Nota mínima

Faculdade costuma ser um horror. O sujeito vem da atribulada adolescência e pensa que enfim vai chegar dar asas ao pequeno adulto que tem dentro de si. Ledo engano. Ao invés de ser transportado para o maravilhoso mundo da liberdade, o sujeito é violentamente devolvido às cadeiras do jardim da infância.

Da frustração nasce a revolta. E assim como o sujeito é obrigado a sentar a bunda na cadeira para ouvir o recital enfadonho de professores em sua maioria desatualizados, também é verdade que isso acaba por ressuscitar aquele instinto subversivo juvenil que se pensava adormecido na alma adolescente que teima em não ir embora.

Em um desses casos, o sujeito passara para o curso de Engenharia e sonhava com o dia em que faria coisas grandiosas com sua mente prodigiosa. Enquanto os sonhos iam longe, a realidade próxima lhe brindava com a roda-viva das cadeiras de Cálculo, nos quais professores formados na década de 40 insistiam em martelar fórmulas ultrapassadas ou mesmo despiciendas desde quando se inventou a HP-12C.

Sem saco, o aluno frequentava as aulas por obrigação. Entre um bocejo e outro, apanhava parte do que o professor dizia. O restante do tempo era dividido entre a baba que lhe escorria pelo canto da boca por cima da carteira e o cortejo eventual de alguma aluna que estivesse dando mole.

Como esperado, o resultado da primeira avaliação não foi nada animador. Com 4,6 na 1ª prova, o sujeito tinha que extrair um 9,4 para escapar da temida “final”, nome bonito para a recuperação do ensino superior. “Tudo bem”, pensou o aluno, “Eu levo o segundo período a sério e tiro a diferença na próxima prova”.

Entre o desejo e a concretude, vai o espaço do Universo, diria alguém mais sábio. Mesmo estudando comme il faut, a segunda nota vem aquém do necessário: 9, redondo. Por apenas 0,4, o aluno ficara de final. “Sacanagem!”, esbravejou o aluno, “Ele só me tirou esse 0,4 pra me deixar de final!”. O sujeito foi então tirar satisfação com o professor:

“Professor, por que o senhor me tirou esse 0,4, se eu acertei a questão toda?”

“Isso foi pra você estudar mais e não pensar que a vida na Engenharia é fácil”, devolveu o professor, em um misto de arrogância e prepotência.

Não haveria choro nem vela. O sujeito teria que fazer a final.

Pelas regras da faculdade, na final o aluno levaria a média das duas primeiras avaliações, as quais, somadas à nota da final, teriam de resultar numa média 6. Em outras palavras, isso significava que o sujeito precisava apenas da nota mínima (4) para poder passar pela cadeira.

No dia da prova, o cidadão em questão recebe o questionário. Cinco perguntas cabeludas, mas das quais ele sabia todas as respostas. Rapidamente, o sujeito resolve a primeira. Pouco tempo depois, resolve a segunda. Ao invés de partir para a resolução da terceira, levanta-se da cadeira e vai entregar a prova. Em menos de 10 minutos, o professor, estarrecido, recebe o aluno. Ao ver a prova, pergunta em um misto de incredulidade e desdém:

“Não vai responder as outras três, não?”

“Não, professor. Eu só preciso de 4”, respondeu o aluno na lata.

Com a cara fechada, o professor corrige as duas questões do sujeito. Ambas corretas.

E o professor enfim entendeu que vingança é um prato que se come frio…

Anúncios
Esse post foi publicado em Crônicas do cotidiano e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s