Será o tempo uma ilusão?

Final de ano é uma época de sentimentos dúbios. Se por um lado você fica pensando em tudo que queria fazer e acabou não dando certo no ano que passou, por outro a virada da página do calendário reacende do nada a esperança de que todos os seus desejos vão se realizar no ano que há de vir.

Evidentemente, há muito de overrating na passagem de ano. Do ponto de vista cronológico, a virada do dia 31 de dezembro para o dia primeiro de janeiro não é em nada diferente do badalar da meia-noite de qualquer outro dia para a manhã seguinte. Mesmo assim, nossas mentes parece que foram programadas para resetar na 0h do primeiro dia do ano, como se nossas vidas tivessem acabado de começar, e um admirável novo mundo estivesse à nossa espera.

A natureza do tempo intriga e fascina filósofos e físicos desde sempre. De maneira intuitiva, todo mundo divisa a escala temporal em três estágios. No primeiro deles, estão as coisas que já passaram e que, segundo nosso entendimento, não voltam mais. Elas só existem nas nossas memórias e nos livros de História. No segundo estágio, estão todas as coisas que ainda não aconteceram e que, portanto, não existem. Tudo o que está no porvir é insondável e, dessa forma, não pode ser conhecido a priori. No terceiro estágio, encontra-se uma obscura escala móvel, que separa o primeiro estágio do segundo, sem que possamos precisar quando e como ela ocorre. Afinal, enquanto eu escrevo essas palavras, duas ou três teclas já se passaram e foram para a tela do computador. É nesse estágio que nós “vivemos” e ao qual damos o nome de “presente”.

Mas, se para além dos festejos do réveillon, tudo isso não passar de uma grande ilusão?

Einstein, por exemplo, costumava dizer que “passado, presente e futuro são apenas uma persistente ilusão”. Embora para a maioria de nós a pergunta não faça sequer sentido, o físico alemão estava coberto de razão ao questionar a natureza dessa estranha seqüência de acontecimentos à qual demos o nome de “Tempo”.

Diferentemente da energia e da matéria, o tempo não é um dado da Natureza. Tampouco se pode afirmar que seja uma componente do Universo. Na verdade, o estabelecimento de marcos para separar acontecimentos constitui-se numa típica criação humana. Ao contrário da “Lei dos Gases” ou da “Equivalência Matéria-Energia”, não há nada no Cosmos que indique a existência de tal coisa como o “Tempo”, muito menos de leis que regulem o seu funcionamento.

Desde que Einstein desenvolveu sua Teoria da Relatividade, a própria idéia da imutabilidade do tempo ficou abalada. Sabe-se, agora, através de experimentos científicos, que o tempo passa de maneira diferente conforme a velocidade do objeto ou do observador. Se o sujeito está parado, o tempo passará de determinada forma. Se, no entanto, ele estiver em movimento, o tempo passará mais devagar.

Para entender de forma simples o efeito da velocidade sobre a passagem temporal, basta imaginar o tempo como um grande rio, cujo fluxo viaja a 300.000km/s (velocidade da luz). Se você estiver boiando no rio, sem fazer nada, você se deslocará na mesma velocidade do rio.

Todavia, se você começar a nadar no sentido contrário, o efeito de suas braçadas influenciará o resultado final do deslocamento. É como se o fluxo do rio diminuísse sua intensidade à medida que você nadasse. Claro, se você bater os braços a 10km/h, a diferença na velocidade final será quase nada. Mas, se você conseguisse movimentar as pernas e os braços para gerar uma velocidade muito próxima à da luz, a velocidade que o fluxo do rio imprime a você seria praticamente anulada. Nesse caso, o tempo para você “pararia”, ao passo que pra todo o resto da humanidade continuaria “passando” normalmente.

“Bom, até aí eu entendi. Mas e daí?”

Daí o seguinte: se você admite a possibilidade de “atrasar” o relógio por meio do movimento, por que não admitir o movimento inverso, ou seja, “adiantá-lo”?

Imagine, por exemplo, um filme daqueles de película. Tudo ali está parado. Cada fotograma identifica uma determinada parte da “realidade”, como a pintura de uma cena em um quadro. Ao movimentá-lo no projetor, contudo, cria-se a ilusão do movimento, de maneira que você perceba um todo indivisível, e não uma seqüência de “cenas paradas”.

Imagine, agora, os velhos botões de rewind e fast foward. Ao apertar um, o filme “volta”. Ao apertar outro, a película “vai pra frente”. Mas, como você mesmo sabe, o filme já está todo lá, da abertura aos créditos finais. Não se cria o filme à medida que ele passa. Apenas se decide, com um apertar de botões, se ele vai pra frente, pra trás ou se fica parado no mesmo canto.

Transportando essa noção para a nossa realidade, várias conclusões inquietantes surgem à mente.

Primeiro: se de fato o tempo é uma ilusão, não existe separação entre passado, presente e futuro. Você é que ainda não se deu conta disso, por estar “preso ao presente” (ou, na metáfora cinematográfica, encapsulado “dentro” do fotograma). Isso significa que nada do que você fez, pensou em fazer ou ainda vai pensar em fazer fará qualquer diferença: o futuro já está escrito. Pior. Ele já aconteceu.

Segundo: ao implodirmos a escala temporal, o passado adquire uma nova perspectiva. Sob essa ótica, o “passado” ainda não passou. Ou, melhor explicando, o “passado” ainda está lá, firme e forte, como o fotograma da mocinha prendendo a respiração antes de beijar o herói. Você é que não consegue mais identificá-lo ou  enxergá-lo por já estar situado, dentro da sua ilusão temporal, em outra “passagem” da película.

E as implicações dessa constatação são estarrecedoras. Da mesma forma com que nós “olhamos para trás” e imaginamos os horrores da II Guerra Mundial, Churchill ainda está lá, dentro do seu gabinete, organizando a retirada de Dunquerque, sem sequer ter idéia de como o conflito terminará. Pior que isso, só mesmo imaginar que os seres humanos do século XXIII podem estar a nos observar neste exato momento como retratos envelhecidos numa parede, sabendo tudo de bom e ruim que nos acontecerá, e nada podendo fazer para alterar o curso da História.

Se por um lado isso traz certa perspectiva fatalista, no sentido de que o futuro não está em aberto e nossas escolhas não influenciarão muita coisa nele, por outro se opera uma improvável reconciliação com a sua religiosidade. Afinal, nenhuma das pessoas queridas que você perdeu estão verdadeiramente “mortas”. Elas apenas estão, literalmente, em outro plano da existência, ao qual você não tem mais acesso. Mas os bons momentos que vocês passaram ainda estão lá, da mesma forma que a cena do triunfo final numa saga épica.

Demasiado metafísico para um Blog da Internet? Talvez. Mas o fato é que o tempo não é exatamente algo que se possa decifrar em um só post.

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