O calote grego, ou Crônica de uma quebra anunciada

Não foi por falta de aviso. Depois de pelo menos 5 anos namorando o precipício, parece que a Grécia finalmente resolveu dar um passo à frente; jogou-se morro abaixo.

Para quem não acompanha o noticiário econômico e internacional, ontem os gregos deixaram de pagar uma parcela de EU$ 1,6 bilhão que deviam ao FMI. Juntaram-se, assim, ao nada honroso grupo de devedores do fundo, ladeados por Zimbábue, Sudão e Somália. Daqui pra frente, como disse um periódico francês, passamos a entrar em terra incognita.

Não que isso tenha sido surpresa. Aqui no Blog, por exemplo, a crise econômica grega foi assunto de pelo menos quatro posts (aqui, aqui, aqui e aqui). Em todos eles, a tônica era a mesma: não havia saída para a Grécia. Todo pacote de salvação era apenas um paliativo que empurrava o problema para a frente, prolongando a agonia do paciente. Solução, que é bom, nada.

Nos últimos meses, o receituário foi rigorosamente o mesmo. A Troika tentava empurrar mais austeridade e cortes, enquanto os gregos rechaçavam qualquer dose adicional do remédio. Lançados em um perigoso cabo-de-guerra, credores e devedores jogavam sobre a mesa todas as suas fichas, ameaçando uns aos outros com o apocalipse no caso de insolvência da Grécia. A grande questão, contudo, é a seguinte: quem tinha razão nesse embate?

Do lado da Grécia, os danos são conhecidos desde sempre. O calote da dívida soberana implicará forçosamente a saída da eurozona. Uma vez que, sem dinheiro externo, o país ficará sem ter como pagar suas obrigações mínimas – salários, pensões, investimentos públicos etc. -, a única alternativa que resta será emitir moeda. Como o Euro só é emitido pelo Banco Central Europeu, à Grécia não restará senão restaurar sua autonomia monetária, abandonar o Euro e ressuscitar o velho dracma. Daí pra frente, o que virá é caos financeiro, inflação nas alturas e uma ainda não inteiramente estimada desestruturação do tecido social.

Do lado dos credores, os danos, ao contrário, são inteiramente desconhecidos. Pode-se imaginar – e aqui se opera no campo da mais pura especulação – que os bancos franceses e alemães, principais credores da Grécia, já tenham conseguido provisão suficiente para enfrentar o calote. Embora isso alivie a rebordosa no sistema bancário, não resolve inteiramente a questão.

Em primeiro lugar, não se sabe como vai se operar a transição do euro para o dracma. Por exemplo: os títulos da dívida grega emitidos foram emitidos em euros. Se eles forem convertidos para dracmas, a dívida grega, hoje em extraordinários 170% do PIB, pode até dobrar do dia para a noite. Quem em sã consciência pode esperar que um dia esses títulos venham a ser pagos?

Em segundo lugar, ninguém sabe como vai ficar a eurozona depois da saída da Grécia. Supostamente, o “Clube do Euro” era um caminho sem volta. Não havia possibilidade sequer teórica de sair dele. Agora, com a prática se impondo à teoria, resta saber o que acontecerá com outros países encalacrados, como Portugal, Espanha e Itália. França e Alemanha permitirão que eles também abandonem o barco ou não medirão esforços para resgatá-los?

E aqui chegamos ao ponto fundamental de todo o imbróglio. Por trás de todo o problema econômico, encontra-se latente um problema político: qual será o futuro da Europa depois que a Grécia abandonar a moeda única?

Desde a sua mais tenra concepção, com os Acordos de Carvão e Aço entre França e Alemanha, o sonho de uma Europa unida, próspera e pacífica sempre foi acalentado pelos líderes do continente. A União seria a melhor forma de impedir que a Europa se precipitasse novamente em conflitos como a I e a II Guerras Mundiais, com a inevitável destruição que se lhes segue.

O grande problema, contudo, foi o modo com o qual se tentou implementar essa união. Operaram a união monetária antes de se construir uma união política. Sem política fiscal única, não há moeda única. Os europeus, no fundo, colocaram o carro na frente dos bois. Agora, pagam o pato da precipitação.

Por maiores que sejam as agruras gregas após o abandono do euro, pode-se esperar pelo menos no longo prazo alguma melhora. Afinal, depois de retomar as rédeas de sua economia, os gregos poderão a começar a pensar em maneiras de sair do atoleiro no qual se meteram. A crise trará dor e sofrimento, é verdade, mas ela pode ser a última alternativa para um país cujo PIB foi reduzido em 1/4 apenas nos últimos 5 anos.

Para a Europa, contudo, restará a dúvida: uma eventual desestruturação da zona do euro implicará também a desestruturação da própria União Européia? Como advertiu Angela Merkel ontem, o fracasso do euro representará o fracasso da própria Europa. Presos às amarras da moeda única, os europeus podem continuar caminhando lenta e distraidamente em direção ao abismo.

Tempos difíceis aguardam o Velho Continente.

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