O epílogo de Dilma Rousseff, ou Brasil, a República dos Memes

De volta ao batente aqui no Blog, só me resta analisar a incrível sucessão de fatos que sacudiu o país neste último mês.

Desde o último post publicado neste espaço, o Supremo reuniu-se numa sessão extraordinária para decidir as últimas quizilas jurídicas do impeachment, a Câmara aprovou o afastamento de Dilma Rousseff, Eduardo Cunha foi defenestrado de sua presidência e do próprio mandato, seu substituto anulou a sessão do impeachment para voltar atrás em menos de 6 horas, o Senado cassou o mandato de Delcídio Amaral e, hoje, deve sacramentar o impedimento da Presidente da República. Isso, claro, se não houver mais uma daquelas reviravoltas de última hora que têm se tornado inacreditavelmente constantes nos últimos tempos.

O atropelo dos acontecimentos dá-se com tamanha velocidade que mesmo acontecimentos de grande relevância perpassam o noticiário com indiferença tal que não seria exagero equipará-los ao interesse dispensado pela platéia ao horóscopo do cotidiano. Ou alguém aí deu bola ao acordo de leniência fechado pela Andrade Gutierrez? Ou mesmo ao fato de que, ontem, Guido Mantega, o ministro da Fazenda mais longevo do cargo, foi conduzido coercitivamente para depor nas malversações investigadas pela Operação Zelotes?

Em qualquer lugar do mundo, e mesmo no Brasil de não muito tempo atrás, ex-ministro levado debaixo de vara para depor seria manchete de qualquer jornal. A segunda maior empreiteira do país assumindo a corrupção de agentes políticos, com direito a pedido público de desculpas, seria o suficiente para trazer meio mundo abaixo. Mas, com tanta coisa mais importante acontecendo ao mesmo tempo, pouca gente ligou para esses “pormenores” do noticiário.

Nesse cenário confuso, a pergunta que não quer calar é: como chegamos até aqui?

Olhar a história em retrospectiva parece sempre algo cômodo. Os “engenheiros de obras prontas” colocam-se na confortável posição de analisar fatos passados sabendo de antemão o seu resultado. Daí para fazer engenharia reversa e apontar o dedo para as falhas cometidas é apenas um pulo. Mesmo isso, todavia, não parece fácil no panorama atual.

Que Dilma não tem traquejo político, foi incompetente na gestão econômica e conseguiu desmanchar em ano e meio o patrimônio eleitoral que seu guru levou mais de uma década para erguer, ninguém discorda. Mas como ela conseguiu, com todas as bóias de salvação lançadas em sua direção, chegar ao ponto de ser obrigada a descer a rampa do Planalto com ainda mais de dois anos de mandato pela frente?

Aparentemente, o primeiro grande erro foi ter subestimado o tamanho da cova que ela mesmo cavara para si. Aqui mesmo alertou-se por mais de uma vez que a manipulação dos dados contábeis e o represamento artificial da inflação cevariam bombas que explodiriam no começo de seu segundo mandato. É provável que Dilma tenha realmente acreditado ser possível reverter o buraco, ainda que fizesse “o diabo” durante a eleição. Faltou, quem sabe, a competência econômica da qual ela costumava se gabar, mas que sempre miou quando chamada a rugir.

O segundo grande erro está ligado ao primeiro. Sabendo que teria de dar um cavalo-de-pau na economia logo depois de se reeleger, Dilma teria de ter necessariamente abraçado com entusiasmo as bandeiras “neoliberais” de Joaquim Levy. Não poderia haver margem a tergiversações. A chance de sucesso, por mínima, dependia de uma radical virada não só econômica, mas também política da própria presidente. Dilma tinha não só de abandonar o discurso de campanha, mas lançar ao mar a própria personagem que encenava: a “super-gerente” que “sabia de tudo” e gostava de classificar ajuste fiscal como “coisa rudimentar”.

Como todo mundo sabe, nada disso aconteceu. Dilma quis dar a meia-volta, mas nunca aceitou se desvencilhar de seu figurino. De certo modo, ela tornou-se refém da própria figura que criara. Talvez por vaidade, o fato é que ela nunca abraçou as idéias de seu novo ministro da Fazenda. Uma vez que ninguém acreditava na sinceridade de sua mudança de convicção, havia sempre a dúvida de que a “antiga Dilma” – mandona, interventora, ministra da Fazenda de si mesma – voltaria a qualquer momento. O resultado, por óbvio, não poderia ser outro: não só Dilma não conseguiu reverter a débâcle econômica, como ainda perdeu o apoio daquela parcela do eleitorado que acredita que ajuste fiscal é coisa de “tucano”.

O terceiro e último erro, sem dúvida, foi no campo da política. Sempre muito ciosa de sua própria autoridade, Dilma jamais aceitou repartir com ninguém o poder político que detinha. Toda vez que alguém se sobressaía, era logo levado para a geladeira ou, pior, para a frigideira. Foi o que aconteceu com o próprio Michel Temer. Indicado para resolver a articulação política do Governo, Temer logo foi sabotado pela Presidente quando começou a aparecer mais do que ela no noticiário. Resultado: afastou-se dela e, quando sentiu o cheiro do cavalo passando encilhado à sua frente, armou-se logo para montá-lo.

Nesse contexto, nenhum exemplo é melhor do que a nomeação tardia de Lula para a Casa Civil. Se Dilma tivesse nomeado o ex-presidente há um ano, quando o desastre ainda não tinha tomado a proporção catastrófica de hoje em dia, é muito provável que tivesse terminado seu mandato em paz. Sem estar ainda fustigado pela Lava-Jato, Lula dificilmente veria o cerco se fechar contra ele em tão pouco tempo, dada a conhecida lentidão do Supremo nos inquéritos envolvendo políticos. Teria tempo, portanto, para reorganizar o Governo, enquadrar o PT – que não queria engolir a meia volta econômica – e compor com setores do Congresso sempre ávidos por cargos e sinecuras. Com 22.000 cargos e 39 ministérios por distribuir, Dilma conseguiu a suprema façanha de não reunir sequer 140 votos no Congresso. É caso único no mundo, quiçá na história.

Enquanto a chama política ardia, as redes sociais faziam a festa. Os memes difundidos pelos sempre criativos humoristas de plantão – Sensacionalista e Piauí Herald à frente – serviam como lenitivo ao cenário de horror que se desenhou desde então. No meio deles, houve um no qual se afirmava que o palhaço Tiririca, deputado federal por São Paulo, enganara a mesa da Câmara, fingindo-se passar por Waldir Maranhão para anular a sessão que votara o impeachment de Dilma. No dia seguinte, Tiririca raspou o bigode que o fazia assustadoramente semelhante com o vice da Câmara, para que não o confundissem mais com ele.

No meio de tanta baderna, a decisão de Tiririca parece ter sido a única coisa sensata produzida pelo Brasil nos últimos dias. Estamos agora, oficialmente, na República dos Memes.

Durma-se com um barulho desses…

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