O jogo político para 2018, ou Um roteiro para a oposição

Após um longo e tenebroso semestre, parece que o clima desanuviou um pouco no Planalto Central. Depois de enfrentar uma oposição raivosa e milhões de pessoas pedindo sua deposição até pela via militar, Dilma Roussef conseguiu ultrapassar o pior da tormenta. A despeito de uma tocaia aqui ou outra acolá movidas pelos pseudoaliados Renan Calheiros e Eduardo Cunha, a deposição da presidente da República é, hoje, carta fora do baralho.

O melhor sintoma de amenização do clima vem do PSDB. No embalo da derrota eleitoral, parte mais radical do partido desceu do muro para o lado errado, embarcando na onda de impeachment. Agora, essa ala parece ter refluído e foi empurrada de volta para o muro, tal é a indisposição dos tucanos de se associarem, por ora, a qualquer pedido de impedimento da presidente.

Evidentemente, há que se comemorar esse refluxo momentâneo do ambiente político. Afinal, país nenhum do mundo suportaria quatro anos de conflagração total entre governo e oposição sem que a maionese desandasse. Pesou para essa discreta melhora a audiência de vozes mais sábias do lado oposicionista, assim como o puxão de orelhas de cabeças coroadas do petismo em alguns governistas mais exaltados, que incensavam de maneira inconsequente o embate.

Passado o momento mais crítico, resta agora à oposição começar a se coçar para entender as razões que levaram à derrota por estreita margem em 2014 e colocar em movimento iniciativas que lhe permitam virar o jogo na próxima eleição.

Do lado do governo, o jogo já está jogado. Lula será o candidato do petismo em 2018. Não por nada, mas pelo simples fato de que não há qualquer alternativa viável nas hostes governistas. A única possibilidade existente fora Lula seria Fernando Haddad. Mas, enfrentando altas taxas de rejeição, é até mesmo difícil pensar em Haddad se reelegendo prefeito. Como se viu no último pleito, 2014 concretizou de vez a cidade de São Paulo como cidadela tucana, bastião do antipetismo. E, com Marta Suplicy a dividir-lhe o eleitorado da periferia, o prefeito petista arrisca-se a não entrar nem no segundo turno da disputa.

Do lado da oposição, tudo ainda é um mar de incógnitas. Aécio tentará usar o recall da eleição passada pra ver se leva dessa vez? Ou preferirá uma reeleição mais segura para o Senado, abrindo o caminho para Geraldo Alckmin?

Evitando a casca de banana da luta fratricida pela cabeça da chapa, os oposicionistas precisam depois definir um projeto de país. E precisam disso para ontem. Fazer campanha apenas “contra o PT” não vai levar ninguém a lugar algum. Como o Elio Gaspari já cansou de escrever, um sujeito que não gosta do PT pode ficar duplamente raivoso, mas seu voto continuará sendo um só no pleito. O que a oposição tem de fazer é entender como conquistar a confiança de quem não tem apreço pelo partido da estrela vermelha, mas tampouco dá crédito a quem lhe faz oposição.

Atendidos esses pressupostos, a ala oposicionista precisará então compreender que o jogo de 2018 não começa em 2018, mas dois anos antes: em 2016. É nas eleições municipais do ano que vem que reside a maior – e talvez única – esperança de conseguir derrotar o petismo na próxima eleição presidencial.

Para a maior parte da população, e até mesmo parte dos analistas, uma coisa nada tem a ver com a outra. “Eleição municipal é eleição municipal, e eleição federal é eleição federal”, repetem os céticos como mantra. Eu, particularmente, discordo da análise. Especialmente nos rincões mais distantes do interior, o apoio político das lideranças locais é o que faz a diferença nas eleições majoritárias para cargos federais.

Por exemplo: aqui no Ceará, Dilma Roussef teve mais de 70% dos votos, com índices superiores a 80% na imensa maioria dos municípios. Curiosamente, no entanto, a disputa mais acirrada da candidata petista contra o tucano Aécio Neves foi disputada na pequena cidade de Parambu. Lá, Dilma ganhou com menos de 10% de vantagem, situação claramente destoante em relação ao Estado tomado por inteiro.

Por que Parambu rendeu uma votação tão expressiva a Aécio Neves?

A resposta é uma só: porque lá fica o reduto eleitoral do deputado federal Genecias Noronha (Solidariedade), que, por razões locais, alinhou-se ao candidato tucano. Com um cabo eleitoral forte a carregar-lhe nos ombros, Aécio conseguiu na pequena Parambu um resultado que não encontra paralelo em nenhum outro município do Ceará.

Por isso, ao invés de ficar xingando o eleitorado nordestino por votar em candidato do Governo, a oposição deveria cuidar de reforçar suas bases eleitorais no Norte e no Nordeste, para tentar pelo menos diminuir a assustadora vantagem que tiveram na eleição passada, na qual Dilma sobrou com 70% dos votos de toda a região. Sem entender isso, a oposição arrisca-se a mais uma vez dar com os burros n’água.

Se a oposição pensa em algum dia conseguir virar o jogo, tem que começar a se mexer desde agora. Do contrário, teremos pela primeira vez na história do Brasil um sujeito eleito três vezes para a Presidência da República.

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3 respostas para O jogo político para 2018, ou Um roteiro para a oposição

  1. André disse:

    Companheiro, o parabenizo pela análise lúcida e quase perfeita, inclusive quanto à imparcialidade. Mesmo para um ferrenho oposicionista que és, não me surpreende vê-lo admitir a preocupação com a oposição e a dificuldade que enfrentará para derrotar Lula no pleito de 2018.

    Desejo que essa turma a quem alertas, enfaticamente, não te ouça, mesmo porque nunca quiseram e ou souberam lidar com essa banda do País. Na verdade, não gostam de povo e se for nordestino …

    Assim quem sabe, mesmo a contragosto, estejas a vaticinar e como nunca antes na história desse país um sujeito do povo chegue pela terceira vez a Presidência da República.

    Um abraço.

  2. tai777 disse:

    Apesar de não representar totalmente meu ponto de vista, esse texto é genial – é genial – sem mais palavras!

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