Mercado x Democracia

Nesta semana, mais uma vez o mercado deu piti quando soube que o Primeiro-Ministro grego, Papandreou, decidiu que ia submeter a proposta de haraquiri coletivo ao julgamento do povo, por meio de referendo.

Ontem, o colunista Clóvis Rossi escreveu na Folha um texto cuja leitura eu recomendo. Com o título “Mercados surram a democracia“, Rossi desmonta por completo a suposta racionalidade do mercado, por trás da qual se esconde um único e profano desejo: salvar o próprio bolso à custa da degração social e política de uma nação soberana.

Pra quem não acompanhou o noticiário, negociou-se um acordo pelo qual a dívida da Grécia com os bancos privados seria reduzida pela metade, ao mesmo tempo em que os governos da França e da Alemanha recapitalizariam (leia-se: dariam dinheiro do contribuinte) seus bancos, os maiores credores dos papéis gregos. Com esse arranjo, pretende-se um calote organizado. Resguarda-se parte dos lucros dos bancos, ao mesmo tempo em que, limitando o tamanho do beiço, menor será a quantidade de dinheiro injetada nos bancos privados pelos alemães e pelos franceses. E, nesse caso, menor será o desgaste de Sarkozy e Merkel frente aos seus eleitores.

Tudo estava certo, até que Papandreou saiu-se com a idéia do referendo.

É verdade: contra Papandreou pesa o fato de ter urdido o referendo na moita, fazendo crer nos negociadores europeus a idéia de que, fechado o acordo suicida, ela já estaria valendo desde já: nada de consultas a uma população que, dia sim, outro também, vai às ruas protestar contra aquilo que considera a capitulação da soberania de seu país.

Mesmo assim, como disse Rossi, pode haver algo mais democrático do que submeter à população um acordo que terá implicações severas e imediatas no seu presente e no seu futuro?

O problema é que não é esse o raciocínio do mercado. Mercado rege-se por dinheiro; só isso. Partindo-se do pressuposto óbvio de que a população que todo dia vai às ruas reclamar do arrocho que lhe é submetido, é justo pensar que o referendo terá uma maioria esmagadora de “não” ao suicídio coletivo. Com isso, teremos um calote à la Argentina.E é quase certo que irão à breca boa parte dos grandes bancos europeus. Problema deles. Quem mandou  financiar por mais de 10 anos a irresponsabilidade fiscal grega?

A questão é: mesmo com o calote organizado proposto no acordo, a Grécia vai ganhar apenas mais alguns meses de sobrevida. Seu problema fiscal continuará não resolvido e sua dívida continuará monstruosa. A única solução é crescer, exatamente o contrário do que o pacote oferecido por Sarkozy e Merkel sugere.

Pode parecer trivial, lembrar vagamente um populismo sul-americano, mas, no fundo, o que está em jogo é o próprio conceito de democracia.

Ironia das ironias, a última batalha da democracia terá lugar justamente no seu berço. Vamos ver quem piscará primeiro.

 

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