Dando a cara a tapa, Série especial Impeachment – “O fim da ‘Era das Ilusões'”

Os esquerdistas podem defender o discurso que bem entenderem. Podem até aprovar uma lei decretando feriado no dia de nascimento do Lula. O que não podem é querer que os outros engulam a sua narrativa, muito menos os seus argumentos. Isso porque eles são como as alfaces: só descem com tempero.

Difunde-se entre a “esquerda patriótica” a idéia de que um “golpe” está em curso no país. Noves fora o fato de que o pretenso movimento golpista engloba vários dos que antes rezavam sob o credo petista, a questão é que o discurso padece de contradições difíceis de serem superadas.

Em primeiro lugar, se o que se está passando com Dilma Rousseff é golpe, aqueles que a defendem tem, por dever de coerência, defender que também o que se passou com Fernando Collor de Mello foi golpe. Isso porque a narrativa do golpe contra a Presidente assenta-se numa premissa básica: não haveria provas de crime de responsabilidade por parte de Dilma Rousseff.

Pois bem. Se é assim, contra Collor tampouco houve provas. Tanto é que, posteriormente, sua denúncia não foi sequer recebida no Supremo Tribunal Federal. Nem mesmo o famoso Fiat Elba serviu para condenar o ex-presidente. E aí os defensores de Dilma Rousseff colocam-se numa trágica encruzilhada: defender que são desnecessárias “provas” (em seu sentido técnico-jurídico) para uma condenação política em processo de impeachment e, assim, dizer que a derrubada do ex-presidente foi legal; ou entender que tais “provas” são indispensáveis, o que os coloca na trágica situação de defender que Collor foi derrubado por um golpe. O que não é possível é defender que, absolvido por falta de provas pelo Supremo, Collor foi deposto legitimamente, mas Dilma, se vier a ser deposta “sem provas”, terá sido derrubada de maneira ilegítima.

Em segundo lugar, questiona-se a “ilegitimidade” do mandato que viesse a ser exercido por Michel Temer. Alega-se que o vice-presidente não teria recebido “nenhum voto”. Curioso. Enquanto serviu como suporte para o apoio peemedebista, Temer sempre foi cortejado pelo PT. A ninguém ocorreu a ilegitimidade do vice-presidente quando foi chamado para integrar a chapa presidencial. Quando a Presidente chamou-o para a articulação política no ano passado, houve até quem celebrasse a entrega da tarefa a um “profissional do ramo”. Agora, quando o vice tornou-se versa, é rejeitado como filho ingrato.

A tese da “ilegitimidade” de Temer torna-se ainda mais contraditória quando se verifica que nenhum petista veio a público criticar a nomeação de Lula para o ministério de Dilma. Muito pelo contrário. Foi celebrado como “redenção” do Governo. Ocorre que, assim como o vice-presidente, Lula tampouco recebeu voto na última eleição. Segundo a avaliação unânime dos analistas políticos, sua nomeação para a Casa Civil constitui prenúncio de que assumiria com ares de governante de facto, caso o impeachment seja superado. Se a posse de um vice integrante da chapa representaria a ascensão de um “governo ilegítimo”, a nomeação de um “super-ministro” que passasse a comandar os destinos da Nação sem ter recebido um voto sequer encerraria ilegitimidade ainda maior.

No fundo, no fundo, o ocaso do PT põe por terra aquilo que poderíamos chamar de “Era das Ilusões” da democracia brasileira. Por muito tempo, acreditou-se que seria possível diferenciar partidos corruptos de partidos limpos. Por muito tempo, acreditou-se que havia gente interessada em mudar a forma com a qual a política era feita. E, por muito tempo, acreditou-se que o PT encarnaria esses dois sonhos.

Agora, todas essas crenças foram perdidas. Escândalo após escândalo, prisão após prisão, constatou-se que aquilo que o PT oferecia de diferente em relação a seus predecessores era apenas o grau de cinismo. Para cada golpe da justiça sobre o partido, elevava-se o nível de descaramento e rebaixava-se o patamar moral. Esse foi o padrão adotado desde o escândalo de Waldomiro Diniz, passando pelo julgamento do Mensalão até desembocar finalmente no Petrolão.

Durante todo esse tempo, em nenhum momento os petistas operaram um exercício sincero de contrição. Tudo era justificado em nome do “projeto”, quando não simples artifício maquiavélico de um “Judiciário partidarizado” a serviço da “mídia golpista”. Nunca lhes ocorreu que seu partido pudesse ter sido tomado por gente interessada em praticar tudo aquilo que eles sempre denunciaram que os outros políticos faziam. O autodeclarado “monopólio da virtude” nada mais era do que pastiche eleitoral, destinado a seduzir meia dúzia de incautos e enganar todo o resto.

Nunca é demais lembrar que o PT foi o mais pródigo defensor do instituto do impeachment desde a Constituição. Esteve no impeachment de Collor, pediu o impeachment de Itamar Franco e, por quatro vezes, solicitou impeachment contra Fernando Henrique Cardoso. Agora, quando vê o feitiço virar contra o feiticeiro, invoca a tese do “golpe”. E aí a conclusão é inescapável: impeachment no mandato dos outros é refresco.

