A descrença geral com a religião, ou O que é um milagre?

É fato: pouca gente hoje dá crédito à religião. Desde que a Ciência resolveu assumir o protagonismo do conhecimento humano, reivindicado para si o monopólio da razão, o exercício da religião passou a ser visto como algo fútil ou, na melhor das hipóteses, excêntrico.

É fato também que a ascensão do fanatismo, seja através do islamismo, seja através de movimentos cristãos radicais, acabou por impingir certa desconfiança aos praticantes de qualquer credo. É como se todo sujeito que acredita em Deus fosse um terrorista em potencial ou, quando menos, alguém disposto a se valer de maiorias circunstanciais para cercear a liberdade alheia.

Já foi escrito aqui, por mais de uma vez, que Ciência e Religião não são mutuamente excludentes. Ao contrário. São complementares. No entanto, a cizânia parece ter vingado, e uma reconciliação entre ambas não é algo que se avizinhe no horizonte.

Verdade seja dita: o embate começou por iniciativa do obscurantismo religioso. Quando se queimavam cientistas em fogueiras, pensar numa explicação racional para fenômenos da Natureza era uma verdadeira profissão de fé. Afinal, não era apenas a credibilidade do pensador que seria colocada em xeque, mas a sua própria sobrevivência física.

Mesmo assim, desde que as fogueiras santas foram apagadas, parece que a Ciência tomou gosto pela vingança. Não satisfeita com o reconhecimento universal da sua necessidade, a Ciência agora não busca apenas o seu exercício pacífico. Ela quer se vingar. Não lhe basta, portanto, sobrepujar a Religião. É necessário exterminá-la. O irracionalismo, portanto, não acabou; ele apenas mudou de lado.

Para ilustrar o que se está dizendo, basta pensar nas recorrentes referências de cientistas a certas passagens da narrativa bíblica. Toda vez que um cristão entra na roda da conversa, logo aparece algum iluminado a perguntar-lhe se acredita na história de Josué, que, com suas trombetas, tomou Jericó após Deus “parar o Sol”.

Como todo mundo hoje sabe que a Terra gira ao redor do Sol, para que a Estrela-mãe parasse seria necessário que a Terra desse uma parada técnica no seu movimento de rotação, fato que ocasionaria a extinção de toda a vida dentro dela.

No entanto, as Escrituras não falam que Josué “ordenou uma parada repentina do movimento de rotação e translação e fez com que a Terra cessasse de girar ao redor do Sol”. Nada disso. O que está escrito no livro de Josué, em seu capítulo 10, versículo 13, é que  o sol se deteve, e a lua parou, até que o povo se vingou de seus inimigos. Isto não está escrito no livro de Jasher? O sol, pois, se deteve no meio do céu, e não se apressou a pôr-se, quase um dia inteiro”.

Nessa passagem, nenhum dos detratores da Bíblia pára pra pensar que a referência à “pausa técnica da rotação” é meramente retórica. Na verdade, quis se dizer que a tomada de Jericó foi um longo dia, ao fim do qual os hebreus conseguiram derrotar seus inimigos.

Curiosamente, nenhum dos cientistas ateus costuma analisar com o devido ceticismo algumas passagens enigmáticas da Bíblia. Por exemplo: no Gênesis, diz-se que antes do instantes da Criação não havia nada. Não havia luz, não havia Universo, não havia tempo. Somente depois que Deus disse “faça-se a Luz” foi que tudo ao nosso redor começou a existir.

Tão ciosos em encontrar parâmetros racionais para fundamentar suas análises, nenhum desses descrentes parece interessado em responder a uma questão intrigante: como beduínos de quase 4 mil anos atrás puderam construir uma narrativa tão semelhante à hipótese científica mais aceita hoje para a criação do Universo (o Big Bang)?

No fundo, o conhecimento científico baseado na detração da idéia de religião centra-se muito na destruição do conceito de “milagre”. Mas a ninguém ocorre responder antes a uma questão fundamental: o que é um milagre?

Por exemplo: parece maluquice a história das 10 pragas que Deus enviou para dar cabo ao cativeiro dos hebreus no Egito. O problema é que cientistas descobriram que, mais ou menos na mesma época em que os judeus estavam escravizados pelo Faraó, ocorreu uma grande explosão do Vulcão Santorini, na costa da Grécia. Reconstruindo passo-a-passo o cataclismo, os pesquisadores chegaram a uma conclusão assombrosa: os efeitos de semelhante explosão resultariam nas mesmas 10 pragas do Egito, na exata sequência narrada pelo texto bíblico (quem quiser tirar a dúvida, clique aqui).

Pode-se argumentar, em contrário, que a descoberta de uma explicação científica para um determinado evento bíblico antes afasta a hipótese divina do que a confirma. Tudo bem. Mas por que achar que a explicação racional para uma sequência de eventos da Natureza não possa ter como origem uma vontade superior? Ou, melhor explicando, por que razão é o acaso, e não Deus, o responsável pela sucessão de infortúnios que se abateu sobre os egípcios?

A grande questão, portanto, está em entender que um “milagre” não é necessariamente um fato inexplicável, motivado por um ato divino, que viola as leis da Natureza. “Milagre” pode ser simplesmente Deus agindo através da Natureza para alcançar um resultado pretendido por Ele.

Loucura? Pode ser. Mas vamos fazer um exercício mental:

Imagine, por exemplo, que a chance de nascer um gênio musical seja de 1 a cada 100.000 pessoas. Imagine, agora, que as as chances de nascerem dois gênios musicais na mesma época seja também de 1 em 100.000. E imagine, por fim, que as hipóteses de esses dois gênios serem contemporâneos e nascerem na mesma cidade seja de 1 em 1.000.000.000. Desconsiderando-se fatores menores, como os dois sujeitos viverem na mesma vizinhança, frequentarem ambientes semelhantes e superarem idiossincrasias pessoais, quais seriam as chances de esses dois gênios se juntarem para formar uma banda?

Fazendo um cálculo simples de probabilidades, as chances de dois gênios como John Lennon e Paul McCartney se juntarem para formar os Beatles seria de 1 dividido por 10 elevado à 16ª potência. Ou, para quem gosta de números grandes, 1 chance em 100 sextilhões. Isso equivaleria a algo como ganhar 50 vezes seguidas na Mega-sena.

Levando-se isso em consideração, é de se perguntar o que é mais racional: achar que a improbabilidade estatística explicaria tal fenômeno ou acreditar que há uma força misteriosa a governar os desígnios do Universo?

Na verdade, “milagres” acontecem todos os dias. O problema somos nós, que não conseguimos enxergá-los.

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