Oposição em overlapping, ou O desafio do pós-Dilma

Pouca gente vai se lembrar, mas houve no futebol brasileiro um técnico chamado Cláudio Coutinho. Militar de carreira, preparador físico por opção, Cláudio Coutinho começou sua trajetória futebolística ajudando a seleção a conquistar o tricampeonato mundial no México, em 1970. Se Zagallo foi responsável por formar a cabeça do time, Coutinho e Carlos Alberto Parreira foram responsáveis por dar-lhe pernas e pulmão. Não por acaso, o escrete canarinho venceria todas as partidas daquele Mundial no segundo tempo, quando nossos craques voavam por cima de adversários esbaforidos pelo calor mexicano.

Oito anos e duas copas depois, Coutinho voltaria à seleção, dessa vez para comandar o time. Do banco, trouxe uma série de conceitos inovadores para a época, conceitos que dividiriam radicalmente os torcedores brasileiros. Convencido de que a era dos “grandes craques” havia acabado, Coutinho importou para o Brasil métodos de treinamento estrangeiros, como a polivalência e o overlapping.

Ironizado por muitos como estrangeirismo macaqueador, o overlapping consistia em passar a bola na lateral para um companheiro, deslocando-se o jogador para receber a bola mais adiante, no chamado “ponto futuro”, de maneira que o adversário terminasse não alcançando nem a um nem a outro. Dando certo, a jogada permitia que o atleta penetrasse em campo adversário livre de marcação, em condições de cruzar a bola na grande área ou finalizar para o gol. Tal parece ter sido a tática adotada pelo PMDB nos últimos dias.

Na convenção partidária de ontem, o maior partido brasileiro resolveu romper a aliança que firmara para eleger e reeleger Dilma Rousseff. Ao contrário do que os mais ingênuos podem acreditar, não se trata de um rompimento com o Governo, mas com este Governo. Com um vice-presidente no banco, doido pra entrar em campo, a idéia é entregar a bola – quer dizer, os cargos – para receber de volta mais à frente, quando Dilma já estiver deposta. Se vivo fosse, Claudio Coutinho certamente não hesitaria em classificar a jogada como um overlapping político.

Consumada a derrocada da sua base de apoio, não restam muito mais dúvidas de que o governo Dilma Rousseff acabou. O impeachment, agora, é apenas uma questão de tempo e formalidade. Mesmo que o Governo tente barganhar no varejo miúdo da Câmara o sem-número de cargos que o PMDB lhe devolveu, não há mais tempo para reverter a onda que se formou a favor do impedimento da Presidente. É muito mais fácil acreditar que os integrantes do baixo clero congressual preferirão negociar a prazo espaços em um futuro Governo Temer a aceitar à vista cargos que daqui a um mês deverão estar nas mãos do líder peemedebista.

Diante desse quadro, resta saber o que esperar de um governo pós-Dilma.

Em primeiro lugar, há de se constatar o óbvio: remover Dilma não vai tirar o país da recessão. O buraco em que afundamos é demasiado profundo para que possa ser escalado de volta do dia para a noite. É claro que há esperança de reversão de expectativas econômicas. Assim como aconteceu na Argentina de Macri, também o Brasil pode experimentar uma sensação de alívio geral do tipo “agora vai!”. Mas daí a tirar a economia do atoleiro vai uma longa distância.

Em segundo lugar, Michel Temer assumiria em condições bem mais adversas do que Itamar Franco, por exemplo. No caso do político mineiro, a presidência caiu-lhe sobre o colo, sem que movesse uma palha pelo cargo. Temer, ao contrário, atua às claras pelo impedimento da Presidente, situação inédita em nossa experiência republicana. Ninguém sabe até onde a pecha de “golpista” vai “pegar” no vice-presidente. Mas, sob as acusações furibundas de uma esquerda ressentida de que conspirou para depor a titular do cargo, o vice-presidente arrisca-se a arrostar a pecha de governante ilegítimo antes mesmo de assumir.

Em terceiro lugar, existe o fator Lava-Jato. Até o momento, não apareceu qualquer implicação direta de Dilma Rousseff com os desvios do Petrolão. Há, claro, acusações do ex-líder do Governo no Senado, Delcídio Amaral, e de alguns membros da Força-Tarefa do Ministério Público Federal de que a Presidente teria manobrado para impedir as investigações, sendo a nomeação de Lula exemplo disso. Mesmo isso, contudo, não se compara a denúncias de recebimento de propina, algo que se murmura nos bastidores contra Michel Temer, embora nenhuma delação que tenha vindo a lume declare isso expressamente.

Nesse contexto, é difícil cravar de antemão o sucesso de um eventual governo Temer. É verdade que o discurso de Humberto Costa, segundo o qual “se Dilma cair, Temer será o próximo”, foi feito com o fígado, mas o cenário desenhado pelo senador pernambucano está longe de revelar-se uma improbabilidade. Se, assumindo, o vice-presidente não conseguir rapidamente mudar o cenário e reverter as expectativas econômicas negativas, é quase certo que enfrentaria um cenário de horror ainda maior. Além dos petistas e dos movimentos sindicais, Temer teria de encarar os que hoje pedem a deposição de Dilma. Como Humberto Costa bem ressaltou, ninguém sairá às ruas com faixas “Fica, Temer”.

Sem embargo, Temer ainda teria de lidar com o rescaldo da Lava-Jato. Com o PT fora de combate, a Força-Tarefa deverá agora redirecionar seu foco para a oposição, sob risco de desmoralizar-se no futuro pelo suposto caráter partidário da investigação. Mesmo que passe incólume pela Operação, como até agora tem passado, Temer seria convidado a administrar as apreensões de sua base de apoio, a mesma que abandonou Dilma por não enxergar nela o anteparo que julgavam necessário para barrar as investigações.

Diante disso, restaria a Temer duas alternativas: tentar intervir na Lava-Jato, ajudando a enterrá-la viva; ou deixar tudo como está, para ver como é que fica. A primeira hipótese, além de politicamente arriscada, seria de sucesso duvidoso, dado que a Operação já alcançou tal dimensão que não comportaria mais sepultamento forçado. A segunda hipótese também envolveria alto risco político, já que não são de todo negligenciáveis as chances de que, sentindo-se “traídos”, os parlamentares que hoje pedem “Fora, Dilma” passassem a pedir “Fora, Temer”.

Somadas umas coisas e outras, a verdade é que continuamos sem saber como será o dia seguinte à deposição de Dilma Rousseff. Aos incautos, porém, recomenda-se dose extra de cautela. Afinal, o Brasil de hoje não é para cardíacos.

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