Recordar é viver: “Nem sempre o original é melhor – Parte II”

E já que a Academia Sueca anda distribuindo prêmios Nobel de Literatura a compositores, nada melhor do que recordar um post sobre uma área na qual o laureado da vez costuma fazer mais sucesso.

 

Nem sempre o original é melhor – Parte II

Publicado originalmente em 24.8.12

 

Certa vez escrevi aqui sobre a dificuldade de pegar um grande sucesso musical e, algum tempo depois, regravá-lo com algum êxito. Na maior parte dos casos, a versão original fica marcada no inconsciente coletivo, de tal modo que a música sempre asssociada a quem a lançou primeiro. Isso acontece de forma tão profunda que às vezes nem mesmo as versões ao vivo resolvem; só serve se for o original mesmo.

Mas, como toda regra comporta exceção, com os sucessos musicais não seria diferente.

No caso de hoje, o original é de um dos sujeitos mais controversos e originais que já surgiu na história do rock: Bob Dylan.

Em 1973, Dylan gravou uma das músicas mais existenciais de toda a sua carreira: Knockin’ on heaven’s door.

A música conta a história de um policial no seu leito de morte. Cansado da vida de perseguições e matanças, o sujeito implora:

Mama, take this bagde from me

(Mamãe, tire esse distintivo de mim)

I can’t use it anymore

(Eu não posso usá-lo mais)

No fundo, o sentimento é o de uma vida perdida, desperdiçada, mesmo. O moribundo sente uma profunda aversão a tudo aquilo que o faz lembrar a sua vida profissional. Na verdade, é tudo aquilo que ele jamais quer voltar a fazer. E, se pudesse, voltaria no tempo para desfazê-lo. Por isso, ele pede:

Mama, put my guns in the ground

(Mamãe, coloque minhas armas no chão)

I can’t shoot them anymore

(Eu não posso mais atirá-las)

Com o fim se aproximando – por isso ele sente como se estivesse batendo na porta do Céu (feels like I’m knocking oh heaven’s door) -, ele faz uma reflexão autocrítica para si mesmo:

You better start sniffing your own rank subjugation Jack

(Melhor você começar a procurar seu próprio nível de julgamento, Jack)

Cause it’s just you against your tattered libido, the bank and the mortifician forever, man

(Porque é apenas você contra sua libido esfarrapada, o banco e o coveiro pra sempre, cara

And it wouldn’t be luck if you could get out of life alive

(E não seria sorte se você pudesse escapar vivo da vida)

Cantada na voz pesada, no estilo folk característico de Dylan, a música até ganha na profundidade da mensagem que procura passar.

Mas, convenhamos, this is rock, e a letra pede um som mais pesado, um arranjo mais ousado e um vocal mais limpo e agudo.

Talvez identificando exatamente isso, os Guns ‘n Roses resolveram regravar o sucesso de Dylan no final dos anos 80. Com a guitarra de Slash, os vocais de Axl Rose e um arranjo verdadeiramente digno de uma banda de rock, os Guns estouraram nas paradas com uma música extremamente bem produzida, mas que não perdia o sentido existencial pretendido por Bob Dylan.

A música ainda aumentaria de forma exponencial seu sucesso ao integrar a trilha sonora de outro sucesso cinematográfico da época: Dias de Trovão, filme que fez o romance protagonizado nas telas por Nicole Kidman e Tom Cruise tornar-se um casamento épico.

Pra quem viveu o final dos anos 80 e começo dos anos, e teve naquela época os primeiros contatos com o rock, a versão dos Guns ‘n Roses ficaria marcada na memória como algo insuperável, melhor, muito melhor, do que a versão original de Bob Dylan.

Alguém discorda?

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