A agonia prolongada

Nessa semana, depois de muito vai-e-vem, a Grécia obteve da Troika (União Européia, FMI e Banco Central Europeu) a promessa de receber um pacote de EU$ 130 bilhões para evitar um calote generalizado de suas dívidas. Fora o resgate financeiro, os bancos privados aceitaram um calote parcial da dívida grega de mais de 50% do que tinham a receber.

No maravilhoso mundo do mercado financeiro, a notícia deveria ser comemorada. Afinal, a chance de uma reprise chamada Argentina 2012 – Operação Grega teria sido afastada.

No mundo real, no dia seguinte estava todo mundo de bola murcha. Bolsas caíram, mercados tremeram e, no final do dia, só uma certeza: o calote vai vir, mais hora, menos hora.

Como Paul Krugman está cansado de falar, não há saída para a crise grega – e, de resto, para todos os países periféricos da Zona do Euro – que não passe pelo crescimento econômico. Não adianta cortar despesas, demitir funcionários e reduzir salários se a economia continuar em recessão. Isso porque um dos principais indicadores da solvabilidade de um país é a chamada “relação dívida-PIB”, ou seja, quanto do PIB representa a dívida total do governo.

Imagine um cidadão que vende de porta em porta e ganha, anualmente, R$ 100.000,00. Suponha também que ela deve no total, entre prestações de carro, casa e cartão de crédito, algo como R$ 50.000,00. Sua relação salário anual-dívida está em 50%, o que lhe dá um índice de solvabilidade razoável. Por isso, os bancos lhe emprestam todo mês parte do dinheiro de que necessita para fazer capital de giro.

Subitamente, diante de uma crise, o crédito bancário seca. Para “restabelecer” a confiança dos bancos e conseguir empréstimos para fazer capital de giro, o sujeito propõe-se a reduzir sua relação salário anual-dívida para 30%, algo perfeitamente administrável.

Para fazer isso, há duas opções. A primeira delas é cortas despesas. O sujeito vende o carro para deixar de pagar pela gasolina e passa a andar de ônibus. Vendendo o carro, consegue R$ 7.000,00. Sem gastar com gasolina, economia anualmente outros R$ 3.000,00. No total, ele conseguiria rebaixar sua dívida de R$ 50.000,00 para R$ 40.000,00. Beleza, né?

Por um lado, sim. Por outro, o sujeito que, motorizado, visitava 20 domicílios por dia e conseguia vender em 12 deles, de ônibus passa a visitar somente 15 e a vender em 8, por conta do tempo perdido tendo de esperar pelo transporte público e pela dificuldade de locomoção. No final do ano, isso representará uma queda de 25% na sua renda anual. De R$ 100.000,00, o sujeito passará a ganhar somente R$ 75.000,00.

Assim, no final das contas, o sujeito terminará o ano ganhando R$ 75.000,00 e devendo R$ 40.000,00. Sua relação salário anual-dívida saltará de 50% para 53%. Em outras palavras: mesmo à custa do estresse, da diminuição da qualidade de vida e da venda do patrimônio, o pobre coitado terminará o ano devendo proporcionalmente mais do que quando começara. E os bancos continuarão a negar-lhe crédito.

Com a Grécia, acontece mais ou menos a mesma coisa. Há cinco anos o país está em recessão. Com o pacote de agora, continuará nela sabe-se lá até quando. Hoje, a dívida grega está em 160% do PIB. Com o pacote, espera-se tolamente que ela seja reduzida a “somente” 120% até 2020. Mesmo que tudo dê certo, o índice de solvabilidade grego continuará ridículo. E o país continuará a depender de pacotes salvacionistas a cobrar da população um preço cada vez maior.

Voltando um pouco no tempo, o exemplo da América Latina, Brasil em particular, mostra que o receituário clássico liberal em tempos de crise só produz mais recessão e desgraça. Eis aí talvez a única boa lição que ficou do Governo Fernando Henrique Cardoso, ao custo de 8 anos de miséria e sofrimento da população.

Pena que o eurocentrismo dos çábios da Troika impeça-os de estudar um pouco da história do Terceiro Mundo. Aprenderiam bastante com os erros dos outros.

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