Também não é demais recordar que Michel Temer não chegou à Vice-presidência da República por obra e graça do Espírito Santo. Está lá porque o PT quis se coligar a ele e ao seu PMDB. Por seis anos, acreditou-se que seria possível saciar com nomeações a gula de seu maior parceiro. Agora, vê-se às voltas com um inimigo íntimo articulando para assumir a coisa toda.

Com o desembarque do PMDB, parte das hostes governistas ainda pensa ser viável salvar o mandato de Dilma Rousseff. De posse do latifúndio burocrático desocupado pelos peemedebistas, acredita-se ser possível cooptar dissidentes no PP (com metade da bancada sob investigação na Lava-Jato), no PR (do notório Valdemar Costa Neto) e no PSD (do onipresente Gilberto Kassab). Ao melhor estilo homeopata, espera-se que o semelhante se cure pelo semelhante, ou seja, que distribuir cargos aos partidos pequenos impeça a ascensão do partido grande, o PMDB.

Até agora, não houve na esquerda quem contestasse essa tática. Não houve sequer quem se insurgisse contra o método adotado. Muito menos quem se perguntasse:

“Pra quê?”

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2 respostas para Dando a cara a tapa, Série especial Impeachment – “O fim da ‘Era das Ilusões'”

  1. Andre disse:

    Não pretendo me alongar muito, pois opinião não se discute, quanto mais num momento tão crítico como o que vivenciamos no momento. Porém, meu nobre opositor, essa postagem não pode ficar clamando sozinha ao vento.

    Não é novidade para ninguém que a crise política tem deixado os ânimos exaltados de lado a lado, estabelecendo um clima de conflagração social perigoso que espero não ter contagiado o nobre amigo, fazendo-o perder a usual e típica postura de elegância no discurso em defesa do pensamento da direita.

    Pensei, por um momento, que estava diante de um texto do Bolsonaro ou Paulinho da Força, tal a força das alegações e o tom revanchista da análise (perdoe a comparação (kkkk)).

    A analogia feita com a era Collor foi demais, forçada e desculpe-me, despropositada. Aquela foi uma situação de unanimidade política, social e jurídica, muito diferente da que existe hoje. Sabemos muito bem o porque do Collor não ter sido condenado no Supremo, faltou o amigo explicitar a real razão, que não foi por falta de provas.

    Por sinal, esse episódico me fez recordar do José Neumani Pinto entrevistando, minto, inquirindo o Marco Aurélio recentemente no Roda Viva.

    Quanto a ilegitimidade de um governo Temer, alardeada pelo governo, a base sobre a qual a hipótese é levantada nem de longe é a exposta no texto.

    Enfim, como verdadeiro esquerdista e nacionalista que sou, todavia, ciente dos erros que foram cometidos nesse tempo e do aprendizado que deles deve ser tirado, prefiro sempre enfatizar os avanços e coisas positivas que foram feitas e que são insofismáveis, embora isso signifique fazer chover no molhado.

    Acredito na tal narrativa e argumentos comparados a “alface”, mas não a imponho, pois não creio que seja democrático, porém a defendo com base na mesma prerrogativa. Digo apenas que esse alface pode ser sem sabor, mas é orgânico, diferente de outros que são bonitos, grandes e brilhantes, crescidos a base de agrotóxicos.

    Termino com o refrão pelo qual a democracia brasileira clama: NÃO VAI TER GOLPE!!!!

    Um grande abraço.

    • arthurmaximus disse:

      Meu nobre, vamos por partes.
      Em primeiro lugar, assim como a elegância, o humor também sempre foi uma tônica deste espaço. Daí a referência às alfaces no começo do texto.
      Em segundo lugar, ainda bem que o amigo admite que é brincadeira a comparação com o Bolsonaro, porque ele próprio já foi objeto de crítica aqui pelo menos um par de vezes (por razões que você bem sabe quais são).
      No que toca ao Collor, não fiz qualquer comparação de fundo entre ele e a Dilma. Aliás, já escrevi algumas vezes aqui que não há a menor possibilidade de comparar uma ao outro, principalmente em questões de honorabilidade pessoal. A grande questão que quis defender quando falei nele foi na contradição do discurso esquerdista. Na minha ótica, não há como dizer que o impeachment da Dilma é golpe sem, ao mesmo tempo, admitir que o do Collor também foi. Tudo gira em torno da idéia que se tem do “golpe”: se for um julgamento político, por definição não haverá golpe; se for um julgamento puramente jurídico, baseado em “provas”, então Collor também sofreu golpe, em virtude da absolvição pelo Supremo. Quanto a isso, desconheço qualquer outra motivação para a decisão do STF que não tenha sido o péssimo trabalho do então Procurador-Geral da República, Aristides Junqueira.
      De resto, respeito a sua opinião, embora dela discorde. No entanto, acho que estamos juntos pelo menos em uma coisa: que o processo de impeachment de Dilma Rousseff, seja qual for o resultado, não termine em violência entre as partes.
      Um forte abraço.

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