Recordar é viver: “A formação das duas Coréias”

Uma vez que a península coreana corre o sério risco de entrar novamente em guerra – e oficialmente ela jamais saiu desse estado -, talvez seja uma boa oportunidade para recordar um antigo post sobre o tema, que, com alguma sorte, ajudará a iluminar a intrincada história que levou à crise que vivemos hoje.

 

A formação das duas Coréias

Publicado originalmente em 19.12.11

 

Ontem, morreu o ditador da Coréia do Norte, Kim Jong-Il. Em termos políticos, a morte do filho de Kim Jong-Sun representada nada. Assumirá seu filho, Kim Jong-Un. Os mais otimistas esperam apenas que as coisas continuem como estão. Mas muita gente boa teme mesmo é que as coisas piorem (se é que isso é possível).

A “sucessão” da Coréia do Norte é um bom pretexto para jogar luz sobre a intrincada história desse verdadeiro apêndice geográfico da China.

Pequena em extensão, a península coreana tem uma importância história e geopolítica desproporcional ao seu tamanho. Espremida entre grandes potências vizinhas (China, Rússia e Japão), sem querer o povo coreano sempre se viu mergulhado em disputas que extrapolavam suas fronteiras. E sempre sofreu com isso.

A Coréia passou por vários períodos e divisões durante sua história. Mas no começo do século XX era um único país, independente até ser ocupado pelo Japão na Guerra Sino-Japonesa, em 1910. A ocupação japonesa, aliás, é lembrada pelos coreanos com a mesma ojeriza com que – suponho – os poloneses se recordam da ocupação alemã. Estupros, assassinatos, escravização do povo são apenas alguns exemplos do que os japoneses fizeram com os coreanos durante sua expansão imperial.

Quando a II Guerra Mundial acabou, o Japão perdera para as duas próximas superpotências hegemônicas: URSS e EUA. Ambas “libertariam” a Coréia do jugo japonês. Não sem antes divida-la ao meio, na linha do paralelo 38. O Norte ficaria sob influência comunista. O Sul, sob influência americana.

Como o fim da II Guerra prenunciava apenas um intervalo até o advento da III, entre americanos e soviéticos, ambos os lados moviam suas peças visando a aumentar sua influência no mundo, preparando-se para o novo confronto. Em alguns momentos, a Guerra Fria esquentava. E a primeira vez que isso aconteceu foi na Guerra da Coréia.

No dia 25 de junho de 1950, apenas cinco anos depois do fim da II Guerra, a Coréia do Norte invadiu a Coréia do Sul. A intenção declarada era expulsar a influência americana e unificar a península novamente, desta vez sob a foice e o martelo. Com o apoio material da China e da União Soviética, o avanço norte-coreano mostrou-se avassalador. Em 5 dias, o exército do norte já tomara Seul e encurralara as tropas do vizinho em um pequeno porto do extremo sul da península.

Mas no dia 1º de julho chegou a 7ª Cavalaria. Com o respaldo da ONU, os americanos desembarcaram suas tropas nesse porto e, sob o comando do General Douglas MacArthur, iniciaram uma contra-ofensiva fulminante. Pouco mais de 2 meses depois, os capacetes azuis haviam empurrado o exército norte-coreano de volta para o seu território.

Com o avanço maciço dos americanos, MacArthur deixou-se picar pela mosca azul. Aquilo que se iniciara como uma guerra defensiva, contra uma injusta agressão do Norte, passaria a ser uma guerra de conquista. Seriam agora os americanos a expulsar os comunistas da península coreana, unificando-a sob o domínio capitalista.

Há dias o governo chinês avisava: se algum soldado americano atravessasse o paralelo 38, a China entraria na guerra. Não só com armas e munição, mas com homens, mesmo.

MacArthur fez pouco caso da advertência chinesa. Talvez tenha pensado que era blefe. No dia 7 de outubro de 1950, os americanos invadiram a Coréia do Norte. Um mês depois, chegariam quase à fronteira com a China. Mao Tsé-tung, no entanto, tinha outros planos.

Valendo-se do enorme contingente populacional de seu país, mandou descer uma onda de soldados sobre os capacetes azuis. Dois meses depois, era MacArthur quem sofria para se defender da invasão de 1 milhão de soldados chineses. Subitamente, o jogo virava novamente. Os americanos foram expulsos da Coréia do Norte e os chineses atravessaram o paralelo 38 rumo ao sul.

Valendo-se de um reforço e da valentia de suas tropas, MacArthur voltou a expulsar os norte-coreanos da Coréia do Sul e avançar – dessa vez não tanto – para dentro do território norte-coreano. No limite, defendeu que os americanos usassem suas bombas nucleares para fazer um “corredor de proteção” no paralelo 38. Leia-se: bombardear toda a área do paralelo para impedir o retorno dos comunistas ao sul da península.

Pressentindo o cheiro de queimado, Harry Truman, presidente dos Estados Unidos, resolveu pôr um fim ao voluntarismo de MacArthur. Herói de guerra, considerando como o homem que, sozinho, defendera o Pacífico das forças do Eixo, MacArthur foi convocado a Washington e destituído do comando. Truman enfrentou uma enorme onda de impopularidade, mas, com isso, salvou seu mandato. Atender às demandas de MacArthur teria significado um magnífico emparedamento de um presidente por um general.

Com o passar do tempo, acabou-se ficando numa guerra de fricção ao redor do paralelo 38. Sem grandes avanços de parte a parte, acabou-se assinando um armistício em julho de 1953. Desde então, Coréia do Sul e Coréia do Norte mantém-se tecnicamente em guerra, sem mobilizações de qualquer dos lados, salvo alguns eventuais ataques esporádicos do norte provocador. As fronteiras anteriores à guerra permaneceram mais ou menos as mesmas. Mas a cisão entre o Norte comunista e o Sul capitalista transformar-se num abismo difícil de superar.

É difícil pensar em uma unificação, mesmo no longo prazo. Aos Estados Unidos não interessa perder um importante parceiro econômico e militar numa região tão estratégica do mundo. À China não interessa uma Coréia unificada a lhe fazer sombra.

Coreanos do norte e coreanos do sul provavelmente só se reunirão mesmo em Jogos Olímpicos. E olhe lá. Sem poder se governar, estão condenados a viver separadamente pela fronteira mais militarizada do planeta.

Maldita geopolítica.

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