Recordar é viver: “Terrorismo x Civilização”

A política internacional sempre foi um ponto alto do Blog. Não só pela predileção confessa deste que vos escreve pelo que se passa fora do país, mas, principalmente, pela mediocridade geral reinante na imprensa brasileira, incapaz de enxergar dois palmos à frente do nariz. Isso, claro, quando ela não se limita às traduções mal feitas de matérias produzidas por agências internacionais.

Nesse caso, vamos rememorar uma análise realizada pouco depois do assassinato – isso mesmo: assassinato – de Bin Laden. Vivendo ainda o rescaldo do atentado à Charlie Hebdo e o horror causado pelos bárbaros martírios produzidos pelo Estado Islâmico, a provocação então realizada continua, infelizmente, mais atual do que nunca.

Terrorismo x Civilização

Publicado originalmente em 13.5.11

 

Aproveitando o mote da morte (ou não) do Osama, acho que convém falar um bocadinho mais sobre os problemas de se combater o terror.

A questão é relativamente simples: terrorismo é um ato ignominioso. Abominável, mesmo. Não há uma guerra declarada. Não se respeitam as regras de guerra. Os ataques são quase sempre contra a população civil, e não contra alvos militares. E, na grande maioria dos casos, sempre se prefere um modo de matar que cause o máximo sofrimento à vítima. Por tudo isso, todo mundo tem mais do que razão para detestar terroristas. Ok.

Do outro lado, deve estar – ou deveria estar – a civilização. Combate-se a barbárie mostrando-se o lado civilizado do mundo: regras, tribunais, devido processo legal, ampla defesa, contraditório e seja lá mais o que for. Terroristas devem ser presos, julgados e condenados, como manda o figurino.

O problema é que Estados Unidos e Israel combatem os terroristas usando os mesmos meios. Praticam o que se costuma chamar de “terrorismo de Estado”, ou seja, colocar as forças de um país a serviço de uma “causa justiceira” tal qual os terroristas entendem estarem autorizados a fazer. Aliás, foi justamente isso que Obama quis dizer quando afirmou que a “justiça fora feita” e que o assassinato de Osama era “um recado dos EUA para o mundo”.

O caso do Osama é mais recente, é verdade. Mas talvez o caso do atentado das Olimpíadas de Munique seja mais emblemático. O caso é o seguinte:

Um grupo terrorista palestino seqüestrara atletas israelenses, pedindo um monte de coisas. Israel, como sempre, mandou os caras pastarem. Disse que não negociaria coisa alguma. Depois de uma ação desastrada da polícia alemã, todos os atletas foram mortos pelos terroristas. O resgate transformara-se em tragédia.

Para “punir” os terroristas, Israel jamais pensou em trazê-los a julgamento. Desde o começo, o que se planejou foi sua execução sumária. Um a um, todos os membros da organização Setembro Negro foram assassinados, a maioria com métodos cruéis (como explodir um telefone na cara do sujeito).

Pra quem quiser conhecer melhor a história, pode assistir à sua reconstituição cinematográfica feita anos atrás no filme Munique (abaixo, o trailer).

A pergunta que se faz é: se para punir o terror deve-se usar o mesmo terror, de que adianta estarmos “deste lado” do embate? Se o único argumento que temos contra os terroristas é o argumento moral – vocês representam a barbárie e nós, a civilização – quando usamos os mesmos métodos deles, o argumento vai pelo ralo. Igualamo-nos aos primitivos insensatos e cruéis. Em resumo: ficamos sem saber se estamos do lado certo da briga.

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