Recordar é viver: “O Enigma da Esfinge, ou Ninguém entendeu nada

Eu sei, eu sei; a seção Recordar é viver só costuma dar as caras aqui nas sextas-feiras. Sei também que somente os posts mais antigos deste espaço são convidados a ingressar no revival. O problema é que, desde o último domingo, revisitar o texto escrito em agosto de 2013, depois das jornadas de junho daquele ano, tornou-se uma obrigação incontornável.

E, infelizmente, ele continua tão verdadeiro quanto antes…

 

O Enigma da Esfinge, ou Ninguém entendeu nada

Publicado originalmente em 13.8.13

 

Reza a lenda que havia na Grécia uma figura mitológica com corpo de leão e cabeça de mulher. Criado apenas para produzir morte e destruição, o monstro alado fora enviado a Tebas para aterrorizar seus cidadãos. Aos viajantes que se dirigiam à cidade, a besta atravessava-lhes o caminho e propunha uma charada, formulada em tom de ameaça: “Decifra-me ou devoro-te“. Bem respondida, a charada salvaria o viajante do infortúnio e, de quebra, ele ainda levaria pra casa Jocasta, a bela rainha de Laio. Se, no entanto, a resposta fosse errada, a morte era o destino do pobre incauto.

Muitos morreram devorados pelo monstro alado, até o dia em que Édipo cruzou o caminho da figura mitológica. Resolvida a charada, o monstro destruiu-se a si mesmo.  Desde então, o Enigma da Esfinge tornou-se referência para situações nas quais a leitura dos acontecimentos pode implicar sucesso ou desgraça, a depender da sagacidade do sujeito. E, no caso brasileiro, a história contada por Sófocles em Édipo Rei nunca foi tão atual.

Há pouco mais de dois meses, o país foi convulsionado pela maior revolta popular espontânea de sua história. Sem entender o que se passava, mídia, governo e oposição retraíram-se numa postura de autodefesa, como se tivessem sido colocados diante de uma charada para a qual não tinham resposta. Em pânico, entregaram quase tudo que as massas pediram: derrubada da PEC 37, revogação dos aumentos das passagens de ônibus y otras cositas más. Tudo para ver se o monstro a deambular pelas ruas não os devorava.

Pouco tempo depois, os institutos de pesquisa foram às ruas para sentir o pulso do eleitor. Em geral, todos os governantes, de todas as esferas da federação, experimentaram quedas vertiginosas nas suas respectivas popularidades. Pelas regras da política ordinária, toda vez que um partido no poder perde popularidade, seu antípoda da oposição herda o percentual desidratado do governante de plantão.

Curiosamente, à queda dos ocupantes dos cargos executivos não correspondeu o aumento proporcional dos representantes oficiais da oposição. Ao invés de migrar para as opções existentes no cenário político, o eleitor abandonou o campo; os índices de nulo e branco explodiram.

O que explica essa contradição à lógica política?

Aparentemente, a resposta é uma só: falta oposição no país.

No processo político digamos, “normal”, a insatisfação com a classe política, com a política econômica ou com a programação dominical das redes abertas é exercida através de partidos que representam a oposição aos governos, em todos os níveis. De certa forma, os partidos da oposição funcionam como catalisadores dessa insatisfação e a dirigem em forma de pressão política, seja no Parlamento – votando contra o Governo ou emperrando agendas políticas -, seja nas ruas – em forma de manifestações ou greves gerais.

Repare que, em princípio, esse movimento pendular é por definição apartidário: esteja quem estiver no poder (direita ou esquerda), os votos migrarão por gravidade para a corrente contrária.

Para dar um exemplo bem prático: no Brasil dos anos 90, a oposição era fundamentalmente representada pelo PT. Quando o país quebrou em 1999, houve greves, paralisações e manifestações país afora pedindo “Fora, FHC”, “Fora, FMI” e “Fora, Faustão”. Com sagacidade, o PT conseguiu transformar a insatisfação generalizada com o flagelo do Governo Fernando Henrique em apoio popular. Três anos depois, esse apoio se transformou em votos nas urnas e, depois de perder três eleições, Lula elegeu-se Presidente da República.

Agora, não há oposição no Brasil. Como a maior parte dos governos é dominada pelo PT – o maior representante da oposição brasileira até 2002 – ou por seus aliados, não há mais os partidos historicamente ligados aos movimentos oposicionistas.

Naquilo que se poderia chamar de oposição, existem fundamentalmente o PSDB e o PFL. O PSDB carrega nas costas o fardo do Governo FHC. Como os tucanos são cegos, não conseguem enxergar que são um partido em extinção. Tal como as cicatrizes, as marcas deixadas no partido pela calamidade dos oito anos de Fernando Henrique Cardoso não sairão nem com cirurgia. Já o PFL, depois de perder boa parte de sua trupe para o novo PSD, jamais conseguirá se pesada herança do adesismo e do clientelismo, ainda que tenha mudado o nome para DEM.

O brasileiro olha ao redor e, insatisfeito com o que vê, não consegue encontrar alternativa atraente à mão. Resultado: saiu às ruas para exercer o papel que a oposição – por incompetência ou por cacoete – não quer ou não pode exercer.

Isso explica, por exemplo, como tamanha convulsão social foi detonada por um episódio tão banal como um simples aumento de tarifa de ônibus. Da mesma forma, explica por que as passeatas rejeitavam qualquer interferência partidária. Contrariando a regra dos sinais matemáticos, segundo a qual o inimigo do meu inimigo é meu amigo, todas as passeatas hostilizavam, quando não expulsavam, representantes de partidos políticos, mesmo aqueles da oposição. Tudo isso por uma razão só: os manifestantes não se viam representados nos oponentes aos governos de plantão. Não por acaso, até agora a principal beneficiária eleitoral das manifestações de junho é a única alternativa oposicionista que não tem partido político: Marina Silva.

Mesmo assim, muita gente boa continua sem compreender o enigma das ruas. Continuam a estudar o fenômeno segundo os padrões da lógica tradicional da política ordinária. O que eles não conseguem enxergar é que, no final das contas, a responsabilidade pelo que aconteceu naquelas semanas tensas de junho deve ser atribuída em maior grau à incompetência da oposição do que à do Governo.

Embora a calmaria tenha se instalado desde então, o monstro alado não se foi. Está à espreita, apenas esperando o melhor momento para formular a fatídica pergunta. E quem não estiver preparado para respondê-la será devorado. É assim no mundo mitológico. É assim no mundo político.

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