Recordar é viver: “Um filósofo musical”

E lá se foi deste plano da existência o mestre Belchior.

Como aqui não é grande imprensa, a homenagem do Blog precedeu em muito a sua partida.

Felizmente…

Um filósofo musical

Publicado originalmente em 22.7.15

 

Há algum tempo não são rendidas à música as devidas homenagens aqui no Blog. Embora seja uma constante neste espaço, já faz alguns meses desde que a seção musical rendeu um bom post digno do nome. Para reparar a falha, vamos hoje retomar o assunto tratando de um dos mais intrigantes e controversos compositores da Música Popular Brasileira: Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, ou, como é mais conhecido, simplesmente Belchior.

Belchior

Sobralense da gema, Belchior é tudo, menos um cearense. Melhor explicando, a música de Belchior lembra pouco ou quase nada a vida dura e sofrida do povo nordestino, marcado pela seca e sofrendo o flagelo da fome a ela associada. Não, Belchior não trata disso. Seus problemas são de natureza muito mais existencial do que o concretismo imposto pela aridez da caatinga.

Mas nem por isso sua música pode ser considerada menor. Muito pelo contrário. Belchior foi talvez o único “pensador” da MPB. Há, claro, artistas da prosa, como Chico Buarque, ou feiticeiros do vernáculo, como Caetano Veloso. No entanto, é difícil encontrar mesmo na riqueza dos versos de um Vinícius de Moraes a profundidade exibida pelas letras do compositor cearense. Belchior é, por assim dizer, o grande “filósofo musical” brasileiro.

Como bom sertanejo, Belchior começou cedo. Aos 16 anos, deixou sua pacata Sobral e mudou-se para a capital, Fortaleza. Lá, conheceu alguns contemporâneos de talento, como Fagner e Ednardo, formando a turma que ficaria conhecida como o pessoal do Ceará. De repente, contudo, a província do Siará ficou pequena para ele. De mala e cuia, Belchior tomou o rumo do Rio de Janeiro. Lá, tudo mudaria para sempre.

Logo no primeiro concurso de que participou, Belchior levou o caneco. No IV Festival Universitário da MPB, o compositor venceu a disputa com Na hora do almoço, cantada pela dupla de Jorges (Melo e Teles). Daí pra frente, seria só sucesso.

No ano seguinte, as portas das grandes gravadoras se escancaram para o novato cearense quando Elis Regina gravou Mucuripe, uma parceria sua com o conterrâneo Fagner.

Em 1974, Belchior lançaria seu primeiro álbum, Mota e Glosa. A repercussão, no geral, foi boa, mas não seria nessa primeira tacada que o sobralense marcaria seu nome na história da MPB. Isso ficou para o segundo álbum, Alucinação.

Lançado em 1976, Alucinação representa uma verdadeira viragem na carreira musical de Belchior. Abusando dos conhecimentos teóricos obtidos na faculdade de Filosofia, Belchior mudou o patamar de suas composições e – por que não dizer? – da própria MPB ao tirar o ouvinte da sua zona de conforto e fazê-lo despertar para as grandes questões da humanidade.

Quem em sã consciência não se toca com a história do “rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior“? Um rapaz que ouvia “muitos discos”, conversava com pessoas “papo, som, dentro da noite”, mas que não tinha “um amigo sequer que ainda acredite nisso não”. Porque, afinal, “tudo muda e com toda a razão“.

Mas, de todas as canções do disco, nenhuma é mais emblemática do que Como nossos pais. Nessa verdadeira obra-prima, Belchior rechaça a filosofia barata de botequim, ao dizer que não gostaria de contar “as coisas que aprendi nos discos“. Afinal, “viver é melhor que sonhar” e “qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa“.

Com uma sutileza que beira as raias do subliminar, Belchior consegue contextualizar como ninguém o drama de quem era jovem nos Anos de Chumbo. Uma advertência – “Por isso, cuidado, meu bem: há perigo na esquina” – era seguida de uma explicação evidente: “Eles venceram, e o sinal está fechado para nós, que somos jovens“. Apesar disso, como bom cearense, Belchior diz que “eu vou ficar nesta cidade não vou voltar pro sertão”, movido pela esperança de quem vê “vir vindo no vento cheiro de nova estação”.

Denunciando com inaudita coragem a desmobilização juvenil que se seguiu ao ano mágico de 1968, o compositor cearense fala das passeatas movidas por jovens cabeludos e cheios de ideais, para concluir, com uma ponta de melancolia, que “na parede da memória esta lembrança é o quadro que dói mais”.

Aos eventuais críticos que venham a dizer que ele “tá por fora” ou, então, que “tá inventando“, Belchior responde acidamente:

Mas é você que ama o passado e que não vê
É você que ama o passado e que não vê
Que o novo sempre vem…

Como isso fosse pouco, Belchior ainda se permite ironizar os falsos profetas de ontem, esbofeteando-os com a cruel realidade:

Hoje eu sei que quem me deu a idéia
De uma nova consciência e juventude
Tá em casa, guardado por Deus,
Contando o vil metal…

Para terminar, Belchior nos brinda com o refrão, a concluir de forma melancólica que:

Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais…

Embora tenha gravado uma versão para seu próprio disco, foi na voz de Elis Regina que a canção ficou imortalizada na mente dos brasileiros:

Depois de atingir o ápice, Belchior ainda produziu até o final da década de 70 alguns sucessos de moderada expressão, como Divina Comédia Humana (a famosa canção do sujeito “mais angustiado que goleiro na hora do gol”) e a insossa Medo de avião.

Já na década da 80, Belchior ainda lançou alguns discos, mas acabou experimentando uma fase de pouca criatividade, para depois precipitar-se de vez no anonimato na década de 90. Ultimamente, o cantor cearense tem sido mais notícia por conta de ações judiciais e de seus famosos desaparecimentos do que propriamente por sua obra musical.

Não faz mal. Para quem compôs tantas pérolas como ele, já está mais do que de bom tamanho.

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