Recordar é viver: “Oposição em overlapping, ou O desafio do pós-Dilma”

Quase um ano e meio depois e continuamos sem saber para onde vamos.

Triste sina deste pobre Brasil…

Oposição em overlapping, ou O desafio do pós-Dilma

Publicado originalmente em 30.3.16

Pouca gente vai se lembrar, mas houve no futebol brasileiro um técnico chamado Cláudio Coutinho. Militar de carreira, preparador físico por opção, Cláudio Coutinho começou sua trajetória futebolística ajudando a seleção a conquistar o tricampeonato mundial no México, em 1970. Se Zagallo foi responsável por formar a cabeça do time, Coutinho e Carlos Alberto Parreira foram responsáveis por dar-lhe pernas e pulmão. Não por acaso, o escrete canarinho venceria todas as partidas daquele Mundial no segundo tempo, quando nossos craques voavam por cima de adversários esbaforidos pelo calor mexicano.

Oito anos e duas copas depois, Coutinho voltaria à seleção, dessa vez para comandar o time. Do banco, trouxe uma série de conceitos inovadores para a época, conceitos que dividiriam radicalmente os torcedores brasileiros. Convencido de que a era dos “grandes craques” havia acabado, Coutinho importou para o Brasil métodos de treinamento estrangeiros, como a polivalência e o overlapping.

Ironizado por muitos como estrangeirismo macaqueador, o overlapping consistia em passar a bola na lateral para um companheiro, deslocando-se o jogador para receber a bola mais adiante, no chamado “ponto futuro”, de maneira que o adversário terminasse não alcançando nem a um nem a outro. Dando certo, a jogada permitia que o atleta penetrasse em campo adversário livre de marcação, em condições de cruzar a bola na grande área ou finalizar para o gol. Tal parece ter sido a tática adotada pelo PMDB nos últimos dias.

Na convenção partidária de ontem, o maior partido brasileiro resolveu romper a aliança que firmara para eleger e reeleger Dilma Rousseff. Ao contrário do que os mais ingênuos podem acreditar, não se trata de um rompimento com o Governo, mas com este Governo. Com um vice-presidente no banco, doido pra entrar em campo, a idéia é entregar a bola – quer dizer, os cargos – para receber de volta mais à frente, quando Dilma já estiver deposta. Se vivo fosse, Claudio Coutinho certamente não hesitaria em classificar a jogada como um overlapping político.

Consumada a derrocada da sua base de apoio, não restam muito mais dúvidas de que o governo Dilma Rousseff acabou. O impeachment, agora, é apenas uma questão de tempo e formalidade. Mesmo que o Governo tente barganhar no varejo miúdo da Câmara o sem-número de cargos que o PMDB lhe devolveu, não há mais tempo para reverter a onda que se formou a favor do impedimento da Presidente. É muito mais fácil acreditar que os integrantes do baixo clero congressual preferirão negociar a prazo espaços em um futuro Governo Temer a aceitar à vista cargos que daqui a um mês deverão estar nas mãos do líder peemedebista.

Diante desse quadro, resta saber o que esperar de um governo pós-Dilma.

Em primeiro lugar, há de se constatar o óbvio: remover Dilma não vai tirar o país da recessão. O buraco em que afundamos é demasiado profundo para que possa ser escalado de volta do dia para a noite. É claro que há esperança de reversão de expectativas econômicas. Assim como aconteceu na Argentina de Macri, também o Brasil pode experimentar uma sensação de alívio geral do tipo “agora vai!”. Mas daí a tirar a economia do atoleiro vai uma longa distância.

Em segundo lugar, Michel Temer assumiria em condições bem mais adversas do que Itamar Franco, por exemplo. No caso do político mineiro, a presidência caiu-lhe sobre o colo, sem que movesse uma palha pelo cargo. Temer, ao contrário, atua às claras pelo impedimento da Presidente, situação inédita em nossa experiência republicana. Ninguém sabe até onde a pecha de “golpista” vai “pegar” no vice-presidente. Mas, sob as acusações furibundas de uma esquerda ressentida de que conspirou para depor a titular do cargo, o vice-presidente arrisca-se a arrostar a pecha de governante ilegítimo antes mesmo de assumir.

Em terceiro lugar, existe o fator Lava-Jato. Até o momento, não apareceu qualquer implicação direta de Dilma Rousseff com os desvios do Petrolão. Há, claro, acusações do ex-líder do Governo no Senado, Delcídio Amaral, e de alguns membros da Força-Tarefa do Ministério Público Federal de que a Presidente teria manobrado para impedir as investigações, sendo a nomeação de Lula exemplo disso. Mesmo isso, contudo, não se compara a denúncias de recebimento de propina, algo que se murmura nos bastidores contra Michel Temer, embora nenhuma delação que tenha vindo a lume declare isso expressamente.

Nesse contexto, é difícil cravar de antemão o sucesso de um eventual governo Temer. É verdade que o discurso de Humberto Costa, segundo o qual “se Dilma cair, Temer será o próximo”, foi feito com o fígado, mas o cenário desenhado pelo senador pernambucano está longe de revelar-se uma improbabilidade. Se, assumindo, o vice-presidente não conseguir rapidamente mudar o cenário e reverter as expectativas econômicas negativas, é quase certo que enfrentaria um cenário de horror ainda maior. Além dos petistas e dos movimentos sindicais, Temer teria de encarar os que hoje pedem a deposição de Dilma. Como Humberto Costa bem ressaltou, ninguém sairá às ruas com faixas “Fica, Temer”.

Sem embargo, Temer ainda teria de lidar com o rescaldo da Lava-Jato. Com o PT fora de combate, a Força-Tarefa deverá agora redirecionar seu foco para a oposição, sob risco de desmoralizar-se no futuro pelo suposto caráter partidário da investigação. Mesmo que passe incólume pela Operação, como até agora tem passado, Temer seria convidado a administrar as apreensões de sua base de apoio, a mesma que abandonou Dilma por não enxergar nela o anteparo que julgavam necessário para barrar as investigações.

Diante disso, restaria a Temer duas alternativas: tentar intervir na Lava-Jato, ajudando a enterrá-la viva; ou deixar tudo como está, para ver como é que fica. A primeira hipótese, além de politicamente arriscada, seria de sucesso duvidoso, dado que a Operação já alcançou tal dimensão que não comportaria mais sepultamento forçado. A segunda hipótese também envolveria alto risco político, já que não são de todo negligenciáveis as chances de que, sentindo-se “traídos”, os parlamentares que hoje pedem “Fora, Dilma” passassem a pedir “Fora, Temer”.

Somadas umas coisas e outras, a verdade é que continuamos sem saber como será o dia seguinte à deposição de Dilma Rousseff. Aos incautos, porém, recomenda-se dose extra de cautela. Afinal, o Brasil de hoje não é para cardíacos.

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