Números saltitantes

Adolescência é uma fase curiosa da vida. Se por um lado a explosão de hormônios impulsa o jovem na direção dos até então desconhecidos prazeres do mundo, por outro há uma contra-força que repele esse movimento, uma vã tentativa dos adultos de domesticar o instinto animal que exala por cada poro do corpo juvenil. Quando o conflito chega na sala de aula, a disputa entre aborrecentes e professores adquire por vezes a feição de um embate épico. Mas não é sempre que o aluno imberbe sai por cima.

Certa vez, o “Cabeção” da sala – apelido que denunciava, a um só tempo, a desproporção do crânio do sujeito e a distância que separava o tamanho da sua cabeça de suas habilidades intelectuais – resolveu tirar um professor de Física para dançar. Jovem adulto, metido a garotão, o professor adorava tirar onda com os alunos, no mais das vezes para cair nas suas graças e manter a turma sob controle. Afinal, não há remédio melhor para a zoeira do que um professor piadista, que consegue transformar uma hora de potencial encheção de saco no mais puro entretenimento.

O “Cabeção” não quis saber. Ciente dos riscos que rondavam a empreitada, o adolescente quis emparedar o professor numa daquelas equações que tomavam a lousa inteira. Com uma sequência indecifrável de números, algarismos e letras gregas, a dita equação terminava com o resultado 5.

“Professor, eu não entendi nada!”, exclamou o “Cabeção”.

“O que foi que você não entendeu, meu jovem?”, respondeu elegantemente o professor.

“Nada!”, insistiu o Cabeção.

“Não é possível que você não tenha entendido nada, meu filho. Em algum momento da equação o seu raciocínio se perdeu. Me diga onde é que foi. Foi aqui? Foi aqui? Ou foi aqui?”, rebateu o professor, enquanto movia suas mãos abertas pela lousa, palma de frente para palma, como se estivesse a seccionar a endiabrada equação.

“Por exemplo, como é que esse 5 foi parar aí?”, disse o aluno, enquanto apontava o dedo para o resultado da equação.

“Não sei” – replicou o professor – “Acho que ele pulou pela janela, veio saltitando aqui pela frente e se jogou contra a lousa”. A sala inteira caiu numa gargalhada homérica.

E nunca mais o “Cabeção” voltou a querer desafiar qualquer professor.

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