Um resumo da coragem

A lenda é antiga, mas sempre vale a pena recordá-la.

Houve um tempo em que o final do 2º grau – aquilo a que hoje chamam “Ensino Médio” – produzia um misto de alegria e horror no alunato. Se por um lado representava o fim do martírio de classes maçantes e professores ainda mais, por outro significava a chegada do pior monstro que existia para os adolescentes: o vestibular.

Hoje, claro, não há nada mais disso. O Enem tirou muito do peso das costas dos pretendentes às universidades. Não há, ao contrário do vestibular, o terror de jogar a vida inteira de estudos numa tarde de prova. Para quem não viveu aquele tempo, é até difícil imaginar em retrospecto o tamanho do medo que a proximidade da prova causava aos imberbes.

Para a maioria das matérias, a solução era relativamente simples, ainda que não fosse exatamente fácil: decorar. Sim, de-co-rar fórmulas, citações e enunciados de coisas que você jamais usaria na vida e dificilmente voltaria a ver algum dia. Nos casos de Química, Matemática e Física, por exemplo, isso já representava meio caminho andado para a aprovação.

Mas e a redação? O que fazer com a maldita redação?

Não havia fórmulas para decorar. Não havia citações que pudessem servir. Não havia sequer um bizu estruturado que permitisse ao pobre diabo escapar da então terrível tarefa de escrever 25 linhas que juntassem lé com cré, sem cometer grandes falhas gramaticais ou de escrita. Mesmo para as universidades que costumavam dar ao aluno a opção de escolher entre três tipos de texto (narrativa, dissertação e descrição), havia pouco o que fazer em favor dos alunos. Ou o sujeito aprendia a escrever, ou estava danado.

De ordinário, cada linha a menos cortava meio ponto da nota do sujeito, de maneira que, se o cidadão quisesse passar, não podia nem pensar em atingir o mínimo requerido. Existia, entretanto, uma regra segundo a qual era possível driblar a fatídica exigência das 25 linhas de texto. Em textos dissertativos, “bastava” que o sujeito comprovasse que seu texto dizia tudo sobre a questão no exato montante de linhas escritas. Desse modo, ele não seria apenado, ainda que não tivesse atingido o mínimo exigido.

Sabendo disso, o sujeito chegou para fazer a prova. Tipo de texto? Dissertação. O tema? “Coragem”. Por uma hora, o sujeito olhou para a prova. A prova olhava para ele. E nada acontecia. O fiscal já parecia assustado com o estado de prostração do candidato. Nem a habitual olhada para cima em busca da ajuda de Deus, dos espíritos ou de seja lá quem for parecia dar uma luz ao sujeito.

De repente, um estalo. “Eureka!”, pensou o aluno. Pegou a caneta, escreveu uma frase e entregou ao fiscal.

“Já acabou?”, perguntou espantado o fiscal.

“Já”, respondeu cheio de confiança o aluno.

Sem conter a curiosidade, o fiscal resolveu abrir a prova para ler o que sujeito havia escrito.

“Coragem é isso!”, sentenciava a redação.

E o aluno, claro, tirou 10 na redação do vestibular.

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