Recordar é viver: “A lenda dos professores ‘que não sabem passar'”

Variedades é, desde sempre, uma das seções mais curiosas deste espaço. Há quem se pergunte: “Mas por que ‘variedades’?” Ao que eu respondo: “Porque certos assuntos não se enquadram em nenhuma outra seção do Blog”.

No fundo, a seção de Variedades tornou-se um misto de espaço de utilidade pública com algumas crônicas do cotidiano que não se encaixariam com perfeição em determinados assuntos predefinidos do Dando a cara a tapa.

Uma vez que ela não tinha ainda dando as caras na seção mais nostálgica deste espaço, hoje vamos recordar um de seus primeiros posts: A lenda dos professores “que não sabem passar”.

Quando jovem, organizei quase uma cruzada contra essa idéia tão disseminada no mundo pedagógico, de que há gente que entende do assunto, mas é incapaz de transmitir o seu conhecimento a outrem. Hoje, já adulto, a cruzada continua, embora em mares internéticos nunca dantes navegados.

A lenda dos professores “que não sabem passar”

Publicado originalmente em 15.4.11

Quase todo mundo já passou por isso na escola. A matéria é chata (às vezes nem é chata), mas o professor consegue transformá-la numa verdadeira sessão de tortura chinesa. Além de não se envolver com o tema, você ainda fica boiando, achando-se a criatura mais estúpida da Terra.

Aí, no recreio, vem um sujeito e diz: “Ah, mas o Fulano é um bom professor”.

Você insiste: “Como assim, “bom professor”? Não entendo patavinas do que ele diz. Tô mais perdido que cego em tiroteio”.

E o sujeito encerra a discussão com o fatídico: “Ele sabe muito, mas não sabe passar a matéria“.

Sem meias palavras: isso não existe.

A história de que o sujeito “sabe” mas não “sabe passar” não passa de uma desculpa besta para esconder a incompetência que, infelizmente, grassa no magistério, seja qual for o nível estudantil.

Ou o sujeito entende do que fala, aquilo faz sentido em sua cabeça, e ele consegue passar a mensagem adiante, ou então não entende. Quando isso acontece, das duas, uma: ou realmente não entende do que fala, ou propositadamente a torna complicada apenas para parecer mais inteligente. Nas duas hipóteses, tem-se em frente ao quadro negro uma enganação.

Já citei aqui no blog, por exemplo, o caso de um professor de física, que explicou de forma surpreendentemente simples o fenômeno da difração da luz. É algo complicado? Sim. Mas, como o cara sabe do que tá falando, consegue ao menos formular um exemplo que permite ao aluno compreender do que se trata. O exemplo pode até ser impreciso, mas o aluno sai da sala sabendo do que foi falado e – pasmem – conseguindo reproduzir para outra pessoa o que foi ensinado. Tudo isso sem ser necessariamente um amante da matéria.

Note que, confrontados com um aluno mais estudioso, esse tipo de professor normalmente se fecha em copas. Retraído, porta-se como um animal encurralado. No mais das vezes, encerra rispidamente a discussão esculhambando o aluno sem dar uma explicação satisfatória para a pergunta. É possível que você se lembre de um caso assim na sua vida escolar.

Além dos sujeitos que simplesmente não fazem idéia do que estão falando, há aqueles que sabem, mas sentem uma necessidade interior de serem reconhecidos como “gênios”. Incompreendidos, acham que conseguirão alcançar esse status transformando coisas simples em algo simplesmente ininteligível. Para massagearem o próprio ego, sacrificam a clareza da mensagem e detonam a possibilidade de entendimento do alunato.

E isso não só com professores.

Sartre, por exemplo, era mestre em sair pela tangente. Escreveu um dos livros mais bizarros de todos os tempos – O Ser e o Nada. Tendo de fazer um trabalho sobre a figura ainda no 1º semestre da faculdade (não, não é brincadeira), fiquei maravilhado ao perceber que, qualquer que fosse a página que abrisse do livro – aleatoriamente, mesmo – nada entendia do que o comuna-filósofo havia escrito.

Lendo quem entendeu (ou diz que entendeu), reparei que boa parte criticava o pensamento de Sartre. Eram apontadas diversas contradições no seu desenvolvimento teórico do existencialismo. Quando espremido por perguntas, Sartre não dizia coisa com coisa. Saía-se com maquinações ainda mais viajantes do que as que escrevera.

Insatisfeitos, alguns críticos pediram que explicasse de modo simples e claro o que queria dizer. Xeque. Sartre fazia. Só que, ao fazê-lo, ficavam claras as contradições de seu pensamento.

Confrontando com elas, Sartre explicava que, tal qual escrevera, a teoria era perfeita. Mas como ele tinha que “rebaixar” o nível da linguagem para algo mais “inteligível”, apareciam “falsas” contradições. “Falsas” porque decorrentes de uma adaptação língüística, e não em razão de inconsistências teóricas. O problema, portanto, estaria na incapacidade do interlocutor, não no seu pensamento. Desse jeito, qualquer um vira filósofo.

Por isso, desconfie das empulhações. Há algo de errado escondido por trás delas.

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