Recordar é viver: “O golpe que não houve”

Em tempos de presidente cai-não-cai, nada melhor do que relembrar um dos posts mais emblemáticos deste espaço.

Porque só quem não conhece história pode verdadeiramente fazer papel de otário…

 

O golpe que não houve

Publicado originalmente em 8.7.13

 

No sábado passado, assisti a um programa imperdível, para aqueles que ainda acreditam que existem homens públicos honrados, merecedores do nosso respeito. O nome do programa é Dossiê e passa na GloboNews. No episódio em questão, tratou-se de um homem público com H maiúsculo, verdadeira reserva moral de nosso tão decadente Senado: Pedro Simon.

Lá pelas tantas, entre um lamento e outro acerca da situação política nacional, Simon recordou um caso quase esquecido da recente história política nacional: a proposta de “autogolpe” feita a Itamar Franco. Para falar sobre o tema, é necessário relembrar ao leitor o contexto histórico no qual se inseriu.

Recém-saído de uma ditadura militar e de um governo frustrado pela morte de seu titular (Tancredo Neves), o Brasil acabara de eleger seu primeiro presidente desde Jânio Quadros, há quase trinta anos. Tanto tempo sem exercer o sagrado direito de sufrágio fizeram mal à capacidade de discernimento do brasileiro. Com alguns golpes baixos e grande apoio da Rede Globo, elegeu-se um “caçador de marajás”: Fernando Collor de Mello.

Despreparado e sem o menor tino para a coisa, Collor caiu pelos próprios erros, que começaram logo no primeiro dia de mandato, quando mandou sequestrar os depósitos dos brasileiros. Em maio de 1992, seu irmão, Pedro Collor, jogou tudo o que tinha à mão e mais um pouco no ventilador. Cinco meses depois, o Congresso deu início ao processo de impeachment e afatou Collor da presidência. Assumia, então, seu vice: Itamar Franco.

Temperamental e manhoso, Itamar rompera com Collor poucos meses depois da posse de ambos. Provavelmente, viu cedo – ou tarde, dependendo do ângulo que se enxergue o problema – o tamanho da encrenca onde se metera. Não quis manchar sua reputação com os respingos de um governo que ficaria marcado para sempre como símbolo de corrupção.

Entre a aceitação da denúncia pela Câmara dos Deputados e o julgamento do impeachment pelo Senado, passariam mais ou menos três meses. Mineiro que era, nesse período Itamar não quis colocar o carro na frente dos bois. Com razão, dizia que era apenas “presidente interino” e nada poderia fazer até Collor ser definitivamente afastado. No final do ano de 1992, Collor renunciou e teve seus direitos políticos cassados. Itamar era, agora, presidente de fato e de direito.

A situação era caótica. Economia em frangalhos, inflação estratosférica e cenário político totalmente indefinido. Itamar nem partido político tinha, pois se desfiliara do PRN. A parca base de sustentação parlamentar de Collor escafedera-se no rastro do impeachment e a oposição não sabia direito o que queria da vida. Depois de experimentar algum resgate de simpatia popular com o afastamento de Collor, a credibilidade do Congresso voltara ao rés-do-chão com o escândalo dos “anões do Orçamento”.

Pra piorar, coisas estranhas aconteciam na América Latina. Poucos meses antes, Alberto Fujimori inaugurava o conceito de “autogolpe”. Sem base parlamentar definida e com a economia destruída pela hiperinflação, Fujimori fechou o Congresso e cassou as prerrogativas do Poder Judiciário, firmando-se como “ditador de si mesmo”.

Entre cócegas de gorilas que se coçavam para voltar ao poder e o discurso de vivandeiras que pensavam em lucrar politicamente com o fim da democracia, os murmúrios propondo algo semelhante no Brasil chegaram aos ouvidos de Itamar. Cartas eram enviadas às redações em “apoio” ao golpe, enquanto parte da mídia aderia em silêncio ao projeto golpista.

Não se sabe quem, não se sabe quando, não se sabe em quais circunstâncias, mas o fato é que coisas assim não acontecem ao acaso. Se havia boatos de que Itamar fecharia o Congresso, é porque havia gente interessada em fechá-lo. E se havia civis interessados em fechá-lo, havia certamente gorilas por trás garantindo apoio militar à empreitada. Sem querer declinar nomes, Simon limita-se a dizer que o golpe só não aconteceu porque Itamar não quis.

O resto da história é conhecido. Não houve golpe, Itamar transferiu Fernando Henrique Cardoso das Relações Exteriores para o Ministério da Fazenda e ele, apoiado nos mesmos economistas que fracassaram no Plano Cruzado, lançou o Real e trouxe a inflação brasileira para níveis civilizados.

Por muitas razões, Itamar foi um presidente desprezado pela história. Com alguma esperteza e uma boa dose de marquetagem, Fernando Henrique conseguiu apropriar-se de quase todos os louros de seu mandato. Além de reparar uma injustiça histórica, escrever a história daqueles dias tensos de 1993-1994 ajudaria a lançar luzes sobre um episódio que se tornou tabu na história política nacional. Em um país que, só no último século, experimentou cinco golpes militares, nunca é demais entender como se acionam os mecanismos de derrubada da ordem democrática.

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2 respostas para Recordar é viver: “O golpe que não houve”

  1. tai777 disse:

    oi Arthur, acho que vou ter que me organizar para ler os seus textos: ainda não encontrei um que seja ruim e não me inspire para ler. Você tem algum roteiro para leitura desse livro em forma de blog? E sua biografia ou currículo onde estão? um abraço, Taiguara

    • arthurmaximus disse:

      Infelizmente não, Taiguara. Há a separação por categorias. Os posts, por sua vez, estão organizados em ordem cronológica. Mas o WordPress sempre indica alguns posts relacionados ao que você está lendo. Espero que isso ajude. Um abraço.

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