.

A tragédia parecia próxima. Bastava uma ordem do Führer e a espinha dorsal das forças aliadas seria quebrada. O que restava do exército francês e a quase totalidade da Força Expedicionária Britânica seriam dizimados, pois pouco poderiam fazer contra o avanço dos tanques e aviões alemães. Tudo parecia perdido.

Mas o destino sorriu para a humanidade. Hitler não só não deu a ordem para exterminar os soldados encurralados ao norte, como – pasmem – mandou as tropas pararem. Como bons alemães que eram (e para desespero dos estrategistas nazistas de guerra), os militares pararam.

Do outro lado do Canal, o clima era de grande tensão. Churchill acabara de assumir e, àquela altura, parecia um primeiro-ministro de pouco futuro. Meio mundo desconfiava dele, inclusive os membros do Governo. Havia até quem achasse que ele trazia má sorte. Prenunciando o desastre, parte do Gabinete de Guerra cogitara em segredo entrar em negociações com a Alemanha. Mas Churchill nem queria conversa. “As nações que caem lutando voltam a se levantar, mas as que se rendem docilmente estão acabadas”, dizia ele.

Churchill estava certo. Qualquer sinal de negociação significaria o “primeiro passo numa lenta ladeira escorregadia”, que inevitavelmente conduziria a uma Europa reordenada a partir de Berlim. Churchill cairia em desgraça e o Reino Unido não seria páreo a uma potência que dominasse todo o continente. Àquela altura, Churchill achava que seria possível resgatar 40 mil soldados.

Por quase uma semana, Churchill cozinhou o galo. Sabendo que seria derrotado se levasse uma proposta de continuidade da guerra ao seu Gabinete, resolveu convocar todo o ministério. Após mais um de seus discursos memoráveis, o eterno primeiro-ministro britânico encerrou: “Aconteça o que acontecer em Dunquerque, nós continuaremos na guerra”.

Ao ouvir essas palavras, a sala veio abaixo em aplausos. Churchill estava careca de saber que a Inglaterra sozinha não ganharia de Hitler. O que ele impediu naquele momento foi que Hitler ganhasse. Um acordo àquela altura teria resultado em um Reino Unido humilhado, uma França semi-ocupada e uma Alemanha Nazista amplamente dominante na Europa.

Poucos dias depois, usando toda a Royal Navy e até mesmo barcos pesqueiros e iates particulares, os ingleses conseguiram resgatar quase 340 mil soldados. A esperança ocidental estava salva. Restava esperar que os Estados Unidos entrassem na guerra e Stalin rompesse com Hitler. O plano de guerra rápida e fulminante de Adolf Hitler tinha malogrado.

Pra quem quiser entender mais sobre o assunto e o quão próximo o mundo esteve à beira da catástrofe, a leitura obrigatória é Cinco dias em Londres – Negociações que mudaram o rumo da 2ª Guerra, de John Lukacs. Curto, é daqueles livros dos quais o sujeito, além de adquirir conhecimentos, sai com outra disposição para encarar a vida.

Cinco dias em Londres

 

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