Recordar é viver: “A conquista do mundo do tênis por Guga”

Completando-se 20 anos da histórica conquista de seu primeiro Slam, nada mais justo do que recordar o grande Gustavo Kuerten, um dos maiores ídolos do esporte que este país já teve.

É o que você vai entender, lendo.

A conquista do mundo do tênis por Guga

Publicado originalmente em 6.11.13

 

Para quem não acompanha tênis, estão ocorrendo durante estes dias as finais da ATP, mais conhecida como Masters Cup. Reunindo os oito melhores tenistas da temporada, o ATP Finals tem o apropriado apelido de “Copa do Mundo” do tênis, porque é nele nos quais os feras batem cabeça pra saber quem, no final das contas, foi o melhor daquele ano.

Para nós, brasileiros, a Masters Cup tem – ou deveria ter – um sabor especial. Foi nela em que, há exatos treze anos, o Manezinho da Ilha, Gustavo Kuerten, alcançaria finalmente o posto de número um do mundo do ranking da ATP.

Quando estourou para o mundo como uma verdadeira surpresa no Aberto de Paris em 1997, muita gente boa temeu que aquilo pudesse ter sido um aborto da sorte, algo como um one hit wonder do tênis. No ano seguinte, Guga transformou-se em verdadeiro saco de pancadas do circuito. Salvo os ATPs de Sttutgart e Palma de Mallorca, não ganhou nada durante o ano. Salvo engano, Guga despencou do top 20 para o top 50 na ressaca da temporada seguinte.

Já em 1999, a coisa começou a melhorar. O desempenho dos Grand Slams melhorou bastante e Kuerten conseguiu adicionar mais dois troféus à carreira: Monte Carlo e Roma, ambos no saibro.

O ano 2000, no entanto, parecia conduzir Kuerten a um resultado semelhante ao de 1998. Tomou pau na primeira rodada do Aberto da Austrália, rodou na terceira rodada de Wimbledon e voltou a cair na primeira rodada no US Open.

Mas Guga tinha outros planos para si mesmo. Embora a temporada não fosse fantástica, Gustavo Kuerten levantou os troféus em Santiago e em Hamburgo (de novo no saibro), e conseguiu se livrar definitivamente da pecha de one hit wonder do tênis ao conquistar o bicampeonato em Roland Garros. Somando-se as vitórias a outros bons resultados na temporada, Guga conseguiu ficar entre os melhores da temporada e entrar na disputa do ATP Finals.

Seu principal rival na disputa seria o russo Marat Safin, que vinha de uma temporada impecável. Como se isso não fosse o bastante, havia ainda Pete Sampras e Andre Agassi, dois dos maiores tenistas da história, além de Yevgeny Kafelnikov e Lleyton Hewitt, duas das maiores “carnes de pescoço” do circuito profissional.

Apesar da boa campanha no ano, Guga chegou desacreditado ao torneio. Salvo engano, era o quinto do ranking, e tinha fama de amarelar contra os grandes. Nesse aspecto, o início não foi nada promissor. Enfrentando de cara Andre Agassi, o Manezinho da Ilha até que tentou, mas não conseguiu evitar a derrota por 2 sets a 1.

Agora, para terminar o ano em primeiro do ranking Guga teria que ganhar todos os seus jogos. Mais que isso. Teria que torcer para que Marat Safin não chegasse à final do torneio, algo que já lhe garantiria o topo do ranking, independentemente do título. Com a liderança do ranking colocada na casa do impossível, Guga, ao invés de desanimar, libertou-se. Dali pra frente, o que se viu foi um tenista com uma força mental poucas vezes vista.

Na segunda rodada, Guga atropelou Kafelnikov em dois sets. Embalado, venceria também Magnus Norman por 2×0. Classificado em segundo do ranking, Kuerten pegaria na semifinal o primeiro colocado do outro grupo, ninguém menos do que Pete Sampras, então o maior recordista da história em títulos de Grand Slam.

No primeiro set, Guga esforçou-se. Conseguiu levar o set para o tie break, mas não resistiu ao jogo de saque-voleio de Sampras e perdeu o set por 7×6. Contrariando todas as expectativas, conseguiu tirar Sampras da zona de conforto e fez valer seu jogo de fundo de quadra. Venceu os outros dois sets até com relativa facilidade, quebrando o saque de Sampras em três oportunidades.

Na outra semifinal, Marat Safin seria derrotado em fáceis 6×3, 6×3 por Agassi, deixando pra Guga a possibilidade de alcançar o primeiro lugar do ranking.

Antes disso, no entanto, ele teria que superar Andre Agassi, um dos melhores, mais agressivos e mais carismáticos jogadores do circuito. Ao contrário dos outros jogos, resolvidos numa melhor de três sets, a final seria disputada em cinco sets. Algo que, ao menos em tese, favoreceria Agassi, um tenista que tinha no seu preparo físico a maior força do seu jogo.

Mas não teve pra ninguém. Em triplo 6×4, Guga bateu Agassi e conseguiu chegar ao topo do ranking dos tenistas profissionais. Nunca antes – e nunca depois – um sul-americano conseguiria terminar no ano em primeiro lugar do ranking. Nunca antes – e nunca depois – um tenista venceria Sampras e Agassi em um mesmo torneio. Nunca antes – e nunca depois – um brasileiro conseguiria alcançar tanto sucesso no mundo do tênis.

Infelizmente, alguns anos depois, por conta de problemas físicos, Gustavo Kuerten acabou encerrando sua carreira de forma prematura. Até certo ponto, foi alvo de desmerecimento da imprensa e do público, como se não tivesse sido o grande campeão que foi. Se Guga fosse dinamarquês, seria reverenciado como ídolo nacional. Se fosse holandês, ergueriam estátuas em sua homenagem pelo país. Como é brasileiro, é lembrado apenas como “aquele cara que ganhou Roland Garros”.

Abaixo, o final do jogo contra Agassi, em homenagem ao Manezinho da Ilha.

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