Recordar é viver: “Reino (des)Unido, ou As consequências do plebiscito do Brexit”

Não é que Thereza May caiu em besteira semelhante à de David Cameron?

E você aí achando que eles tinham aprendido alguma coisa com o Brexit.

Tsc, tsc, tsc…

 

Reino des(Unido), ou As consequências do plebiscito do Brexit

Publicado originalmente em 29.6.16

No final do século passado, uma revista americana resolveu compilar uma espécie de almanaque. Às vésperas do Novo Milênio, o compêndio reunia a indicação dos “mais-mais” da parada em várias áreas do conhecimento no período compreendido entre o ano 1000 e o ano 2000. Coisa do tipo: “Qual a maior invenção do milênio?” (A imprensa); ou “Qual o maior ator da história?” (Charlie Chaplin). No rol de compilações, uma se sobressaía: “Qual o maior erro de todos os tempos?” (Invadir a Rússia, a qualquer tempo).

Pois bem. Os anos 2000 mal começaram e já temos um forte candidato ao título de maior besteira do Novo Milênio: o plebiscito sobre a saída do Reino Unido da União Européia.

Que o resultado da votação foi um desastre, já parece claro a essa altura. As bolsas despencaram, a libra esterlina derreteu para o seu menor nível em mais de 30 anos e já está na rua uma campanha com 3 milhões de assinaturas pedindo a realização de um novo plebiscito. Tudo isso e mais líderes do Brexit atarantados com a vitória inesperada, deixando claro que não tinham sequer um esboço de plano de ação para o caso de ganharem a votação.

No meio de tudo isso, a pergunta que fica é: como se chegou a esse ponto?

Ao contrário do que parece, a explicação é relativamente simples.

Em tempos de crise, o alvo mais simples e politicamente rentável para os populistas de ocasião são os imigrantes. Minoria onde quer que estejam, as pessoas que se deslocam para tentar a vida em outras paragens não contam com qualquer representação organizada que os defenda. Assim, fica fácil para quem quer vender esperança colocar toda a culpa pelos problemas do país em suas costas. Desde o desemprego (“Os imigrantes tomam os empregos dos nativos”), passando pela violência (“São os imigrantes que praticam assaltos”) até chegar na precariedade do sistema de saúde (“Sobrecarregado pelos imigrante que não pagam impostos”), tudo é responsabilidade dos imigrantes.

A partir desse ponto, entre em campo o jogo baixo da política. Na Grã-Bretanha, o Partido pela Independência do Reino Unido (Ukip) há anos explora esse “nicho de mercado” para crescer na vida. Segue, com alguns temperamentos, a mesma linha da xenófoba francesa Marine Le Pen, favorita nas eleições francesas do ano que vem.

Para neutralizar o avanço do Ukip, o primeiro-ministro inglês, David Cameron, abraçou a tese desde sempre defendida pelo líder dos “independentistas”, Nigel Farage. “Votem em mim, e eu prometo fazer um referendo sobre a permanência do Reino Unido na Europa”.

Todo mundo estava careca de saber que a promessa de Cameron era da boca pra fora. Ou, por outro lado, todo mundo estava careca de saber que Cameron não queria realmente colocar a Grã-Bretanha para fora da Europa. Seu propósito era unicamente ganhar os eleitores de Nigel Farage, conseguindo a maioria necessária para levar seu Partido Conservador a mandar sozinho nas terras da Rainha. Até aí, o plano de Cameron funcionou. Seu partido conseguiu uma maioria parlamentar que não se via desde 1992, enquanto o Ukip elegeu apenas um mísero representante para a Câmara dos Comuns.

O problema, claro, foi que Cameron não combinou com os russos. Era óbvio que o eleitorado não iria enxergar uma virada tão radical em seu discurso com olhos complacentes, como se nada tivesse acontecido. Se há uma coisa que o governo Dilma ensina é que estelionatos eleitorais não têm mais vida longa nos dias de hoje. A porca entorta ainda mais o rabo quando esse estelionato fica exposto de maneira tão acintosa com uma eleição marcada pra menos de um ano do pleito original. Desmascarado de sua estratégia farsante, a Cameron não restou outra saída senão renunciar ao posto.

Agora – como diria o matuto – é que são elas.

À primeira vista, o resultado do plebiscito indica uma derrota da Europa. No consenso da maioria, a idéia de um continente unido, com ampla liberdade de ir e vir dos cidadãos e do dinheiro, sofreu um inegável baque com a saída de uma perna de seu tripé (as outras duas são França e Alemanha). A construção de uma “federação européia” parece cada vez mais um sonho distante.

À segunda vista, essa leitura pode ser apressada. É verdade que a saída do Reino Unido representa um golpe no conceito de “cidadania européia”. Mas não é inteiramente certo que o plebiscito da semana passada represente um estopim de um processo de desintegração da União Européia. Ao contrário. O resultado pode ser exatamente o inverso do que se supõe.

Depois de consumado o desastre, Cameron e os líderes do Brexit resolveram empurrar com a barriga a saída formal do bloco. Provavelmente com a intenção de negociar melhores termos para o divórcio, o primeiro-ministro britânico quis deixar a porta aberta para tentar manter o acesso do Reino Unido ao Mercado Comum Europeu. Assim, a Grã-Bretanha ficaria no “melhor dos mundos”: livre acesso aos mercados europeus, sem o ônus de ter que aceitar a imigração européia.

A Alemanha, obviamente, levou o pé à porta. Não há integração à la carte, disse Angela Merkel. Ou os britânicos aceitam todas as condições para participar da União Européia – o que inclui o livre trânsito de cidadãos de cidadãos por suas fronteiras -, ou bye bye Mercado Comum Europeu. O plebiscito do Reino Unido não deixou opção aos outros membros da UE. Se os alemães abrirem as pernas a essa altura do campeonato, amanhã metade do continente vai querer negociar condições iguais às dos britânicos. E aí, sim, auf Wiedersehen Europa.

Do lado inglês, a situação não é nada auspiciosa. Além de partir a Grã-bretanha ao meio, o referendo também expôs as fraturas do próprio Reino Unido. Enquanto Inglaterra e País de Gales votaram para sair, Escócia e Irlanda do Norte votaram para ficar. Anunciado o resultado, a primeira-ministra escocesa, Nicola Sturgeon, veio a público ressuscitar a idéia do plebiscito pela independência da Escócia, rejeitada no ano passado. Do lado norte-irlandês, a tão sonhada união com seus irmãos da República da Irlanda voltou à tona com mais força do que nunca. Tudo porque ambos não querem deixar a União Européia e ficarem isolados na ilha britânica.

Dessa forma, ao contrário do que muita gente pensa, o resultado do plebiscito pode muito bem resultar não numa desintegração européia, mas numa desintegração do Reino Unido. Com alguma sorte, os alemães utilizarão o referendo como mola propulsora de uma integração ainda maior do continente europeu, enquanto fazem da saída britânica – e da eventual débâcle da Grã-Bretanha – o exemplo perfeito daqueles que pretenderem se aventurar a abandonar a União Européia.

A única conclusão a que se chega, portanto, é que David Cameron convocou um referendo ao qual não estava obrigado, para obter um benefício eleitoral que não precisava, cujo resultado não era capaz de prever. Quando chegar o ano 3000, vai ser difícil tirar dele o prêmio de maior besteira do milênio.

É esperar pra ver.

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