Esperteza x Cartão de crédito

Houve um tempo em que os carros no Brasil eram chamados de carroças. Não por acaso, porque a maioria de fato lembrava muito as seges, e não era somente por usar cavalos (motores, no caso) como forma de tração. Com importados a custos proibitivos e diante de um mercado altamente oligopolizado, a indústria automobilística não fazia a mínima questão de investir em coisas como design ou tecnologia. Nesse cenário de pasmaceira, quando aparecia alguma novidade no mercado, o frisson era quase imediato. Foi o que aconteceu com o lançamento do Escort XR3.

Único conversível da categoria, o Escort XR3 veio matar a saudade dos órfãos do Karmann Ghia. Enfim as fábricas de São Bernardo brindavam o país com um descapotável para chamar de seu. O design pode ser que não fosse inteiramente mal, mas o motor não era lá grande coisa (1.6 a álcool). Com parcos 80 cavalos de potência, ele empurrava o bólido a pouco mais de 100km/h, mesmo em 5ª marcha, deixando o veículo longe do status dos carros esportivos.

Mas quem estava interessado em velocidade, quando o grande lance era desfilar vagarosamente com ele pelas principais avenidas das grandes capitais? Não, o maior apelo do Escort XR3 era permitir ao seu dono exibir a um só tempo a cabeleira despenteada e o saldo rechonchudo da conta bancária. Para comprar a brincadeira, o sujeito tinha que desembolsar a bagatela de Cr$ 72 milhões, o que equivalia, na época, a três Fiats Uno. Foi nesse contexto que um milionário cearense resolveu exibir-se na Beira-mar de Fortaleza.

De posse de um Escort XR3 vermelho estalando de novo, o sujeito tirou o carro da garagem e foi lá expor os cabelos à maresia da orla da capital cearense. Andando a pouco mais de 20km/h, o sujeito exibia o novo brinquedo à malta ignara que andava a pé pelo calçadão. Transeuntes embasbacados olhavam aquele carrão desfilando e, por mais que o sujeito estivesse de óculos escuros, era possível observar um sorriso triunfante por trás das lentes.

Não satisfeito, o sujeito resolve estacionar o carro. O pretexto era um sorvete para aplacar o calor, mas, na verdade, o propósito era permitir que o povo se aglomerasse em torno do seu novo carro, expressão máxima do seu sucesso como empresário. Ao ver uma vaga no meio-fio, o cidadão fez como todo bom motorista deve fazer: passou da vaga, ligou o pisca em direção à vaga e engatou a marcha à ré.

Antes que o sujeito experimentasse pisar no acelerador para sentir o carro andando pra trás, uma figura tosca dirigindo o que um dia devia ter sido um Corcel II acelera e entra com o carro de frente, estacionando na vaga pretendida pelo milionário. Sem se abalar, o sujeito liga o pisca-alerta, desce do carro e vai conversar com o ladrão de vaga:

“Olhe, você não deve ter percebido, mas eu ia estacionar nessa vaga. Inclusive já tinha iniciado a manobra”, disse calmamente o milionário.

“Não quero saber, meu amigo. Eu cheguei primeiro e a vaga é minha!”, respondeu rispidamente o motorista do Corcel.

“Você não chegou primeiro, não. Eu cheguei primeiro. Você que se aproveitou que eu tinha feito a manobra pra estacionar de ré e colocou o carro de frente pra tomar a vaga”, devolveu já perdendo a paciência o milionário.

“Problema seu. O mundo é dos espertos!”, sentenciou o ladrão de vaga, terminando o mote com uma risada vagarosa, quase silabada, expressão maior do escárnio que produzira, para depois sair andando pelo calçadão em tom triunfal. Aparentemente resignado, o dono do Escort voltou para seu carro. Tirou o pisca-alerta, colocou o carro mais à frente, engatou novamente à ré e acelerou com tudo.

“POW!”, foi o barulho que se ouviu da traseira do Escort contra a lateral do Corcel. Antes que o gaiato pudesse gritar “FDP!”, o milionário colocou o carro novamente para a frente, engatou de novo a ré e desferiu um segundo golpe contra a lata velha: “PAH!”

“Seu maluco! Como é que você faz um negócio desses?!? Você acabou com meu carro!!”, gritava em desespero o dono do Corcel.

Calmamente, o dono do Escort saiu do carro, tirou a carteira do bolso e atirou-lhe nos peitos do infame seu cartão de crédito, para então devolver o ensinamento:

“O mundo é dos ricos…”

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